Ellen é uma profissional tão dedicada e apaixonada pelo trabalho, no qual possui uma amigável convivência com seus patrões, que, assim que descobre que está grávida, começa a se preocupar com o que acontecerá durante seu período de licença maternidade. Para cuidar de seus projetos já encaminhados, que incluem uma charmosa biblioteca para certo cliente, ela ajuda Kay e David, seus chefes, a encontrarem alguém que seja qualificado. Entre as entrevistadas, surge Paula. A candidata está voltando à ativa depois de ficar dez anos fora, cuidando da família. Em poucos minutos, entretanto, é perceptível seu talento nesta profissão e o quanto ela pode adicionar à equipe. A candidata perfeita, na verdade. Talvez perfeita demais para se acreditar.

The Replacement chegou à BBC One em fevereiro deste ano e teve suas três partes exibidas às terças-feiras. A minissérie foi escrita e dirigida por Joe Ahearne, que já ocupou os dois papéis nas minisséries Apparitions (2008), sobre um padre que investiga evidências de milagres e performa exorcismos, e The Secret of Crickley Hall (de 2012, adaptação do filme de mesmo nome), que retrata a tentativa de uma família de se reajustar em outra casa após o desaparecimento de um dos membros. Contando com o mistério e o supernatural registrados em sua carreira, o diretor ainda foi o responsável pelo roteiro de Trance (2013), filme estrelado por James McAvoy e Vincent Cassel. Ou seja, o gênero não lhe é estranho, e ainda que tenha tido um breve envolvimento com Doctor Who, é no thriller a sua área de atuação — por mais que às vezes isso não transpareça.
Definido pela BBC One como um thriller psicológico, a minissérie, de quase três horas no total, foca justamente nessa questão. O jogo de manipulação estabelecido entre as duas protagonistas é vendido como a atração principal. Não há muitas reviravoltas inteligentes, ou mesmo interessantes, então o que sustenta a narrativa é a proposta de investigar quais gatilhos alguém possui e que pode lhe fazer enlouquecer. A protagonista, que demonstra desde os primeiros momentos ser bem instável, tem suas fraquezas cutucadas por alguém que provoca, sabendo não deixar isso evidente.

O roteiro explora situações que, mesmo que não sejam tão complexas, assim parecem para suas personagens. Não é tão novidade, e facilmente lembramos clássicos como Atração Fatal (1987), A Mão que Balança o Berço (1992), ou o brasileiro O Lobo Atrás da Porta (filme de 2013, mais do que recomendado) em alguns momentos. Obsessed (aquele de 2009 que tem a Beyoncé e um trailer maravilhoso e só), Respire (2014), entre outros.
Esse embate entre duas mulheres é clássico e diversos outros exemplos poderiam ser dados. Para entender a atração de se contar essas histórias, que podem não começar como a briga por um homem até que se tornam sobre isso, precisaríamos abandonar os comentários da produção britânica e conversar sobre a indústria em geral (ótima proposta, mas não a deste texto), então digamos apenas que isso existe, é mais escancarado do que os produtores gostariam que fosse, e The Replacement chega para recontar uma história que já foi contada por aí em roteiros mais interessantes, mais elegantes e mais inteligentes.

O que a série nos oferece, em retorno, são ótimas atuações, principalmente da premiada atriz Vicky McClure, que aqui interpreta uma antagonista que muitas vezes não sabemos se é, de fato, a antagonista da história. Paula, sua personagem, pode fazer o oposto daquilo que o roteiro aposta e cativa o público justamente porque é tudo aquilo que a protagonista falha em ser: alguém inteligente e que sabe adquirir o que deseja. É muito difícil não acabar torcendo, nem que seja um pouco, para uma personagem inteligente. Ellen (interpretada pela atriz Morven Christie), é o contrário. Histérica e manipulável, a protagonista passa boa parte do tempo caindo nas mais óbvias armações e tentando ganhar a confiança das pessoas a sua volta (literalmente) no grito.
Acostumados com esse tipo de história, esperamos o momento da virada por boa parte do tempo, e ele parece não vir. O roteiro se torna um conjunto de situações novelescas cuja protagonista não sabe ou não quer revidar. À medida que vai perdendo a posse das coisas que mais ama, nossa empatia ainda nos impulsiona a desejar que se reerga (talvez porque Paula é realmente assustadora), mas é preciso muita paciência para não querer, no mínimo, dar um sermão na arquiteta.

A partir do primeiro episódio, lidamos com a morte de uma personagem tomada como suicídio, o que não faz sentido, e assim creditada pelo restante das personagens. Como ocorre com Ellen, a impressão é que o restante do elenco não pensa. Seu marido, por exemplo, que é um terapeuta, joga fora todo o conhecimento que possa possuir sobre comportamento humano e toma decisões equivocadas, uma atrás da outra. Ian, aliás, consegue ser tão péssimo quanto a própria personagem principal no que diz respeito a obviedades, abusando de clichês como o ciúme.
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Os pontos positivos em relação ao roteiro incluem a reviravolta que explica a vida pessoal de Paula e o relacionamento atual com a filha; e um final, no qual, por mais que falte um embate empolgante de boas personalidades (talvez porque não haja as boas personalidades), há a escolha da mulher de reavaliar o convívio com as pessoas que pensaram que ela enlouquecera na primeira chance que tiverem. (Ah sim, toca Marisa Monte — sem o Brasil como contexto, bem de surpresa, e é uma informação que, sim, precisava estar nesse texto.)

Contando sua história, bem ou mal, nesses três episódios, The Replacement vai passar batido por muitas pessoas, pois não é tão sofisticada quanto a abertura, que é deslumbrante. Há momentos visualmente bonitos, mas que não escondem o oco de certas cenas. Entretanto, mesmo sem uma história muito elaborada por trás, acredito, ainda assim, que valha a pena conferir. Até porque dá para maratonar timidamente ou em um pedaço de tarde. É novelesco e melodramático, mas estes não costumam ser defeitos para muitas pessoas. E talvez a série tenha nelas seu público alvo.
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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2016 e setembro de 2017.
















