Em uma época onde as séries da Netflix não eram tão populares como hoje em dia, Orange Is The New Black foi uma das primeiras a alcançar um grande público, principalmente após sua elogiada segunda temporada, passando por um processo evolutivo e de transformação dentro da sua própria narrativa fomos presenteados com um último capítulo que representa tudo aquilo que a série foi em suas sete temporadas através de referências nostálgicas ao seu início e uma representação da realidade de forma dolorosa e impactante.
Jenji Kohan e os outros roteiristas da série conseguiram criar personagens tão cativantes durante a série que se despedir dos mesmos foi uma tarefa muito difícil tanto para os telespectadores quanto para a série em si. Algo muito bem feito em OITNB é a construção desses personagens, ninguém é plano, todos apresentam uma complexidade que permite essa aproximação com nossa realidade. Os dramas vividos por essas mulheres, desde as escolhas que fizeram em suas vidas, se merecem ou não estar presas e as condições em que elas vivem, tudo se mistura numa narrativa que convence e prende seu público.
O primeiro episódio dessa temporada dá um enfoque para Piper e Alex, o que de primeira é estranho por diversos motivos, ter Piper como protagonista é algo tão antigo, a personagem sempre teve um foco maior na série, porém nas últimas três temporadas a série tomou um rumo onde a narrativa principal envolvia muito mais personagens e de formas tão importantes quanto as dela. Outra questão que foi um pouco estranho foram as narrações, felizmente isso fica apenas no primeiro episódio.
Achei interessante como abordaram toda a questão do relacionamento de Piper e Alex em conjunto com a adaptação de Piper agora que ela saiu da prisão, foi bom ver personagens como Larry, que eu não suportava nas primeiras temporadas, mas nessa me agradou muito, principalmente no último episódio quando conversa com a Piper. Dentro da prisão, Piper precisou aprender a deixar seus privilégios de lado, mesmo que ainda tivesse alguns, esses dezoito meses em que ela passou presa mudaram completamente sua vida, se compararmos a saída dela com a da Taystee nas primeiras temporadas podemos ver que estes privilégios continuam aí, a personagem sempre foi muito impulsiva, todas as suas decisões durante a série foram feitas sem pensar nas consequências e isto é apontado por Larry que afirma que a ex-noiva vive em um ciclo sem fim de fugas e retornos. Fiquei satisfeito com o final da personagem, foi coerente com tudo que aconteceu até então, seu relacionamento com a Alex da mesma maneira, as duas são inevitáveis, acabam sendo puxadas para perto uma da outra sempre.
Queria mais da Alex, mas entendo que era preciso este desfecho com Piper, todo o envolvimento da personagem com a McCullough foi algo positivo pra mim, pois desde a temporada passada eu queria que aprofundassem na história da guarda. Entretanto quando ela faz a Alex ser transferida é um pouco sem sentido, não esperava que a personagem tomasse este rumo, mas foi uma reviravolta clássica para os padrões de OITNB. No final de tudo acho que a Alex e a Piper ficaram juntas, um ponto negativo é que as últimas cenas foram muito corridas e ficou apenas uma ideia de uma reconciliação entre as duas.
Orange Is The New Black sempre trouxe a realidade para suas histórias e não foi diferente nesta última temporada com o núcleo do centro de detenção para imigrantes, quando digo que os roteiristas sabem como criar bons personagens, tivemos Karla por alguns episódios apenas e foi suficiente para que a personagem tivesse muita importância, o episódio 11 é de longe um dos mais tristes da série, a conversa com seus filhos foi devastadora e o seu final pior ainda, algumas pessoas criticaram a escolha de mostrar aquele final, mas acredito que a ideia tenha sido realmente trazer esta realidade para impactar e denunciar. A história de Maritza chega a ser tão triste quanto, principalmente se considerarmos que a própria atriz que sofreu com as políticas de deportação e foi separada de sua família, o fim da personagem é simbólico, mas completamente injusto. Blanca tendo finalmente seu final feliz me deixa muito satisfeito, o seu amor com Diablo encontrou tantas dificuldades, mas finalmente conseguimos ver a personagem feliz.
A sétima temporada foi feita para fechar ciclos e responder questões em aberto, sem perder o fôlego vimos as personagens finalmente encontrando um rumo para suas vidas. Maria, por exemplo, foi uma personagem que passou por diversas mudanças dentro da série, foi ganhando seu espaço e ver como a personagem aceitou sua culpa e conseguiu crescer através disso é satisfatório. O fato de todas as histórias nessa temporada serem de personagens que em sua maioria já vimos flashbacks antes foi muito nostálgico, os roteiristas conseguiram enxergar algo a mais a ser contribuído à história e realmente valeu a pena.
O que não faltou também foram aparições especiais de personagens que não apareciam há um tempo, como Sophia, foi ótimo ver o quanto ela está bem e até ajudou a Piper a conseguir um pouco mais de clareza sobre sua vida fora da prisão. As aparições no último episódio das antigas detentas e até mesmo do Mendez trouxeram um sentimento de nostalgia, senti que faltou um episódio com o foco na prisão de Ohio.

Como nem tudo é perfeito, ficou clara a intenção dos roteiristas de não adicionar muitas coisas nas histórias para ter tempo de finalizar a história de todos, mas sinto que faltou algo principalmente com Suzanne, que metade da temporada quis juntar Cindy e Taystee e depois foi posta naquela história das galinhas, que se em um episódio lá na primeira temporada saturou, imagine em vários, porém gostei do amadurecimento da personagem no final de tudo. Amadurecimento foi o que muitos tiveram, seja de forma positiva ou negativa.
Personagens que na primeira temporada eram insuportáveis e finalmente foram ganhando espaço em nossos corações, como a Natalie, a personagem e o Joe tem uma relação tão boa de se assistir, todo seu debate sobre ter filhos ou não, o que ela fez pela imigrante que foi abusada e acabou engravidando mostra o crescimento da personagem, além de ajudar Tamika, esta que foi uma grande surpresa ao ser promovida à diretora da prisão e realmente tentou mudar as coisas, mais uma personagem que vimos por pouco tempo, mas foi suficiente para nos afeiçoarmos. Outro personagem que teve um bom desfecho foi Joe, que sempre foi o mais humano dos diretores que passaram por Litchfield, mas isso não o faz imune aos seus erros, gostei que a série trouxe uma discussão de algo que eu mesmo já havia esquecido sobre o abuso moral que Caputo fez com Susan, foi bem vê-lo reconhecer sua própria culpa nisso tudo, além de não ser mais que sua obrigação também.
Tenho muito a agradecer aos dois personagens por ajudarem Taystee, no penúltimo episódio eu tinha tanta certeza que a detenta iria se matar, depois do flashback com a aparição maravilhosa da Poussey era certo em minha mente, nunca iria imaginar que quem morreria seria a Doggett, nem posso dizer que sua morte foi inútil ao roteiro, quando na verdade eu vejo mais como um “sacrifício” para que outros personagens pudessem ter seu “final feliz”, o que não me deixa nada satisfeito, tendo em vista o quanto a personagem mudou e lutou para conseguir seu diploma. Algo dito bastante nesta temporada foi que a Taystee havia mudado, todo seu debate interno dela sobre morrer ou não foi angustiante, entretanto seu final foi bem melhor do que eu esperava, melhor do que foi apenas se ela tivesse provado que não matou o Piscatella, mas estamos falando sobre um sistema completamente injusto. Uma coisa que foi muito bem pensada foi sua relação com Cindy, elas não terem uma reconciliação foi a coisa mais realista a se fazer, a vingança de Taystee foi no ponto certo para afetar àquela que um dia foi sua amiga. Danielle Brooks está sensacional e não ficarei surpreso se ela receber algumas indicações nas premiações do ano que vem.
Se algumas amadurecem para o bem, outras vão de mal a pior, estou falando dela, Daya, que já foi uma das personagens favoritas e se tornou uma traficante viciada, mesmo triste pela personagem, parabenizo o roteiro, o quão corriqueiro deve ser uma detenta mudar completamente durante seu tempo de prisão, aprofundar-se cada vez mais no vício e neste mundo. Aleida foi um péssimo exemplo, mas tentou ser uma boa mãe, da forma que ela sabia, o que não tira seus pecados, é bonito ver como ela quer quebrar este ciclo que suas filhas entraram, não gostei da cena final das duas, muito corrido e deixar as coisas abertas daquela forma não foi nada satisfatório. Aleida ser presa também foi um dos pontos tristes da temporada para mim, quando ela só queria proteger sua filha daquilo que aconteceu com ela mesma.
Ainda sobre mães e filhas, precisamos falar sobre o triste fim de Red, Lorna e Nicky. Foi muito triste saber que Red nunca mais voltaria a ter a mesma determinação e força que tinha em suas primeiras temporadas, lembrar que na primeira temporada ela mandava em tudo e todos a temiam. O que a prisão e a solitária fizeram com sua mente foi realmente triste, agora Lorna que perdeu seu filho, todas as suas cenas foram dolorosas de se assistir, com um final realista, porém ainda assim triste. O fato de que Nicky passou oito episódios sem uma história realmente foi o que mais me incomodou, mesmo com um desfecho interessante para a personagem, se tornar aquilo que Red foi para ela, assim como Flaca se tornou aquilo que Gloria era, essa que finalmente conseguiu se reaproximar de suas filhas e estar lá para seus outros filhos.
Orange Is The New Black encerrou de forma gratificante, dando um final agridoce para seu telespectador, que pôde ficar feliz com alguns personagens e triste por outros, mas sempre foi assim, tudo que podemos dizer é que foi bom ver estas personagens tão amadas amadurecerem nessas temporadas. Uma história que mostrou grande diversidade e complexidade em suas personagens e sua narrativa, trazendo uma realidade cotidiana, um sistema quebrado e fazendo denúncias sociais nesta sociedade injusta em que vivemos. A série apresenta capítulos que culminaram em sete temporadas bem pensadas, com tropeços (terceira temporada, por exemplo), mas que conseguiu se recriar e finalizar de forma majestosa nesta última temporada com muitos episódios de partir e aquecer nossos corações, sempre lembrando de todos os seus rostos e vozes.














