É possível entender o sucesso de determinadas histórias assustadoras em uma região entendendo, primeiramente, do que as pessoas desse lugar têm medo. Em cidades grandes, por exemplo, aquelas histórias sobre invasão domiciliar, com direito a residentes indesejados convivendo dentro da sua casa por meses de maneira despercebida não alcançam grande público à toa. Um dos nossos maiores medos, criaturas de apartamento, é ter a sagrada segurança de nosso lar violada; é ver a violência do exterior tocando aquilo que vemos como interior. Com discos voadores, então, qual seria a razão para o sucesso desses mitos espalhados?

Eu poderia classificar as razões em duas: o medo do desconhecido e o medo de se perder o domínio do próprio corpo. Isso porque, em histórias de extraterrestres, estamos sempre ouvindo como a pessoa é sequestrada, levada a um estado em que não pode se mover e se torna objeto de estudo de curiosos de outros planetas. Perde-se o livre arbítrio defendido pela religião cristã ou as garantias fundamentadas pelos Direitos Humanos. A liberdade sobre nossos corpos é o destino mais distintivo de nossa racionalidade — e não é por nada que a privação dessa autonomia na maior tragédia humana se foi dada pela explicação de que se estava tirando a liberdade daquilo que não era humano. Para entender o pavor do desconhecido, não precisamos ir muito longe, já que ele explica muitas configurações sociais que temos e as consequências para as separações que nos damos em nossas convivências.

Aidan Gillen in Project Blue Book (2019)
Project Blue Book.

É numa época e ambiente alimentados por esses dois medos que encontramos Project Blue Book, série da History que estreou em janeiro deste ano. Em dez episódios de mais ou menos quarenta minutos, a produção se coloca diante da fascinante e perigosa pergunta que muitos, dentro e fora da ficção já se propuseram: existe algo lá fora? É tudo do ponto de vista norte-americano, em época de corrida espacial e Guerra Fria. Este último aspecto pode lhe distanciar da maratona, uma vez que o mito do soviético dentro da narrativa televisa estadunidense está ficando enfadonho. Além disso, depois de The Americans (FX), há realmente algo a ser feito?

Blue precisa, sim, de certa paciência do telespectador; demanda que este releve os conflitos políticos. Isso posto, é preciso reconhecer que a paranoia da época, sustentada por um governo pronto para iniciar uma guerra no mínimo sinal de conflito e sem a possibilidade de se desmentir coisas em massa que a internet hoje nos provém (ou deveria provir), temos o berço perfeito para histórias de monstros — nesse caso, histórias de extraterrestres. O contexto, portanto, conta muito e justifica o comportamento histérico dessa geração. Ainda assim, o roteirista norte-americano precisa encontrar novas formas de abordar o período sem que pareça ingênuo ou torne a série cansativa. Não é o caso aqui: este não é um exercício experimental para nos distanciar da monotonia do tema. Nesse sentido, Blue corresponde a todas as irritantes características daquelas que a antecederam.

Aidan Gillen and Michael Malarkey in Project Blue Book (2019)
Project Blue Book.

Em época de bruxas, vampiros, zumbis e tantos outros monstros, é bom ver a ufologia retratada na televisão. Esse é o maior motivo para que eu traga esta série aqui no #MêsDoHorror — deixando claro que não é, de todo, uma recomendação. O público dessa subcategoria do horror, ou o público que não vê o tema como ficção, tem carência de conteúdo relacionado aos eventos passados e aos mistérios que eles deixaram para trás. O assunto nunca saiu de moda, tendo, talvez, apenas perdido espaço para outras questões, outras metáforas ou outras urgências de nosso cotidiano. Há poucas semanas, a famosa Área 51 foi invadida em evento que empolgou a internet, mas que não trouxe novidade alguma para o círculo.

Voltando à produção, em Project Blue Book, temos Allen Hynek (Aidan Gillen), um professor astrofísico contratado pelo governo para dar explicações lógicas a eventos tidos, em primeira instância, como paranormais. O seu parceiro é o capitão Michael Quinn (Michael Malarkey), um piloto que o auxilia na tarefa de percorrer o país falando com as testemunhas. Mais do que isso, este segundo representa a autoridade do país, pouco disposta a ver algo no céu além de tentativas dos soviéticos de invadirem o sagrado solo americano.

Kevin Christy, Aidan Gillen, April Telek, and Michael Malarkey in Project Blue Book (2019)
Project Blue Book.

Os problemas de Blue Book começam aí, nas personagens. Todas são apáticas, sem carisma algum. É quase revoltante ver Gillen sair de uma das personagens mais charmosas e bem construídas de Game of Thrones (HBO) para esse amontoado de diálogos previsíveis e essa personalidade nada cativante. O contraponto oferecido por Malarkey até funciona por um tempo, mas não o bastante para que a dupla não sofra o peso de um texto sem humor, repetitivo e sem camadas — pelo menos no que diz respeito aos protagonistas. Se pensarmos que temos estabelecida no nosso imaginário popular a dupla Scully e Mulder, não dá para não ficar meio irritado lá pelo quinto episódio.

O jogo de explicação lógica x a crença popular é usado nos primeiros seguimentos, mas não sustentaria uma temporada inteira. É quando começamos a falar sobre grupos secretos e toda a cartilha de histórias de suspense molhadas demais nas águas de Lost (ABC). Temos diversos planos, portanto. Temos as investigações de fenômenos aéreos, temos as intrigas políticas do Secretário de Defesa e seus subordinados, temos essa sociedade secreta e temos, além, o plano doméstico, quando acompanhamos a esposa do professor ser rondada por espiões internacionais. De todos esses planos, temos momentos divertidos no primeiro, quando a série nos manipula para acreditarmos fielmente em algo, só para depois desmentir o que fora visto e trazer explicações lógicas.

Laura Mennell and Ksenia Solo in Project Blue Book (2019)
Project Blue Book.

A citada Mimi Hynek (Laura Mennell) é o ponto mais patético da história. A personagem parece ter sido criada na mesma máquina de fazer esposas irritantes e sem função dentro da narrativa que nos deu personagens como Jessica Brody de Homeland (Showtime). Neste segundo caso, entretanto, a atriz tinha bons momentos. Aqui, Laura interpreta uma mulher que fica em casa enquanto o marido sai para trabalhos secretos envolvendo o governo. Ingênua e frágil, ela não percebe a aproximação com segundas e terceiras intenções de Susie Miller (Ksenia Solo), agente da União Soviética. Com essas duas, o roteiro parece confuso, e nos momentos em que Susie realmente parece interessante com sua postura provocante e desafiadora, a personagem aparenta estar na série errada. Vale sublinhar uma cena de violência que entra na série de uma forma tão gratuita que parece apenas a realização, através do audiovisual, de um público sedento por tocar em mulheres.

Blue Book parece usar ocorrências reais para desenhar sua trama. O resultado é um conjunto de casos interessantes que jamais compraríamos como reais, mas que fazem uma boa coleção nas histórias que a dupla principal precisa investigar. A verdade não pode ser contida, parece ser a moral da história aqui. Assim, conforme nos aproximamos dos últimos episódios, vemos os casos tomarem proporções maiores, chegando à capital dos Estados Unidos à luz do dia. É apontado um caminho empolgante para a segunda temporada, confirmada em fevereiro. O público carente de histórias de óvnis pode receber com mais paciência e empolgação a série, fazendo anotações e procurando onde a realidade e a ficção se encontram. Para o restante, Blue Book pode parecer simplesmente tediosa.

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Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-project-blue-book-tem-planos-demais-e-se-esquece-de-seu-focoO público carente de histórias de óvnis pode receber com mais paciência e empolgação a série, fazendo anotações e procurando onde a realidade e a ficção se encontram. Para o restante, Blue Book pode parecer tediosa.