Histórias sobre desaparecimento não são simples. Conforme avançamos na trama, percebemos que, muitas vezes, os desaparecidos eram pessoas cujos caminhos se cruzaram com outras e o resultado foi este. Às vezes os desaparecidos são culpados, fizeram algum mal muito grande, destruíram vidas e por isso, dentro da lógica alheia, pagaram por isso. Às vezes a culpa está no outro, no antagonista que será revelado, responsável pelo mal que recaiu aos ausentes. Motivos há diversos, dos mais triviais aos mais elaborados. Programas a respeito também, desde os que envolvem elementos sobrenaturais, aos de viagem no tempo ou investigações policiais. Algumas vezes, no entanto, tudo o que temos é uma história de desaparecimento. Apenas uma história de desaparecimento.
Picnic at Hanging Rock é uma misteriosa minissérie australiana que estreou este ano pela Showcase e disponibilizada em maio pela Amazon Video. Os seis episódios são uma nova adaptação do livro dos anos sessenta de mesmo nome, escrito por Joan Lindsay. O grande sucesso literário já teve uma famosa (e cultuada) adaptação em 1975 dirigida por Peter Weir. Chegando à televisão com um público apegado às duas obras, há uma chuva de críticas sobre a nova versão, apontando aqui e ali onde a história se perdeu e quais elementos deveriam constar na produção. Não é algo muito incomum, mas fato ocorrido também com Anne With an E, criticada em sua primeira temporada ao, pelo que alegam os fãs, ter bagunçado a personalidade da protagonista. Como não sou fã de um ou de outro, trago a opinião de alguém que resolveu sentar e maratonar uma história sobre desaparecimento.

As desaparecidas em questão são três jovens e sua professora de Geografia. As amigas decidiram dar um passeio durante um piquenique em Hanging Rock, lugar famoso na região. Amigas, as meninas são alunas de um colégio interno afastado e que recebe moças ricas cujas famílias desejam que adquiram boa educação. O lugar é regido pela viúva Hester Appleyard, figura de preto que assombra as internas com sua postura cruel, impondo-as castigos físicos sempre que pode. Após o desaparecimento, vemos os segredos das meninas e da diretora serem vasculhados e explorados pelas outras personagens, ao mesmo tempo em que o ocorrido é o ponto inicial para o declínio do estabelecimento.
A primeira ponta do triângulo de alunas desaparecidas é Miranda Reid (Lily Sullivan), uma jovem que não tem o menor interesse nas possibilidades que a escola pode lhe oferecer, preferindo ficar com a família, no interior. Os pais, no entanto, obrigam-na a retornar sempre que os feriados e o período de férias acabam. De volta ao Appleyard College, Miranda precisa lidar com as constantes punições pelo seu comportamento, aliviadas pelos cuidados das duas amigas. O consolo (ou não) está na centralidade que às vezes ganha dentro do trio e que a destaca entre as outras garotas, criando uma estranha aura de fascínio sobre si.

A atriz Samara Weaving, protagonista do recente (e divertido) The Babysitter da Netflix, é Irma Leopold, talvez a garota mais rica de sua classe. Com gosto refinado e a princípio certa do que quer, a jovem lida com a negligência dos pais, aproveitando-se da atenção que ganha das colegas e dos homens a seu redor. Irma não sabe ldiar muito bem com não ser o centro das atenções, indo de companheira fiel à amiga obcecada e invejosa quando outra garota parece ter conseguido algo que lhe falta. Destaco a personagem e a atriz entre as outras, talvez a que melhor entendeu a brincadeira proposta pelo roteiro. Quando em cena, ela toma as atenções e observa as outras pessoas por trás de camadas que nunca são dispensadas para que lhe assistamos como realmente é.
Marion Quade fecha esse triângulo. Interpretada pela atriz Madeleine Madden, a moça é uma das únicas estudantes negras do colégio — numa história que se passa no comecinho do século XX, podemos imaginar o que isso significa. Não só por isso Marion se sente deslocada, mas ao perceber que se sente atraída por uma de suas professoras. A mestre se torna sua confidente e a razão para que ela planeje como se manter na escola mesmo depois de formada. Talvez a mais doce das três, ela oferece um balanço para o difícil temperamento de Irma ou a melancolia de Miranda, complementando o deslumbre do trio a seu modo.

Já a viúva e diretora do colégio, Mrs Appleyard, ganha nuances no talento de Natalie Dormer (Game of Thrones) para interpretar mulheres misteriosas. Assombrada por seu passado, ela se vê responsável pela formação de todas essas meninas, criando uma personagem temida para si. Aos poucos descobrimos o motivo do medo que tanto a fragiliza, levando-lhe a atos inconsequentes e que colocam diversas outras vidas em perigo.
Depois de apresentar as protagonistas, devo dizer que o primeiro episódio é um dos mais deslumbrantes que eu vi este ano — presença quase confirmada quando fomos eleger os melhores do primeiro semestre. Minha dica, então, é que se não gostar do estranhamento causado por ele, talvez não deva investir seu tempo nos outros. Beatrix Christian e Larysa Kondracki criam uma atmosfera mística diante dos acontecimentos, na qual acreditamos em diversos momentos que estamos assistindo a uma história sobre bruxaria. Com muita energia, a edição abusa das belas locações, do belo figurino e da beleza de seu elenco para criar um jogo de mostrar e esconder com o telespectador. Sofisticada, a minissérie é desde o primeiro instante uma composição visual que se elabora no gestual, na palavra não dita e nos silêncios de suas personagens.

Nos episódios seguintes, nos quais vemos diversos ângulos do feminino neste século que lhes atribuía tantas regras sociais, a amizade é elaborada como forma de sobrevivência. É assim que tenta sobreviver Edith (Ruby Rees), uma órfã que tem no trio principal as suas guardiãs, principalmente em Miranda. Se nós podemos medir a qualidade de uma narrativa a partir do nível de empatia criada com o telespectador, asseguramos na jornada da menina o bom trabalho realizado aqui. Há muito não me via torcendo com tanto empenho por seu final feliz e tão aflito como no episódio quatro, quando ganha destaque seu passado.
Séries que deixam tudo no subentendido não agradam todo mundo, então aqui está um novo alerta. Em Picnic, você pode assistir a mesma cena mais de três vezes, e ainda assim não vai entender muito bem o que está acontecendo, tendo que criar um significado por conta própria, algo comum aos fãs da história. Aponto Albert (James Hoare), fica obcecado pelas desaparecidas pois fora o último a vê-las. Suas decisões nos soam equivocadas e há pelo menos três momentos com ele que ficamos na dúvida sobre o significado dentro da narrativa.

Para mostrar as mulheres por mais de um ângulo, temos a visão da professora de francês, Dianne de Poitiers (Lola Bessis), uma ótima personagem para se acompanhar. Talvez se dando conta tarde demais dos perigos de sua escola e da negligência da diretora com as meninas, a professora toma para si o posto de investigadora e protagoniza um jogo de gato e rato com Hester, desafiando-a como pode. No quinto episódio, quando há um conflito na mansão cada vez mais vazia, torcemos pelo sucesso de seus empenhos e nos frustramos com alguns fracassos. Dora Lumley (Yael Stone, a divertida Morello de Orange is the new Black), por sua vez, é do tipo que amamos odiar. Ou só odiamos mesmo. Apegada com os ensinamentos da bíblia, a professora de ensino religioso é obcecada pela diretora — talvez pela figura de autoridade que vê ali, parecida com a representada pelo seu irmão.
> Bom gosto pra SÉRIES é relativo? feat Alice Aquino!
Picnic é também muito simbolista, utilizando desde cores brancas para mostrar o inocente, ou a corrupção do inocente, passando pelas flores e outras alegorias sobre liberdade e destino que criam uma mitologia para seu universo. O enredo abre reflexões sobre amizade, inveja, competição feminina, solidão e a falência do sistema de ensino como um todo. Podemos observar de diversos pontos para começarmos discussões a partir da produção, como os homens mostrados, perdidos neste ambiente, a obsessão, já mencionada por mim diversas vezes por aqui, ou o efeito da ausência.

Sem concluir muito bem todos os destinos que apresenta, há elementos o bastante para que façamos isso. Com tanto encanto, pessoalmente, vejo uma quase insinuação para o sensual (ou erótico), tanto quanto há para o mágico, o sobrenatural. A minissérie, então, termina como uma releitura de um livro que abre muitas possibilidades para o misticismo, aqui exploradas em sua totalidade. Se não ficamos com as respostas, ficamos perturbados o bastante para celebrarmos a produção pela sua contribuição aos experimentos que observamos na televisão atualmente. Sobre segredos, Picnic at Hanging Rock também é sobre se deixar levar, esquecer ou apenas acreditar.
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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2017 e setembro de 2018.
















