Depois de uma temporada de estreia muito elogiada, Kidding retorna para seu segundo ano ainda mais experimental e emocional. O começo da temporada lida com as consequências de tudo o que foi apresentado e desenvolvimento anteriormente. O episódio de retorno já começa com Jeff e Jill levando Peter para o hospital após tê-lo atropelado no season finale anterior. E a série já reconquista o público ali, no meio daquela confusão da qual não se dá para olhar pro lado. Muito bem filmado e passado, o desespero dos personagens em meio a uma situação de vida ou morte enquanto os mesmos cometem erros atrás de erros é algo que só “Kidding” faz dessa forma. Tanta coisa errada acontece em tão pouco tempo que o espectador já toma como certo que Peter não vai sobreviver… Mas essa não é uma série que se leva muito a sério.
Depois de todo o desespero, vem à calmaria, e o personagem de Carrey novamente se encontra no meio de um dilema, se conta ou não a verdade sobre o incidente, mas aqui, o roteiro deixa bem perceptível o desenvolvimento e crescimento pelo qual o personagem está passando quando ele conta toda a verdade para a esposa, mesmo sabendo que isso significaria a ruína definitiva de seu casamento. E este é o plot principal de Jeff nesta segunda temporada, ter que aceitar que as coisas mudaram e seguir em frente com sua vida. Nos episódios seguintes são mostradas as situações mais aleatórias e impensáveis possíveis, desde um plano de Jeff e Peter para “curar” disfunção erétil com um tom cômico singular incrível até a tentativa do apresentador de comercializar um brinquedo para se comunicar individualmente com crianças de todo o país, o que obviamente não é bem recebido por muitos pais.
Além disso, a série continua mostrando vários casos de pessoas que tiveram suas vidas tocadas de alguma maneira pelo Mr. Pickles, como crianças em um país em guerra que encontravam no programa de TV uma pausa dos horrores que eram obrigados a vivenciar. O roteiro consegue entregar mensagens e questionamentos não apenas que são construídos durante vários episódios, mas também o faz em pequenas “Cold Opens” muito inventivas e que com tempo, até têm relevância na trama principal.
E se na temporada anterior, um dos momentos que mais impressionaram o público foi o Plano Sequência insano feito dentro de um estúdio mínimo cheio de inventividade, o equivalente do 2° ano são os episódios 2 e 5. Enquanto o segundo funciona como um musical da Broadway repleto de ótimos números musicais dentro da cabeça de Jeff e Peter, o quarto foi feito completamente como o programa fictício do Mr. Pickles. É literalmente como se o espectador fosse sugado para aquela realidade onde realmente existe um programa de TV chamado “Mr. Pickles Puppet Time”, e nós assistimos um capítulo na íntegra, que além de ter todo o brilho dos programas infantis, usa de metáforas e signos para dar um encerramento a um arco que vêm sendo desenvolvido desde o começo da série, o divórcio iminente de Jill e Jeff, que acaba sendo comparado a saída forçada dos fantoches da “Cachoeira dos Picles”, e tudo isso é embalado em diálogos e canções tão delicadas que conseguem passar a mensagem de que aquela realmente é a melhor opção. E o episódio termina com Jeff assinando os papéis de separação com seu coração figura e literalmente na mão.

Mudando de narrativa, Deidre, assim como o irmão, continua a lidar com seu próprio divórcio, só que desta vez, o marido que vimos a traindo durante toda a 1° temporada encontra a oportunidade perfeita para “roubar” metade dos personagens criados por ela, e diferente do irmão, o arco da personagem é de reaver suas criações, e ela acaba cedendo a guarda da própria filha em troca dos fantoches, uma ação completamente questionável motivada pelo modo como foi tratada pelos pais de uma personagem que sempre teve uma bússola moral turva e prioridades duvidosas. Will também tem seu arco próprio que consiste em voltar no tempo. É interessante a maneira como esta temporada lida com Will, que anteriormente era mostrado como uma criança auto-suficiente, madura e rebelde. Aqui podemos ver que o garoto ainda não superou totalmente a morte do irmão e nem a separação dos pais e busca em um livro de magia a oportunidade de voltar no tempo. Mas é claro que isso era mais um famoso “balão” do roteiro que na verdade estava construindo algo muito maior e inesperado.
Seguindo com a temporada, a série reafirma sua capacidade de explorar diversas situações diferentes de maneira brilhante, como no excelente 6° episódio que se passa quase que completamente em um navio em meio a um caos generalizado decorrente da morte do “Philipinno Pickles”, ou no episódio seguinte, que usa de uma montagem muito inteligente para não só finalmente revelar quem é a mãe de Jeff e Deidre, mas também para chocar o espectador com a revelação de que Seb está com demência. A forma com que os acontecimentos ocorrem deixa a audiência confusa e quando a revelação acontece, fica evidente o impressionante trabalho e cuidado que o Showrunner, os Diretores e os Roteiristas têm com cada aspecto da produção.
A temporada também tira um episódio para mostrar o “nascimento” do Mr. Picles! Aqui podemos ver versões jovens de Jeff, Deirdre e Scott (muito bem escalados) durante os Anos 80 e o episódio revela que o programa foi criado como uma resposta a um desastre ocorrido nos Estados Unidos. Uma explicação bem interessante que reforça a preocupação que Jeff sempre teve com as crianças. A série também começa a brincar com uma situação no mínimo inusitada quando Seb começa a se envolver romanticamente com um homem que pensa ser sua esposa em decorrência do Alzheimer. A direção nos momentos em que os atores se revezam durante várias cenas é impecável e o roteiro sabe bem usar a situação para entregar tiradas com um timing impressionante. Outra piada recorrente que a série traz é a de Maddy com seu machado, Dolorores. A jovem atriz sempre rouba a cena com os diálogos mais inacreditáveis e divertidos possíveis.
E no meio disso tudo, as relações dos personagens e a química dos atores também conseguem brilhar. Jim Carrey e Justin Kirk (Peter) protagonizam cenas super divertidas durante a temporada assim como Carrey e Cole Allen (Will) que continuam com uma relação de pai e filho muito específica e que vai evoluindo com o passar dos capítulos. O ato de Will cortar o cabelo não só é uma maneira de mostrar que o garoto saiu da sombra do falecido irmão, mas também é mais uma maneira sutil do roteiro de mostrar que pai e filho se conciliaram e que Will agora se espelha no pai.
E a Temporada continua em uma crescente absurda, os episódios vão se tornando cada vez mais emocionantes, bombásticos e pretensiosos de todas as maneiras. A Narrativa no mínimo diferente dos padrões que veio sendo construída durante todo esse tempo parece amadurecer cada vez mais até se tornar uma coisa realmente única. Eventualmente, Jeff descobre sobre a demência do pai em uma cena de cortar o coração. A interpretação acertada de Frank Langella juntamente ao alcance sensacional entregue por Carrey torna este um dos momentos mais especiais, tristes e melancólicos de toda a série. Tudo acontece de forma tão natural e os diálogos são tão realistas que você esquece que há apenas alguns episódios estávamos vendo um número musical com fantoches em uma cachoeira imaginária. E é esse balanço magnífico que faz com que “Kidding” não seja boba ou realista e melancólica de mais.
E é assim que a Temporada é finalizada, em um êxtase emocional espetacular. Jeff mostra que evoluiu ao literalmente dar uma surra em um terrorista bizarro que queria tomar seu lugar. O personagem nem se segura (como faria na primeira temporada) e nem perde totalmente o controle (como no Season Finale anterior), mas mostra que finalmente encontrou um balanço mais saudável. Já Seb acaba indo para o mesmo asilo em que a ex-esposa está e os dois acabam se conhecendo novamente. O momento em que o ônibus tanto esperado pela mulher finalmente “chega” só não é mais emocionante do que todo o Season Finale, que finalmente volta no tempo, mostrando toda a vida da família Pickles desde o casamento de Jill e Jeff até o momento em que este admite que culpa a esposa pela morte do filho, mas a mensagem entrega aqui é muito maior do que isso. A família acaba percebendo que nada realmente acaba, as coisas somente mudam e se transformam. Will ainda vive não só nas lembranças de sua família, mas também nas pessoas que salvou ao morrer. A cena final é tão significativa, tão bem construída e tão comovente que acaba finalizando de maneira perfeita uma temporada brilhante (e ainda melhor que a primeira) de um dos melhores Seriados da atualidade.






















