Toda vez que uma série apresenta uma temporada estreante que chama atenção pela qualidade do roteiro e de atuação dos personagens, quando a sucessora se aproxima a dúvida se será tão boa ou melhor que a primeira paira a mente dos telespectadores. Sex Education surgiu em 2018 e logo foi reconhecida pela maneira como tratava de assuntos importantes aos jovens, principalmente nessa época de descobrimento da vida sexual, o que acaba envolvendo diversas outras questões.

Finalmente tivemos a estreia da segunda temporada e a série demorou, mas não decepcionou. O ponto alto dessa nova temporada de forma geral é a forma como conseguiram aprofundar os personagens e tramas que já existiam desde seu primeiro ano e inserir novos personagens tão carismáticos e com uma boa química quanto os que já estavam presentes.

Conhecida por suas roupas coloridas e extravagantes, com um clima nostálgico dos anos 80, Sex Education inicia sua temporada com um surto de clamídia, ou pelo menos era isso que os alunos acreditavam ser, a desinformação dos jovens é o pontapé inicial para a narrativa proposta. A presença de Jean na escola é uma forma muito divertida e inteligente de se trabalhar tanto a relação dela com o Otis, quanto movimentar a dinâmica dentro da escola. Acredito que um dos motivos para que a personagem tenha sido inserida nesse ambiente para relembrar que seu filho de dezesseis anos, que não possui uma formação para oferecer conselhos amorosos e sexuais para pessoas da idade dele, não estava fazendo algo correto. A série é bem ciente dos núcleos em que deve ter cuidado ao tratar. Ainda sobre a Jean, a relação dela com o Jakob parecia tão melhor na última temporada, mas acho que o choque de realmente estar se relacionando com alguém a afetou de uma forma que ela não imaginava, juntando com o fato do Otis ser insuportável, fico imaginando como funcionará agora que a personagem descobriu estar grávida.

Mesmo que muitos não concordem, o núcleo do Otis foi muito agradável para mim, o protagonista não é o personagem mais interessante, porém consigo entender que assim como seus amigos, ele também está em um momento de conflito consigo mesmo, o que fica bem claro com o último episódio e a conversa que ele tem com seu pai sobre não se transformar em alguém como ele. Era meio óbvio que ele era apaixonado pela Maeve e não pela Ola, nunca tive dúvida que os dois iriam terminar até metade da temporada. Não sou o maior fã da Maeve e do Otis juntos, mas a química entre os dois era três vezes maior do que qualquer momento que a Ola tivesse com ele.

Uma coisa é certa: todas as duas merecem algo muito melhor do que o Otis estava oferecendo nessa temporada, foi bom ver o desenvolvimento de núcleos separados para cada uma. A amizade entre Lily e Ola que logo se desenvolveu para algo mais romântico foi algo bem trabalhado também, a personagem se descobrindo como pan também trouxe um bom diálogo para a série. Gostei muito das duas juntas e de como elas estão em equilíbrio e sintonia, a Ola é incrível em tudo que se propõe e funciona bem melhor como amiga do Otis.

Em relação à Maeve, a personagem é minha favorita, não só pela profundidade e a forma como ela foi construída, mas pela simplicidade dela. Diferente do protagonista que é mimado e possui problemas que são um pouco distante da realidade, não que os problemas se anulem, mas acho que a personagem faz com que as pessoas se identifiquem mais a ela. Desde que a mãe dela apareceu ficou claro que isso daria problema, só não esperava que eu fosse gostar tanto da mãe da personagem, me desprendi completamente da ideia maniqueísta, conviver com parentes que sofrem com o vício é algo complicado para todas as pessoas envolvidas. O final desse arco foi o mais trágico possível, você entende o lado da Maeve de querer não só proteger a Elsie, mas se proteger também.

Outro aspecto que me faz ficar cada vez mais encantado pela Maeve são as diferentes camadas da personagem, fico tão feliz toda vez que reconhecem o quão inteligente ela é. A forma como ela foi tratada no time de debate foi péssima e injusta. Um dos pontos altos da temporada foi o texto que ela fez sobre querer uma casa grande com janelas, são essas pequenas coisas que tornam a personagem tão humana. A relação dela com o seu vizinho Isaac foi algo muito bom também, a questão dos roteiristas inserirem personagens de forma tão natural e como são carismáticos também. Infelizmente ninguém é perfeito e o personagem fez aquilo no final e com toda certeza haverá consequências, ainda mais ao estarmos tratando da Maeve, que odeia que tomem decisões por ela.

Como nem tudo é perfeito, o que direi agora talvez levante represálias, o personagem do Rahim foi colocado apenas como um namorado para o Eric ou foi só para ser o namorado do Eric mesmo, porque eu entendo que inseriram vários traços da personalidade dele, mas não consegui me apegar de forma alguma, ele aparecia do nada e dizia pro Eric ler uma poesia ou que as pessoas não se divertiam porque não se permitiam, não gostei tanto disso, mas fiquei feliz que o Eric pode entender que precisava se respeitar em relação ao Adam.

Uma das críticas da última temporada foi à “romantização” da relação do Adam e do Eric, como o Adam foi uma pessoa ruim por anos para o Eric e do nada eles estavam juntos, como essa narrativa já estava batida, fiquei muito feliz de ver que a série concorda com isso e trabalhou em cima desse argumento, como apontado pelo Otis, o Eric precisava não se amar para aceitar alguém que o tratasse dessa forma. Ao mesmo tempo em que concordo com Otis, entendo que existem outras perspectivas a serem analisadas, que nem envolvem o Eric, mas sim o Adam e sua família. Outro ponto positivo da temporada foi a emancipação da mãe do Adam, a forma como ela conseguiu sair de um relacionamento já fadado ao fim foi inspirador, não esperava que ela fosse receber tanto destaque, mas fiquei tão feliz que recebeu e a amizade dela com a Jean é uma das provas que a série consegue trabalhar seus personagens em diferentes níveis e de variadas formas.

Algo comprovado por esse triângulo amoroso formado por Eric, Adam e Rahim é que o coração decide por quem você vai se apaixonar e a cena que o Adam vai até o Eric foi linda, a felicidade que o Eric sente com o Adam é tão explícita, acredito que o Adam tenha muito que trabalhar em si mesmo para que possa realmente se desconstruir, mas foi uma boa temporada para ver como ele está caminhando, desde ele se descobrir bi, com a ajuda de Ola, até ele perceber que precisa lutar por quem ele ama e que pode ter amigos que o apoiem. A cena em que ele diz que está com medo só mostra o quão assustado ele se tornou depois de tantos anos temendo a decepção do pai.

Assim como na primeira temporada vimos como personagens secundários recebiam o seu devido espaço e nessa temporada não foi diferente, tivemos uma participação de mais personagens que trouxeram diferentes questões sobre sexualidade, autoconhecimento e aceitação.

Uma dessas inserções foi Viv, que deu ao núcleo de Jackson uma profundidade muito melhor, o personagem, que é o mais desconexo de todas as narrativas, é o que mais me preocupava, a forma como ele sofria com sua ansiedade e como seus problemas familiares o faziam mal junto da pressão da mãe só mostravam que em algum momento aquilo iria acarretar em algo mais sério e foi o que aconteceu. O que Viv fez foi o correto, tratar o assunto de ansiedade com responsabilidade é mais um mérito da série. Espero que a personagem só cresça na série assim como aconteceu com a Aimee.

Aimee teve um importante papel nessa temporada, sua história é algo que acontece diariamente com milhares de mulheres, a forma como a série escolheu para tratar o abuso sexual que a personagem sofreu e as consequências disso foi muito bem desenvolvida. A conclusão disso foi reunida em um compilado de cenas lindas quando todas as personagens femininas se uniram e quebraram as coisas no ferro velho, além de estarem lá com a Aimee para pegar o ônibus, são essas pequenas coisas que fazem com que a série só melhore.

Sex Education encerrou seu segundo ano de maneira agridoce para mim, senti que os últimos acontecimentos foram tão corridos e ficaram faltando diálogos ali, talvez seja apenas a minha ansiedade, mas a série conseguiu dar seguimento as suas narrativas ao mesmo tempo em que inseriu outras novas e tão empolgantes quanto. A terceira temporada possui várias direções a serem seguidas e muitas coisas para desenvolver, talvez a demora para a Maeve e Otis ficarem juntos esteja se arrastando mais do que o necessário, inclusive acredito que vão colocar um relacionamento entre ele e a Ruby, mas se for tão bem desenvolvido quanto essa segunda temporada, por mim não tem problema. A série continua com seu mérito de tratar temas importantes de uma forma criativa e divertida, mas consciente do assunto em que estão tratando e da relevância e responsabilidade que possuem.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-sex-education-faz-um-segundo-ato-tao-bom-quanto-seu-primeiroúltimos acontecimentos foram tão corridos e ficaram faltando diálogos ali, talvez seja apenas a minha ansiedade, mas a série conseguiu dar seguimento as suas narrativas ao mesmo tempo em que inseriu outras novas e tão empolgantes quanto.