A TV Australiana é um caso complicado de se comentar, para aqueles que não estão familiarizados, os habitantes da ilha continente não têm uma programação minimamente interessante ou relevante, para falar a verdade, a grade de programação do país consiste em, basicamente, reality shows sobre qualquer atividade cotidiana ou coisa viva. Não é raro filmes e séries entrarem em catálogo na TV aberta — e fechada — com seus bons 5 anos atraso (conhecemos bem essa realidade aqui no Brasil, cenário que passou a mudar nos últimos 7 anos).

Mas Denis, no que isso tem relevância numa série feita integralmente para streaming? Tidelands é uma Original Netflix, a primeira do país…

Tidelands é fruto da cultura aussie em seu cerne. Australianos raramente ficam dentro de casa, são crias do ar livre que trocam facilmente a TV e a Internet por um rolezinho à beira da praia. Audiovisual é uma distração de segundo plano e não domina a vida deles como a nossa aqui à Oeste, sendo assim, o apelo tende a ser maior para que aquelas pessoas se prendam e distraiam defronte aos meios que usarão para assistir ao show. Para tanto a série usa e abusa de clichês, elementos fantásticos e um envolvente jogo de sedução para atrair.

E consegue.

A trama gira entorno de Calliope McTeer (Charlotte Best, surpreendentemente boa e segura no papel) retornando a Orphelin Bay como persona non grata após dez anos encarcerada. O lar de Cal é o retrato do desestruturado: a mãe a quer longe ou morta, o irmão é o traficante local cheio de segredos e a cidade a odeia pelo crime cometido apesar de seus próprios crimes, segredos e mentiras. Tudo isso é embalado pelos Tidelanders que dão título a série: um povo antigo, belo, poderoso, perverso e encantador. Tudo dentro da produção converge para os personagens e suas ações, somadas as de Cal em prol de se encontrar, trazem o chamariz perfeito para discutir temas cotidianos e sociais.

Tidelands
Tidelands

Tudo é muito bem dosado de forma a não ficar gratuito ao ser aplicado em tela e talvez esse seja o grande acerto da produção, afinal pecar nos caminhos que escolhem é erro comum de produtores, principalmente na Netflix com suas tramas fechadas. Tidelands, nesse caso, se aproxima muito mais de uma narrativa televisiva seriada como a conhecemos: com um ritmo calcado em ganchos e arcos dentro de arcos, com subtramas convergindo ao longo dos episódios para culminar numa apoteose.

As atuações não são um primor e é bem verdade que os atores levam um tempo para encontrar o tom de seus personagens (com exceção aqui da protagonista), principalmente Elsa Pataky com sua interpretação da Rainha de L’Attente; teatral e expansiva, convergindo tudo em cena a ela e sem qualquer resquício de minúcia em seus momentos. Adrielle é, para todos os efeitos, uma Regina George meio sereia embriagada de poder.

Do outro lado da moeda temos o brasileiro Marco Pigossi fazendo bonito. Dylan está frequentemente presente e tem excelentes cenas com as protagonistas, seu arco dentro da narrativa que contrasta e conversa perfeitamente com o de Cal, colocando-o ao contraponto e entregando a dualidade necessária para tornar o personagem prismático. O rapaz, protagonista de novelas brasileiras, mostra que domina bem o inglês e que se entrega de corpo e alma aos personagens, arriscando até um pouco do sotaque nativo aussie para compor o personagem.

Marco Pigossi em Tidelands
Marco Pigossi em Tidelands

Temos sexo, temos magia, temos violência e corrupção, mas nunca ao ponto de incomodar ou interferir na trama, que encara todos os pontos com a seriedade necessária, não zombando de seus elementos na intenção de comprar o espectador. Aquela realidade da série existe e há urgência e perigo nas belas criaturas que jamais choram ou tem remorso de seus atos, por mais cruéis que nos pareçam. A concepção de sociedade, regras, leis e estrutura hierárquica são encantadoras em suas minúcias. A série é extremamente bem resolvida em seu worldbuilding.

Em comparativo direto, Tiedlands pode ser colocada ao lado de produções do antigo The WB e dos primórdios do CW, tratando de temas pesados, mas com um clima jovial e solar; com personagens desgraçados por seus dramas pessoais, mas que lutam pelo que desejam e são de fácil assimilação. São caricaturas aumentadas da nossa realidade, que mexem com aquele sentimento que todos sempre temos a remoer em algum lugar lá dentro.

O plano de fundo de uma Baía Orfã para tratar as perdas pessoais de cada um atrai tanto quanto as canções das sereias que embalam os pesadelos dos pescadores: há encanto no perigo; E Tidelanders capta o espírito, hipnotizando e envolvendo o espectador até afundá-lo nas águas cristalinas e lotadas de sentimentos, afogando-o daquele mundo e fazendo-o não querer mais sair.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-tidelands-belas-caricaturasTidelanders capta o espírito, hipnotizando e envolvendo o espectador até afundá-lo nas águas cristalinas e lotadas de sentimentos, afogando-o daquele mundo e fazendo-o não querer mais sair.