Carentes de um audiovisual que explore nossa rica cultura em todas as suas dimensões, a nova era de ouro das séries, iniciada pela possibilidade das plataformas de streamings, tem nos dado esperanças. Além de cinematografias lindas, roteiros com um humor bem estruturado e histórias que trazem a periferia para o centro, não somente um núcleo secundário, temos os gêneros sendo tocados por esse impulso. As consequências são várias, mas vou focar aqui no horror. Temos boas perspectivas vindo do cinema, no cruzamento entre mistério, fantasia e ficção-científica. Morto Não Fala (Dennison Ramalho), O Clube dos Canibais (Guto Parente) e A Noite Amarela (Ramon Porto Mota), atualmente em cartaz, exemplificam essa vibração para a categoria.
Mas e as séries? Bom, produzir horror não é fácil no Brasil, afinal, os telespectadores estão sempre mais empolgados em achar defeito nas produções do que se deixar levar pela experiência do horror. E o horror, ao contrário de outros gêneros, exige esse compromisso, exige a experiência. Nós somos duros com nosso conteúdo televisivo. Mesmo com essa barreira inicial, os canais se propõe ao risco e nos entregam séries como O Escolhido (Netflix), SuperMax (Globo), Desalma (futura produção da Globoplay) e Terrores Urbanos, série da Play Plus (Record), sobre a qual conversaremos aqui.

Para começar, vale dizer que Terrores Urbanos é uma série que, mesmo fazendo uma estreia tímida e se mantendo nesse perfil até agora, vem sendo antecipada há muito tempo. Talvez não a própria produção, mas qualquer uma que voltasse a fazer referências às crenças e aos medos urbanos, temas de outros programas como Linha Direta (Globo) que ia ao nosso histórico social caçar boas narrativas. As histórias que nós ouvimos desde pequenos, na inocente época em que os relatos não se multiplicavam na internet para vermos sua falta de autenticidade, não chegavam à tevê no espetáculo que renderiam. Quando chegavam, representavam poucos minutos em quadros do Fantástico (Globo) ou do Programa do Gugu (SBT).
Terrores chega para reparar esse erro. Talvez chegue tarde demais, pelo menos no que diz respeito à proposta de fazer a transição da tradição oral das lendas urbanas para a televisão. Alguns anos atrás possivelmente encontraria um público mais disposto a se render ao horror no mesmo jogo de aversão e curiosidade que fazia Linha Direta se manter tão bem em audiência.

As cinco histórias separadas para a primeira temporada não se preocupam em vasculhar nossos medos de agora. Não falam, por exemplo, das criaturas pouco bem-vindas que estavam aparecendo nos desenhos animados no YouTube e que pediam para as crianças que estavam assistindo cometer suicídio. Aqui vamos ao básico, à quase tradição de histórias que nos treinaram para sermos seres crentes no sobrenatural. Voltamos às histórias que ouvíamos na escola, em visitas de família ou víamos divulgadas nos veículos disponíveis. Pode soar datada, portanto. Para resolver o problema, a série se volta para o nosso presente em seu desenvolvimento e nos temas que escolhe.
Nos conflitos escolhidos para compor essa primeira safra de histórias, temos questões universais, que não necessariamente se enraízam na nossa cultura. Falamos sobre aparência, poder e solidão, entre outras problemáticas, mas nada intrínseco aos nossos dilemas brasileiros. Isso ajuda a criar uma relação mais abrangente entre público e telespectador, mas deixa a história menos nossa. É evidente também a falta de desenvoltura dos roteiros para conflitos complexos. A atmosfera está presente e é bem construída nos episódios, mas falta mais tato para chegar a bons finais ou elaborar melhor como as personagens encontram seus destinos. Se ainda pensarmos no horror como experiência e sublinharmos que a experiência de algo não se condiciona à nossa expectativa de começo, meio e fim, isso se torna decisivo em nossa avaliação da temporada. Mesmo quando ouvimos histórias “reais” contadas por pessoas próximas, nem sempre temos um final adequado, realista ou satisfatório.

Há uma relação entre as histórias que não se dá no nível mais fácil, conectando as personagens. A relação está na atmosfera, no comportamento das personagens e no desenvolvimento do horror presente na história. Na maioria dos episódios, temos um horror doméstico, dentro de um cotidiano pequeno, que minimiza a grande escala que as lendas urbanas têm. Isso porque, quando contadas, são geralmente contadas nesse aspecto, em uma reunião familiar ou dentro de um grupo pequeno. Com quatro das cinco histórias protagonizadas por mulheres, também temos um encontro nessa escolha. Outro ponto em comum é a jornada do surto presenciada em todas as histórias.
Temos ótimos profissionais de efeitos visuais e especiais trabalhando na indústria do audiovisual, então criar uma série com um horror mais expositivo, passeando pelo grotesco e outras linguagens que tornam o gênero menos sutil não seria impossível. Só não era o foco. Grande parte das séries de horror internacional, inclusive, são pautadas nesse tipo de horror, que é quase um horror da grande produção, ostentando cenários, maquiagens e próteses que seriam o sonho dos profissionais daqui. Causar a repulsa e o estranhamento, o incômodo pretendido no telespectador, através desses recursos me parece mais fácil até. O caminho que Terrores escolhe é mais difícil.

O rumo que a temporada toma é melhor observado se falarmos dos episódios e de como eles se desenvolvem. Em A Loira do Banheiro, começamos com a personagem mais famosa de nossas lendas urbanas. Ouvir e praticar a receita da história que envolve a Loira é quase um rito de passagem do ensino fundamental ao médio. Depois de crescidos, sabendo que é improvável que ela tenha visitado todas as escolas aonde a lenda chegou e todas as escolas tenham tido uma menina com tal destino, qual seria o caminho para nos assustar? A força de certas lendas se dão pelo momento em que a ouvimos. No caso da Loira, em uma parte da infância na qual estamos abertos até ao inverossímil do sobrenatural.
O roteiro de Maristela Mattos e Thaís Falcão para o episódio não usa esse atalho, não tenta girar em torno da personagem sobrenatural como filmes hollywoodianos recentes têm feito. Entramos na cabeça de Bianca (Duda Balestero) e vemos o mundo adolescente ganhando a mesma proporção dramática que tem aos olhos das pessoas dessa idade. A gravidade do estado psicológico da protagonista é nítida, bem apresentada pela atriz e pela direção. Há uma construção do delírio que ganha na maquiagem a oportunidade do episódio construir sua atmosfera.

Tanto quando éramos crianças ouvindo a narrativa da garota do banheiro quanto agora, mais desacreditados (ou não), a beleza continua sendo um tópico importante na sociedade. Assim como dinheiro, ganância e a visão da sociedade sobre a maternidade, temas dos outros episódio. Esta é a ligação entre o horror idealizado, das crônicas que compartilhamos entre a gente durante anos, e o horror real, atualizado para os adultos.
Em todos os episódios, temos algo funcionando como o catalisador do surto que acompanhamos. No primeiro, a obsessão da personagem com seu corpo. No segundo, A Gangue dos Palhaços, o dinheiro vira essa fonte de material para que alguém perca a sanidade. A perda do controle vai acontecendo aos poucos, influenciada pelas reviravoltas na vida financeira da protagonista. Quando seu marido é preso, e a estabilidade deles é ameaçada, Rosane (Júlia Lund) não enfrenta apenas os amigos, a imprensa e a justiça, mas o que começa a ser criado na sua cabeça. A ilusão e a realidade se confrontam nesse verdadeiro conto sobre a decadência de uma família.

O Quadro do Menino que Chora, terceiro episódio, traz uma atmosfera mais mitológica para a série. No primeiro, temos o sobrenatural, no segundo, o irreal; enquanto neste terceiro há uma espécie de tradição popular ao redor do objeto que catalisa o surto de Hélio (Augusto Madeira). Assim, mesmo que a investigação do psicológico das protagonistas costure as histórias, ela não se dá no mesmo molde. Não mais sobre instabilidade na vida familiar, falamos aqui sobre culpa e ressentimento.
O Boneco, diferente das outras histórias, não parece algo apenas nosso. Os mitos de bonecos famosos aprontando por aí são antigos no Brasil, mas a onda internacional de filmes que falam sobre o assunto faz parecer que estamos importando uma ideia para complementar essa antologia. O desenvolvimento do episódio, que cai nos vícios norte-americanos em muitos momentos, não facilita que consigamos desvencilhar os dois mundos, nossas histórias e as deles. No entanto, ganhamos um episódio bem atuado, que fala de maternidade e toda a carga relacionada à rotina das mães.

Todas essas histórias parecem convergir em O Homem do Saco. Outra história urbana muito famosa, sua transcrição para a televisão vem em um episódio escrito e dirigido por Fernando Coimbra. Se antes vimos o plano do sonho e da realidade em discussão, assim como a jornada do surto causada por algum ser-objeto que adentra a rotina da protagonista e lhe obriga a enfrentar seus medos, este episódio reúne todas essas características. Há um senso de confusão que se banha de sangue diante do público.

O telespectador talvez fique surpreso pelas escolhas de Terrores Urbanos. Aquele que vier pronto para o horror mais escancarado poderá se frustrar ao encontrar um horror comedido. Muito do que é assustador está na cabeça das personagens, perturbando-nos de maneira indireta, afinal, é sempre desconcertante ver alguém perdendo a sanidade. A produção tem uma identidade própria e uma jornada de histórias coesas não só isoladas, mas entre si. Fala sobre o sobrenatural, mas também sobre a rotina das mulheres em nosso país — algo que não deixa de ser sobrenatural. As perspectivas para o horror brasileiro na televisão, refletindo o ótimo momento no cinema, mostram-se promissoras. Ainda é um mercado tímido, que se arrisca de vez em quando, fazendo-nos nos perguntar se essa indústria não tem ideia das possibilidades que tem em mãos.
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Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.















