A gente tarda, mas não falha, com um certo atraso, eis a nossa review totalmente parcial de amor pela Jodie Comer, que se multiplica a cada “Eve Polastri” que ela solta com o seu sotaque, tão charmoso quanto o seu figurino (departamento que será devidamente celebrado mais à frente).
Se na estreia do segundo ano de Killing Eve, reinava em mim um sentimento de saudade esperançosa com fome por novos estupendos episódios, a sensação desta premiere foi recebida pelo meu ser com medo diante da incerteza de como a nova temporada se desenrolará. Tudo isso graças aos decepcionantes oito capítulos anteriores, contando uma história lotada de furos (alguns ainda presentes e operantes), cenas enfadonhas e um plot mais fraco que o outro. A razão da queda na qualidade? A saída da fenomenal Phoebe Waller-Bridge do cargo de showrunner da série, uma decisão que não normalmente gera frutos muito saborosos.
Acho que quando a série viu a sua qualidade despencar, os presentes na sala dos roteiristas devem ter batido com a cabeça, e em um momento de confusão mental, decidiram simplesmente assassinar o Kenny logo na metade do episódio de retorno, sem mais nem menos e consequentemente, criando um grande mistério em volta do ocorrido. Porém, o que não se esperava era que o desfecho fosse simplesmente broxante. Me desculpa, mas descobrir que o segundo melhor personagem do drama, aquele que esbarra no manequim e pede desculpas, morreu apenas por se esquecer que a laje acabava é muito triste e decepcionante. Se fosse pra apagar o Kenny, que fosse bem feito, com um plot amarrado e astuto do inicio ao fim, e não esse track molhado que foi apresentado.

Pronto, agora que desabafei o meu maior ódio pela terceira temporada, vamos elogiar e paparicar Jodie Comer, a única rosa nesse campo pisoteado e irregular que se encontra Killing Eve, ou melhor, Villanelle Futebol Clube, que neste momento está no departamento médico com escoliose de tanto carregar essa série nas costas, que deve estar gravíssima após os 8 novos capítulos.
Dado ao caótico segundo ano, parece que o corpo de roteiristas percebeu a meleca que foi feita e decidiu se concentrar no que realmente importa, se atentando mais para a jóia brilhante da série: Niko. Óbvio que não, Villanelle, claro. A temporada sofreu a famosa virada de chave, 180 graus (360 não, gente) que, ao invés de um ritmo ligeiro, visitando 7 países no mesmo dia, assassinatos correndo solto e traições a cada hora, foi tomada corretamente a decisão de respirar e diminuir a passada, desenvolvendo uma análise de personagem e deixando ela se desenvolver sob cada experiência abordada. Uma prática que está sendo cada vez mais comum em séries recentes e de críticas positivas, como Atlanta, Bojack Horseman, The Leftovers, Mr Robot e Better Call Saul. Quando bem feito, estes episódios centrados em apenas um personagem podem ser o ponto alto da temporada ou um marco para o ator. Jodie abusou do seu talento e da oportunidade e fez uma Emmy tape arrepiante.
No episódio 5, “de volta para minha terra” de Villanelle foi a melhor hora da temporada, é possível ver quem era Oksana, e observar lampejos de quão perturbadora era a sua infância com a família, parte pelo temperamento explosivo de sua mãe e outra pelo sua própria doença mental, mas claro, a menina era apenas uma vítima do fato. Destoando da média dos capítulos, foi um deleite observar o desenvolvimento pessoal da VIillanelle em se conhecer, saber do que gosta e o que não gosta, ver as suas falhas e desejar consertar o que não esta lhe fazendo bem, principalmente a falta em se sentir incluída em algo, de se sentir parte de um meio, um meio normal sem violência, assassinatos. De quebra, ainda nos presenteia com um lado humano da personagem, em que lembra do seu pai com carinho e demonstra afeto aos seus dois irmãos por poupá-los do fim que deu à sua mãezinha.

A gente até esquece, mas a personagem principal do drama é Eve, mesmo meu coração e o roteiro dizendo o contrário. Com a falta de material decente que lhe é entregado, nos resta analisar o ponto principal da personagem: que diabos de azar é esse que tudo que essa mulher toca morre??? Ela não pode ter uma paz? Todo personagem que ela reata, se dá bem ou fica amiga desfalece de forma trágica e repentina com o intuito de amarrar a trama e dar motivação para Eve resolver alguma coisa, só que eu não sei o que é. Perder o Kenny e o Belchior, digo, Niko no mesmo ano deve ter sido sofrido demais da conta, principalmente com o good feeling bffs que ela teve com o primeiro no season finale passado. Consigo entender perfeitamente o pane cerebral que ela teve, se fosse comigo, meu cérebro estaria só o miojo.
Por falar no Niko, finalmente ele foi viver numa fazenda com outros personagens pastéis das séries que pensamos “qual a função dele na trama mesmo?”, o que mostra um claro despreparo de planejamento de trama dos roteiristas, mais um negativo no boletim deles. O que eu posso dizer sobre a morte dele é que até que eu consegui sentir pena e emoção no momento, só que graças aos belos trabalhos de edição e trilha, quando a galera do enredo pisa na bola, eles conseguem segurar a bronca com o seu talento. Por falar nisso, como que o Niko não morreu com aquela foiçada nas costas, direção? Atravessou os pulmões e talvez coração, hemorragia intensa, no meio de uma fazenda na Croácia e o Belchior me aparece traqueostomizado na Inglaterra. Por favor, né.
Já que estou aqui, vou logo tocar nesse buraco de roteiro que me incomodou a cada episódio. Eu sei que na Europa os países são espremidos, um no outro, que o acesso entre eles por metrô e avião encurta consideravelmente as distâncias, mas a série está dando aquela forçada na barra. Por exemplo, no final do episódio 6, Villanelle foge da Romênia com ferimento por tesoura e aparece na Espanha na suavidade, como se tivesse andado alguns quarteirões no bairro. Cansei de ver personagens presentes em 3 cidades no mesmo dia, no mesmo episódio, algo que incomoda bastante quando você espera encontrar uma mínima veracidade de fatos e logística no show.

Sinceramente, não sei se a série se perdeu do seu propósito inicial, sem querer, pela decisão de mudanças de showrunner a cada temporada, ou de forma intencional ao ver que praticamente nada deu certo no ano anterior. Ou simplesmente porque o propósito inicial dela nunca foi contar a história de uma agente correndo atrás de um assassino enigmático durante todas as temporadas e sim de mostrar os dois lados interpretados por Jodie Comer: o glamour e auto estima assassina de Villanelle ou a miséria e pressão mental vivida por Oksana. De explorar as suas fragilidades e poderes para analisar o impacto de uma desestruturação familiar em uma criança com a saúde mental comprometida e a sua consequente construção em uma máquina de matar (e de sobra, criar um dos maiores shippos recentes).
Espero que seja a última opção, pois nessa leva de 8 capítulos, a temática foi o grande destaque em meio a decisões equivocadas, furos de roteiro e desatenções técnicas nítidas. É um alento, um sopro de esperança no coração de todo mundo que se apaixonou pela temporada inicial e está desiludido após os 16 episódios seguintes, suspirando de saudade do seu amor passado, assim como Villanelle para Eve.

Com a missão de superar as críticas e aprimorar a sua criatividade da segunda temporada, Killing Eve entrega um terceiro ano mais conciso, com diversas decisões acertadas sobre o seu camisa 10, porém apresentando as mesmas falhas e incerteza com os demais personagens. Alguns erros técnicos continuam presentes, principalmente as de continuação e o queijo suíço do roteiro, mas há de se aplaudir a trilha sonora, figurino e fotografia do drama. Na comparação, são episódios melhores que os anteriores, mas ainda distante da qualidade apresentada no ano inaugural.
Pra não deixar batido:
- A cena de Villanelle sofrendo uma ataque de pânico devido aos efeitos nocivos do seu trabalho no metrô foi também digna de Emmy, que atriz fantástica
- Irina é irmã da Villa e quero nem saber
- Na moral, ache alguém que te ame igual a Villanelle é louca pela Eve, que chega ao ponto de criar uma essência para todo o seu amor e devoção, lindo e invejável.
- Os sustos do Konstantin foram as melhores cenas do personagem e gargalhei em cada uma delas.
- Eve e Villanelle separadas nesta temporada, cada um com sua cena e plot próprios até que teve um resultado positivo
- Não posso deixar de terminar o texto enaltecendo o tremendo trabalho do figurino desta série, cada look da Villanelle é mais garboso que o outro.
















