É possível entender o sucesso de determinadas histórias assustadoras em uma região entendendo, primeiramente, do que as pessoas desse lugar têm medo. Em cidades grandes, por exemplo, aquelas histórias sobre invasão domiciliar, com direito a residentes indesejados convivendo dentro da sua casa por meses de maneira despercebida não alcançam grande público à toa. Um dos nossos maiores medos, criaturas de apartamento, é ter a sagrada segurança de nosso lar violada; é ver a violência do exterior tocando aquilo que vemos como interior. Com discos voadores, então, qual seria a razão para o sucesso desses mitos espalhados?
Eu poderia classificar as razões em duas: o medo do desconhecido e o medo de se perder o domínio do próprio corpo. Isso porque, em histórias de extraterrestres, estamos sempre ouvindo como a pessoa é sequestrada, levada a um estado em que não pode se mover e se torna objeto de estudo de curiosos de outros planetas. Perde-se o livre arbítrio defendido pela religião cristã ou as garantias fundamentadas pelos Direitos Humanos. A liberdade sobre nossos corpos é o destino mais distintivo de nossa racionalidade — e não é por nada que a privação dessa autonomia na maior tragédia humana se foi dada pela explicação de que se estava tirando a liberdade daquilo que não era humano. Para entender o pavor do desconhecido, não precisamos ir muito longe, já que ele explica muitas configurações sociais que temos e as consequências para as separações que nos damos em nossas convivências.

É numa época e ambiente alimentados por esses dois medos que encontramos Project Blue Book, série da History que estreou em janeiro deste ano. Em dez episódios de mais ou menos quarenta minutos, a produção se coloca diante da fascinante e perigosa pergunta que muitos, dentro e fora da ficção já se propuseram: existe algo lá fora? É tudo do ponto de vista norte-americano, em época de corrida espacial e Guerra Fria. Este último aspecto pode lhe distanciar da maratona, uma vez que o mito do soviético dentro da narrativa televisa estadunidense está ficando enfadonho. Além disso, depois de The Americans (FX), há realmente algo a ser feito?
Blue precisa, sim, de certa paciência do telespectador; demanda que este releve os conflitos políticos. Isso posto, é preciso reconhecer que a paranoia da época, sustentada por um governo pronto para iniciar uma guerra no mínimo sinal de conflito e sem a possibilidade de se desmentir coisas em massa que a internet hoje nos provém (ou deveria provir), temos o berço perfeito para histórias de monstros — nesse caso, histórias de extraterrestres. O contexto, portanto, conta muito e justifica o comportamento histérico dessa geração. Ainda assim, o roteirista norte-americano precisa encontrar novas formas de abordar o período sem que pareça ingênuo ou torne a série cansativa. Não é o caso aqui: este não é um exercício experimental para nos distanciar da monotonia do tema. Nesse sentido, Blue corresponde a todas as irritantes características daquelas que a antecederam.

Em época de bruxas, vampiros, zumbis e tantos outros monstros, é bom ver a ufologia retratada na televisão. Esse é o maior motivo para que eu traga esta série aqui no #MêsDoHorror — deixando claro que não é, de todo, uma recomendação. O público dessa subcategoria do horror, ou o público que não vê o tema como ficção, tem carência de conteúdo relacionado aos eventos passados e aos mistérios que eles deixaram para trás. O assunto nunca saiu de moda, tendo, talvez, apenas perdido espaço para outras questões, outras metáforas ou outras urgências de nosso cotidiano. Há poucas semanas, a famosa Área 51 foi invadida em evento que empolgou a internet, mas que não trouxe novidade alguma para o círculo.
Voltando à produção, em Project Blue Book, temos Allen Hynek (Aidan Gillen), um professor astrofísico contratado pelo governo para dar explicações lógicas a eventos tidos, em primeira instância, como paranormais. O seu parceiro é o capitão Michael Quinn (Michael Malarkey), um piloto que o auxilia na tarefa de percorrer o país falando com as testemunhas. Mais do que isso, este segundo representa a autoridade do país, pouco disposta a ver algo no céu além de tentativas dos soviéticos de invadirem o sagrado solo americano.

Os problemas de Blue Book começam aí, nas personagens. Todas são apáticas, sem carisma algum. É quase revoltante ver Gillen sair de uma das personagens mais charmosas e bem construídas de Game of Thrones (HBO) para esse amontoado de diálogos previsíveis e essa personalidade nada cativante. O contraponto oferecido por Malarkey até funciona por um tempo, mas não o bastante para que a dupla não sofra o peso de um texto sem humor, repetitivo e sem camadas — pelo menos no que diz respeito aos protagonistas. Se pensarmos que temos estabelecida no nosso imaginário popular a dupla Scully e Mulder, não dá para não ficar meio irritado lá pelo quinto episódio.
O jogo de explicação lógica x a crença popular é usado nos primeiros seguimentos, mas não sustentaria uma temporada inteira. É quando começamos a falar sobre grupos secretos e toda a cartilha de histórias de suspense molhadas demais nas águas de Lost (ABC). Temos diversos planos, portanto. Temos as investigações de fenômenos aéreos, temos as intrigas políticas do Secretário de Defesa e seus subordinados, temos essa sociedade secreta e temos, além, o plano doméstico, quando acompanhamos a esposa do professor ser rondada por espiões internacionais. De todos esses planos, temos momentos divertidos no primeiro, quando a série nos manipula para acreditarmos fielmente em algo, só para depois desmentir o que fora visto e trazer explicações lógicas.

A citada Mimi Hynek (Laura Mennell) é o ponto mais patético da história. A personagem parece ter sido criada na mesma máquina de fazer esposas irritantes e sem função dentro da narrativa que nos deu personagens como Jessica Brody de Homeland (Showtime). Neste segundo caso, entretanto, a atriz tinha bons momentos. Aqui, Laura interpreta uma mulher que fica em casa enquanto o marido sai para trabalhos secretos envolvendo o governo. Ingênua e frágil, ela não percebe a aproximação com segundas e terceiras intenções de Susie Miller (Ksenia Solo), agente da União Soviética. Com essas duas, o roteiro parece confuso, e nos momentos em que Susie realmente parece interessante com sua postura provocante e desafiadora, a personagem aparenta estar na série errada. Vale sublinhar uma cena de violência que entra na série de uma forma tão gratuita que parece apenas a realização, através do audiovisual, de um público sedento por tocar em mulheres.
Blue Book parece usar ocorrências reais para desenhar sua trama. O resultado é um conjunto de casos interessantes que jamais compraríamos como reais, mas que fazem uma boa coleção nas histórias que a dupla principal precisa investigar. A verdade não pode ser contida, parece ser a moral da história aqui. Assim, conforme nos aproximamos dos últimos episódios, vemos os casos tomarem proporções maiores, chegando à capital dos Estados Unidos à luz do dia. É apontado um caminho empolgante para a segunda temporada, confirmada em fevereiro. O público carente de histórias de óvnis pode receber com mais paciência e empolgação a série, fazendo anotações e procurando onde a realidade e a ficção se encontram. Para o restante, Blue Book pode parecer simplesmente tediosa.
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Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.






















