Para salvar a família, Petronella aceita o pedido de casamento de um homem desconhecido. Nada muito incomum para o período em que a história se passa: final do século XVII. Ao chegar à casa de seu esposo, no entanto, a jovem percebe que ele não tem muito interesse em sua companhia, assim como os outros poucos habitantes da casa se importam mais em mantê-la longe dos segredos que guardam do que em fazê-la se sentir bem-vinda. Para não aborrecê-la, seu marido lhe presenteia com uma casa de bonecas. A ocupação em decorar a casa parece simples até que Nella (como gosta de ser chamada) começa a receber pequenos móveis feitos por um misterioso miniaturista que descreve, em seus objetos, a rotina e os mistérios da casa.

The Miniaturist é baseada no livro homônimo de Jessie Burton, primeiro de sua carreira, que não só teve um bom retorno comercial, como venceu alguns prêmios. A adaptação foi ao ar pela BBC One no ano passado em dois episódios: o primeiro de uma hora e meia e o segundo de uma hora, exibidos nos dias 26 e 27 de dezembro. O roteiro ficou com o produtor e roteirista John Brownlow, responsável pelo roteiro do criticado Sylvia (Christine Jeffs, 2003), cinebiografia da poeta norte-americana, e da minissérie Fleming: The Man Who Would Be Bond de 2014. A direção ficou com o espanhol Guillem Morales, que tem alguns episódios da maravilhosa Inside No 9 no currículo, além do horror Los Ojos de Julia (2010).

The Miniaturist
The Miniaturist

Se The Miniaturist possui a beleza das séries de época da BBC, exibindo um belo figurino e locações bem exploradas, o roteiro é seu ponto fraco. Diferente do que fiz em Objetos Cortantes, só conheço a obra que serviu de matéria-prima pela capa e não mais que isso. Assim, somente os leitores da escritora inglesa podem me dizer se o problema é algo carregado do próprio livro. Enquanto temos um desenvolvimento razoável do que se espera de uma narrativa, os dois gêneros com os quais a produção brinca nunca entram em conformidade ou criam um contraste esperado pelo uso de ambos. Isto é: os episódios variam entre o drama e o mistério, mas enquanto o primeiro vacila, o segundo é negligenciado.

Para favorecer a minissérie, temos o uso de poucas personagens. Basicamente, acompanhamos a protagonista e sua saga na casa dos irmãos Brandts, lidando com a estranha dinâmica dos dois e com os empregados da casa. A construção de cada um é uma das maiores qualidades da série. A começar por Petronella, interpretada pela atriz Anya Taylor-Joy, conhecida por protagonizar The Witch, filme de horror que divide opiniões até hoje, mas um dos responsáveis para que ela ganhasse um prêmio em Cannes. A nossa heroína aqui pode não nos encantar de primeira, assim como não encanta a família na qual se integra, mas, aos poucos, vemos diversos aspectos de sua personalidade com os quais podemos nos associar.

The Miniaturist
The Miniaturist

Além de ter o fardo de salvar a família com um casamento arranjado, Nella se vê longe de casa, tendo que se estabelecer em um ambiente estranho e misterioso. A jovem é uma nova jogadora em um jogo muito antigo, cujas regras não lhes são apresentadas. Somente aos poucos é que ela entende como lidar com os empregados e a relação entre estes e os irmãos, donos da casa. Ingênua no começo, a personagem vai desenvolvendo aos poucos seu senso de justiça, de companheirismo, sua agilidade para lidar com dinheiro e solucionar os problemas desta casa em decadência. Além disso, é possível vislumbrar o desejo e a curiosidade em si, características tão presentes em nós.

Das reflexões que podemos tirar sobre a série, mas sem fugir do tópico das personagens, temos três visões diferente do posicionamento da mulher na sociedade da época. Acompanhamos três mulheres diferentes em realidades diferentes, cujos papéis às vezes se misturam. Além de Nella, temos Marin BrandtRomola Garai da estranha Born to Kill, série que esteve presente no #MêsDoHorror do ano passado. Leva um tempo para que possamos perceber que ela não é a antagonista que imaginamos, mas que luta para preservar sua família e se proteger da opressão externa. Cornelia (Hayley Squires) completa o trio, mas, infelizmente, não é tão bem aproveitada. Às vezes tomada por uma autoridade que não lhe cabe em sua posição subalterna, ela se mostra companhia essencial, mesmo que nunca a conheçamos totalmente.

The Miniaturist
The Miniaturist

Quanto aos homens, Johannes Brandt (Alex Hassell), o marido, irmão e patrão da história, tem uma dolorosa jornada por problemas pessoais que são previsíveis antes de suas revelações, mas que não perdem a gravidade do absurdo conforme a trama avança. Ele é retratado como uma figura distante e arrogante desde o começo, o que contribui para as dificuldades que arruma nas complicações do enredo e justifica o desprezo dos inimigos acumulados. Otto (Paapa Essiedu) é seu silencioso ajudante, responsável por preservar sua esposa, mas que tem relações mais estreitas com a família, algo que descobrimos na segunda parte.

Como conversamos sobre os vários tipos de monstros em séries de horror e mistério, nesta temos o humano como representante do perigo. Movidos por ambições e questões egocêntricas, os antagonistas da história se mostram conhecedores das regras de um sistema injusto, mas acordado em sociedade, o que lhes permite diversos privilégios. O mesmo senso de absurdo, em outros momentos, é aproveitado para flertar rapidamente com o humor, ao colocar pessoas de tal época deslumbradas com o açúcar.

> SÉRIE MAIS IMPORTANTE DA HBO!

Se bem atuada e com um bom estudo de jornada de personagens, mesmo fazendo confusão aqui e ali, The Miniaturist definitivamente se perde ao abordar aquilo que lhe destaca em seu argumento. Toda a questão envolvendo a misteriosa miniaturista é interessante, mas nunca tem o destaque merecido ou é bem explorada. Além disso, as regras de teor quase sobrenatural que envolvem a entrega dos presentes e a identificação destes com a realidade não são explicadas, de forma que nunca entendemos se há algum tipo de feitiço. A resolução se dá em um diálogo desagradável, que destaca um roteiro incapaz de solucionar as charadas que criou.

The Miniaturist
The Miniaturist

Encarada como um drama (e apenas isso), a minissérie da BBC pode agradar aqueles que acompanham produções do período. Anya Taylor-Joy é um bom motivo para o esforço de relevar, aqui e ali, um roteiro desajeitado. No fim, ficamos com o mais forte das duas horas e meia: a desesperançosa história sobre amizade, germinada em um ambiente improvável, com pessoas estranhas e que permanecem juntas para sobreviver. Talvez o livro funcione melhor com as questões que ficam pendentes, onde, possivelmente, Nella se saia melhor (ou pior) ao lidar com o desespero de sua época.

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Este post faz parte do terceiro ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2017 e setembro de 2018.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-miniaturist-nao-empolgaThe Miniaturist definitivamente se perde ao abordar aquilo que lhe destaca em seu argumento. Toda a questão envolvendo a misteriosa miniaturista é interessante, mas nunca tem o destaque merecido ou é bem explorada.