Não há momento melhor para ser fã de séries nacionais. De um lado, temos Sob Pressão na Globo, recebendo aclamação crítica; do outro, a Netflix, produzindo séries de gêneros não tão explorados no mercado tupiniquim. 3% já mostrou que temos capacidade de fazer uma ótima distopia, e agora, temos O Escolhido, nova produção brasileira da gigante do streaming, que adentra o suspense sobrenatural. O show foi inspirado na série mexicana “Niño Santo”, e é escrita por Raphael Draccon e Carolina Munhóz.
A série se passa no Mato Grosso do Sul, e narra a missão de três médicos, Lúcia (Paloma Bernardi), Damião (Pedro Caetano) e Enzo (Gutto Szuster), que são enviados para uma pequena aldeia de difícil acesso, chamada Aguazul. A intenção deles é vacinar os moradores da pequena comunidade contra uma nova mutação do Vírus Zika. Ao chegarem, entretanto, eles se deparam com uma população não receptiva e que se recusa a tomar a vacina. Os moradores afirmam não precisarem, por nunca ficarem doentes, e respondem somente a um misterioso líder que chamam de Escolhido.
A raiva dos habitantes é controlada por Mateus (Mariano Mattos Martins), porta-voz do Escolhido, que convence-os a não atacarem os médicos. O planejamento da equipe é vaciná-los na manhã seguinte e depois partir, mas uma série de acontecimentos adia a ida do trio, fazendo com que eles se vejam cada vez mais envolvidos nos mistérios e perigos do local. Eles finalmente conhecem O Escolhido (Renan Tenca), que age como curandeiro; ele clama ser filho de Deus e aparenta ter dons sobrenaturais, o que intriga os médicos.
Em muitos aspectos, a produção lembra programas como Lost, o que é um ponto positivo. Qualquer história que consiga rememorar o espírito do clássico dos anos 2000 merece algumas congratulações. Isso implica em saber dosar a curiosidade ao redor dos segredos com a necessidade de situar o público minimamente do que está acontecendo na tela à sua frente. Para isso, o roteiro e a edição constroem o suspense com calma, entregando algumas peças do quebra-cabeça, mas sequer mostrando como seria a figura completa. Essa contenção narrativa faz com que o enredo avance de maneira gradativa. Prova disso é que não é até o fim do 2º capítulo que conhecemos O Escolhido.

Ao mesmo tempo em que é comparável, em alguns casos, à séries estrangeiras (até pelo fato de ser um remake), O Escolhido ainda tem vários traços de brasilidade. A mitologia em torno da série é criativa e mescla várias manifestações populares. Os rituais realizados pela pequena comunidade se assemelham a quadrilhas de são joão; as máscaras, símbolos presentes nos eventos são inspiradas em lendas populares. O minhocuçu, serpente representativa do vilarejo, é inspirado em uma cobra gigante típica do interior de Minas Gerais. A série usa e abusa dos nossos elementos culturais, com razão, já que cria uma identidade própria para os nossos produtos, sem precisar reproduzir fielmente estéticas e costumes exteriores.
Do ponto de vista conceitual, outra decisão que se assemelha a Lost é a do principal debate instaurado entre os personagens: a ciência versus a fé. A série chega a servir de crítica social, uma vez que a relutância dos moradores de Aguazul em tomar a vacina lembra muito o comportamento de apoiadores do antivacinismo, movimento que tem sido crescente no Brasil. Um detalhe interessante tem a ver com a infância de Lúcia, na qual seu pai morreu após sua mãe não permitir que ele recebesse uma transfusão, por motivos religiosos.
Por sinal, os flashbacks foram um grande acerto da série. Seu uso foi comedido, sem precisar ocupar metade da duração total do episódio. Cada capítulo teve 2-3 cenas revelando parte importante da trajetória dos personagens, que foram o suficiente para apresentar mais de suas personalidades, mas sem revelar muito sobre eles. Afinal, pela natureza misteriosa do enredo, a graça é desvendá-los pouco a pouco. Entre figuras que eu espero que tenham flashbacks em uma segunda temporada, minha torcida vai para Cleuza e Zulmira; quero ver suas motivações sendo destrinchadas.
Mas uma vez que é exibido o que está por trás das ideologias dos personagens, fica faltando algo que as tire da zona de conforto. A rivalidade entre ciência e fé não se aprofunda. É citada, a cada cinco cenas, com certeza, e tem algumas frases de efeito legais a respeito, mas falta representar nos acontecimentos qual é a reflexão. A fé é cega, isso é fácil de inferir, mas faltam situações que ponham em cheque esse extremismo dos personagens. Provavelmente o que melhor se adequa à proposta é Mateus, que a medida que se encanta por Lúcia, desafia algumas das regras estabelecidas pelo Escolhido, questionando seu nível de controle no próprio destino. Mesmo assim, essa mudança dura um episódio, e ao final da temporada, ele já está novamente em sua posição estabelecida. O pouco número de episódios e o sentido de urgência que ecoa em toda a narrativa não contribuem para a valorização dessas dúvidas internas.
Outra falha da série vem na unificação de seu discurso. São diversas as alusões feitas à religiosidade e à história da Bíblia, misturadas com elementos próprios do show. Contudo, as alegorias não soam bem posicionadas. Um exemplo disso é Lúcia, cuja função narrativa se embaralha nas metáforas cristãs. Por vezes, ela é tida como equivalente de Eva, que trouxe o pecado original para a vila com sua falta de fé. Em seguida, passa a ser tratada como profeta, “mensageira” do Escolhido. As discussões propostas pela produção são muito amplas e vagas, e senti falta de uma linha de raciocínio mais coesa na hora de passar as reflexões, chegando a ser incômodo. Soa como se os roteiristas fossem grandes entusiastas do tema, mas não tivessem cacife o bastante para trazê-lo à tona de maneira sagaz.
Contudo, o que a produção perde em diálogos desagregados, ganha em atmosfera bem construída. O pantanal é o melhor cenário possível para se desenrolar a história, dando uma sensação de desconhecimento e paranoia, seja pelos animais perigosos, seja pela possibilidade frequente de estar sendo observado. Destaque também para alguns dos figurinos usados nos eventos do Escolhido, que facilmente remetem a um culto. Pequenas escolhas visuais, como as mulheres com véus pretos no julgamento ou as tatuagens de cruz com cauda de cobra dos habitantes, causam impacto visual e dão um certo charme macabro ao show. A edição ajudou na hora de angustiar o público, se utilizando até mesmo do jumpscare (técnica clássica de filmes de terror, na qual algo inesperadamente aparece na tela, assustando o público) algumas poucas vezes.
O elenco também ajudou a ditar o tom do seriado, aumentando sua seriedade. Paloma Bernardi é uma boa protagonista, passa bem a impressão de estranhamento e revolta da personagem frente às adversidades. Renan Tenca dá um ar carismático, como deve ter todo líder de culto, ao Escolhido. Ambos os atores dominam com facilidade a série. Alli Willow (Angelina), é outra boa surpresa, indo de ingênua a perturbada com certa facilidade. Nenhum ator é excelente, mas todos têm noção de seus personagens e os interpretam de maneira correta.
No todo, a produção sai ganhando, juntando o fascínio da premissa com um bom ritmo narrativo. O roteiro só sofre um deslize, infelizmente, na conclusão da temporada. Após o clímax, o julgamento realizado pelo Escolhido, a necessidade de uma reviravolta faz com que uma sucessão de acontecimentos forçados tome vez. Em 10 minutos, Lúcia e Enzo fogem de Aguazul, voltam para casa, Lúcia conta sobre os eventos bizarros do local, é desacreditada, perde o emprego, seis meses se passam, Enzo aparece e a obriga a voltar para Aguazul com ele, injetando a mutação do vírus da Zika nela. Desconexo, apressado, jogado. Basicamente, muita coisa em pouco tempo. Esses minutos finais mostram até onde, negativamente, roteiristas estão dispostos a ir para chocar e atrair os espectadores para um possível segundo ano. Nada nessa ideia soa planejado, e após perder grande parte dos dois últimos capítulos com discursos do Escolhido, não entendo porque comprimiam em tão pouco tempo cenas tão relevantes para o futuro do show.
> O MULTIVERSO DE DARK! Perguntas e Teorias da 2ª temporada!
Apesar dos pesares, O Escolhido ganha o benefício da dúvida, até pela ousadia que teve de ser a primeira série nacional desse estilo. Há erros, há precipitações, mas a história é dotada de um magnetismo e uma qualidade técnica que compensam, ao menos parcialmente, as imperfeições da parte escrita. Espero que a série seja renovada, e que assim como 3%, ela aprenda com os erros de sua temporada inaugural.














