O questionamento sobre tempo e espaço tem casa definida na ficção científica. Histórias sobre viagem no tempo, reinvenção do passado ou proféticas narrativas são exemplos de como o gênero quebra as leis que consideramos naturais para nos fazer refletir sobre nossa própria interação com os temas. Na casa ao lado, o horror tem aberto cada vez mais espaço para essas histórias, mergulhando suas personagens em indagações sobre a cronologia das coisas e o espaço das coisas enquanto elas atravessam algum pesadelo. Séries dramáticas e cômicas também se comprometem ao tópico, talvez o grande assunto dos últimos anos, a destacar This is Us e Boneca Russa. A grande diferença é que o horror e a ficção científica são gêneros já criados para refazer nosso mundo, o que facilita a fertilização do tema em suas terras.

Acompanhando o interesse da indústria em histórias que refazem o mundo, ganhamos Trem Infinito (Infinity Train) em 2019. Original da Cartoon Network, a animação infanto-juvenil possui três temporadas de dez episódios cada, sendo a última parte do catálogo da recém-lançada HBO Max. A série foi criada por Owen Dennis que antes trabalhara na animação Regular Show também da Cartoon. Aqui, ela chega de forma clandestina ao nosso #MêsDoHorror com a desculpa de seu envolvimento em enigmas espalhados pelas tramas e seu interesse pelo bizarro, entregando-nos cenas desconfortáveis e que flertam com o horror.

Trem Infinito.

Na história, acompanhamos passageiros de um trem enquanto eles transitam de um vagão para o outro. A diferença deste aos que conhecemos em nossa rotina é que ele não tem fim. Assim, o passageiro da vez acaba indo de vagão em vagão, passando por florestas, desertos e cidades inteiras, contidos entre a porta de entrada e a porta de saída, muitas vezes algo alcançável através de um exercício ou desvendando uma charada. Os passageiros, que foram parar ali por motivos diversos, têm em suas mãos um número registrado em um verde brilhante que vai variando conforme as atitudes deles dentro dos ambientes que encontram.

De primeira, Trem Infinito nos lembra Expresso do Amanhã (Snowpiercer), filme dirigido pelo grande vencedor do Óscar deste ano, Bong Joon-ho. Por lá, temos também um trem com diversos vagões cujos interiores vão variando de forma inacreditável conforme os protagonistas avançam. Adaptado para a televisão este ano, série e filme têm como base o quadrinho Le Transperceneige, criado por  Jacques Lob and Jean-Marc Rochette. A grande diferença entre essas histórias que envolvem uma aventura em busca do condutor é dada já no nome da animação: o trem é realmente retratado como infinito, não só por ter incontáveis números de vagões, mas porque eles continuam sendo criados.

Trem Infinito.

Como mencionado, por enquanto temos três temporadas que funcionam como antologias. Mesmo dentro do mesmo universo, as histórias seguem rumos independentes, fazendo breve referência às personagens anteriores. Em cada um dos ciclos (referidos originalmente como “books”), encontramos crianças lidando com dilemas sérios, desde a aceitação dos pais e a lealdade com os amigos ao questionamento da existência em si. Ricamente animado, as perguntas são encaixadas dentro de um universo que parece ter todas as possibilidades em si sem nunca se preocupar com o que é real e crível fora do trem: objetos e animais falantes, gravidade presente e ausente e espaços expandidos e comprimidos conforme os percorremos, entre tantos outros exemplos.

Por mais que suas personagens sejam crianças e adolescentes e a comédia se dê muitas vezes num lugar lúdico que adequa o seriado aos companheiros de canal, Trem Infinito tem passagens agressivas. Desde a morte de personagens importantes de maneira horrível ao comportamento dos vilões e seus destinos, há um grau de maturidade que nos pega desprevenidos quando a história decide optar por caminhos obscuros — quase como se assistíssemos a uma animação infantil se corromper. Isso só quer dizer que os adultos acharão a série excelente, mas talvez ela não deva ser apresentada a crianças muito novas ou muito sensíveis. Parece exagero, mas tenho pelo menos três cenas horríveis ainda na memória enquanto escrevo o texto.

Trem Infinito.

Trem Infinito é uma série rica em diversos sentidos. O roteiro é engraçado, as personagens são cativantes, os temas debatidos são interessantes e o universo é tão empolgante e inspirador que é capaz que você saia da maratona querendo criar suas próprias histórias. Durante a jornada, ganhamos boas músicas, cantadas pelas personagens em momentos musicais divertidos ou emocionantes. A trilha original é uma mistura entre o onírico e o desafiador, combinando perfeitamente com os dilemas enfrentados pelas personagens.

Quanto às temporadas, começamos com Tulip, garota de treze anos que está tendo problemas para se adaptar à separação dos pais. Depois de fugir de casa após uma discussão séria com a mãe, ela encontra um trem e decide embarcar, ingenuamente acreditando que ele poderá levá-la a um acampamento. Para auxiliar a menina em sua jornada, ganhamos companheiros de viagem — sendo os da primeira temporada (intitulada The Perennial Child) insuperáveis em relação aos demais. Durante a temporada, vemos Tulip vasculhar as memórias que têm da família e a questionar seu próprio comportamento, a pessoa que tem sido nos últimos dias.

Trem Infinito, primeira temporada.

Na segunda temporada (Cracked Reflection), temos uma versão de Tulip como o foco. Chamada MT, esta “nova” personagem, que apareceu em um episódio do ciclo anterior, encontra outros amigos pelo caminho, formando uma aliança. Juntos, o novo trio precisa ajudar Jesse, seu carismático novo amigo e passageiro do trem, a mudar a numeração de seu braço para sair do trem. MT, enquanto isso, deve elaborar modos de trapacear a lógica desse meio de transporte inusitado para se ver livre dele. Os episódios aqui são acompanhados por uma perseguição que parece um aceno a Exterminador do Futuro 2 — o que meio que diz muito sobre a seriedade da animação.

Trem Infinito, segunda temporada.

Seguindo a lógica das histórias encadeadas, mas independentes, a terceira temporada (Cult of the Conductor, primeira a estrear na HBO Max) tem como foco uma equipe de crianças lideradas por Grace, anteriormente vista em outras temporadas. A personagem é responsável por influenciar diversos jovens sob seu comando, convencendo-os de uma teoria da conspiração que nós, telespectadores, sabemos não ser verdade. Assim que encontra uma dupla ao acaso quando separados de seu grupo, Grace e o amigo Simon, companheiro de longa data, começam a questionar as próprias verdades. Os dois seguem caminhos distintos, dando-lhes um destino ímpar.

Trem Infinito, terceira temporada.

Às vezes assustadora e às vezes melancólica, Trem Infinito é uma empolgante animação. Recomendada com carinho, mas com cuidado, é a série perfeita para se assistir com crianças interessadas em mistérios e animações, aquelas que já crescem com um pé na ficção científica e os questionamentos que ela traz. Fazendo com o telespectador a mesma elasticidade que faz em seu enredo, talvez a série consiga expandir seus onze minutos de duração para horas ou dias, permanecendo contigo muito tempo depois das personagens terem encontrado suas respectivas saídas.

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Este post faz parte do quinto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-trem-infinito-nos-apresenta-um-universo-misterioso-e-encantadorTrem Infinito é uma série rica em diversos sentidos. O roteiro é engraçado, as personagens são cativantes, os temas debatidos são interessantes e o universo é tão empolgante e inspirador que é capaz de você sair da maratona querendo criar suas próprias histórias.