Em novembro de 1990, a mídia audiovisual conheceu pela primeira vez a não tão pacata cidade de Derry, lar de uma das mais sombrias criaturas escritas por Stephen King. A minissérie “It”, lançada no ano em questão e baseada no livro de mesmo nome, foi posteriormente lançada como um filme para a televisão, tornando não só a obra quanto o palhaço – que na verdade é muito mais do que isso – interpretado por Tim Curry em um marco para os filmes de terror.
Vinte e sete anos depois, ironicamente, a história voltou ser apresentada em um novo filme, “It – A Coisa”, desta vez a partir da visão do diretor Andy Muschietti, apresentando o ator Bill Skargard como sucessor de Curry no papel de Pennywise. Sendo um filme de terror sem medo de esbanjar momentos cômicos e desenvolvendo um estilo já consagrado dos anos 80 – assim como no livro –, a obra de 2017 conquistou um grande número de fãs e se tornou a maior bilheteria do gênero, criando uma grande expectativa acerca da sequência que viria dois anos depois. Em “It – Capítulo 2”, o Clube dos Otários volta a se reunir para cumprir a promessa que fizeram na infância, dispostos – ou quase isso – a acabar com o grande mal que cerca Derry de uma vez por todas.
Assim como no livro, a história começa a partir de um ato de extrema maldade, visando deixar claro ao espectador que o mal propriamente dito está enraizado tanto na cidade quanto em seus habitantes, adquirindo a forma de preconceitos, atrocidades e indiferença em relação a tudo que acontece na cidade. Tendo a contextualização, o longa-metragem desenvolve sua premissa a partir de uma visão intensamente distópica acerca de Derry, um local obscuro onde reside o medo e o sobrenatural, dando sentido à frase “você sabe o que dizem sobre Derry, ninguém que morre aqui realmente morre”. Em seguida a tal ato, os membros do Clube dos Perdedores, agora na meia idade, são chamados para voltar à cidade onde suas histórias mudaram para sempre por dois motivos: viveram lá os melhores e, respectivamente, os piores momentos de suas vidas. Estas duas relações são o principal foco do novo filme, guiando a narrativa a partir destas duas visões predominantes que acercam tanto os personagens quanto o espectador: ao mesmo tempo em que se encontram animados com a reunião destes velhos amigos, o motivo sombrio desse encontro traz temores e inquietações.
O público, assim, é levado a rever cada um dos oito – sim, oito – personagens que agora cresceram e se encontram com uma nova vida bem diferente da anterior, mas que ao mesmo tempo se encontra um espelho desta. Esta relação entre presente e passado é muito bem trabalhada, de forma inteligente e sutil, ao longo da história, como com o personagem Eddie, por exemplo, que ainda vive com sua hipocondria sendo intensificada pela mulher que ama – antes por sua mãe, agora por sua esposa – e tal espelhamento se mantém coerente com todos os personagens que conseguiram sair da cidade mas que, ainda assim, permanecem presos à ela.
Deste modo, a partir da construção de personagens já conhecidos, entende-se que A Coisa, mesmo que fora da memória do grupo nos últimos vinte e sete anos, nunca deixou de ter uma intensa influência em suas vidas, fazendo com que cada um deles, de certa forma, permanecessem congelados no tempo, com sentimentos e situações que os fadavam a ter Derry cravada em seus subconscientes, seus relacionamentos e em suas próprias identidades. O espelhamento também se destaca nas relações entre o primeiro e o segundo filme, onde é possível enxergar que diferentes pontos da narrativa acabam, propositalmente, se coincidindo e se repetindo – o que volta a gerar uma sensação de looping ao espectador –, pois é visível que presente e passado se entrelaçam e que a história do Clube dos Otários está se repetindo – fazendo um paralelo aos ataques dA Coisa, que se repetem a cada 27 anos.
O novo elenco consegue, em sua totalidade, representar muito bem cada um dos personagens em suas fases adultas, obtendo sucesso em apresentar suas principais características – e até mesmo, em certo ponto, suas feições – mostrando o cuidado da produção na escolha de cada um dos atores – desde o Clube dos Otários até o próprio valentão Henry Bowers. É relevante ressaltar, entretanto, a atuação de Bill Harder, este o qual consegue se encaixar perfeitamente no papel proposto – até porque Richie Tozier coincidindo com a carreira de comediante do ator –, fazendo com que o espectador compactue com seus medos e conflitos pessoais, estes apresentados, pouco a pouco, de forma esperta e sutil, o que torna o personagem ainda mais profundo e complexo do que na versão de 1990 e na própria obra literária.
O tom cômico do novo filme novamente se faz presente durante toda a narrativa – inclusive em sequências construídas a partir da tensão –, mas ainda assim consegue se manter em equilíbrio com os momentos de terror e suspense, provando mais uma vez que uma obra do gênero, se bem construída, pode muito bem se subverter a momentos engraçados e descontraídos. Uma das coisas que melhor funciona no longa, inclusive, é a transição de momentos engraçados para sequências tensas e angustiantes, como no caso do jantar de reunião dos amigos: o público sabe, desde o início, que é só questão de tempo até algo dar errado e A Coisa começar seu ataque, mas a primeira metade da sequência se mantém engraçada, leve e descontraída, mas de repente, junto com os protagonistas, a leveza da cena se transforma em tensão, que é rapidamente guiada até o surgimento de criaturas grotescas causadoras, por si só, de nojo e desconforto, gerando uma cena não só temerosa como angustiante que, por fim, acaba da forma mais cômica possível. Aliás, se torna inegável que o grotesco acaba sendo uma boa escolha para gerar a tensão neste segundo filme, onde são apresentadas, ao espectador e aos personagens, criaturas que acabam sendo assustadoras simplesmente por serem bizarras e nojentas – como o caso do bebê metade aranha, na sequência do jantar –, mas já era de se esperar que Pennywise teria preparado grandes surpresas para seus inimigos, até porque, como diz o personagem, “for twenty-seven years, I dreamt of you. I craved you. I missed you!”.
E, ainda sobre as transições, engana-se quem pensa que “It – Capítulo 2” foca apenas nos Otários já adultos, pois consegue guiar a narrativa a partir destes dois momentos temporais, tanto da vida adulta quanto da infância. O espectador, portanto, é convidado a revisitar a infância do Clube dos Otários e conhecer outros encontros, antes não apresentados, com o palhaço Pennywise. Para tanto, são utilizadas desde momentos do primeiro filme como cenas deletadas, mas principalmente novas gravações com o elenco juvenil que agora se encontra um tanto diferente e com vozes mudadas – o que traz a necessidade de CGI para rejuvenescê-los, mas que ainda pode gerar uma estranheza inevitável.
Portanto, as transições entre vida adulta e infância conseguem ser bastante criativas e manter o ritmo da trama – com ênfase à cena do corte da mão com o caco de vidro, que se mostrou simbolicamente genial –, valendo ressaltar que os flashbacks são bem medidos e não cansam o espectador, pelo contrário: é reconfortante aos fãs poder rever Bill, Bev, Richie, Mike, Ben, Stan e Eddie em suas fases adolescentes. Tais momentos, entretanto, vão muito além de um simples fanservice, pois conseguem agregar bastante à história e faz o espectador não só relembrar tal fase dos protagonistas, mas também conhecer um pouco mais sobre cada um deles.
Uma coisa que pode desagradar ao público, entretanto, é na caricatura estereotipada presente na personagem Beverly durante a vida adulta: sempre que presencia qualquer coisa diferente ao longo do segundo ato, a personagem dá um clássico grito da mocinha em filmes de terror, o que se contradiz com as características da personagem durante o primeiro filme, tendo sido uma das mais corajosas e a primeira a causar dano no Palhaço. Outro fator desproporcional possível de comentário é que as cenas amedrontadoras deste novo filme não tiveram tanto impacto quanto as do anterior, ou seja, quem espera levar grandes sustos ou se impactar com as cenas amedrontadoras pode ficar com um gostinho de quero mais, até porque as cenas com o palhaço acabam sendo um tanto previsíveis e repetitivas; não temos, portanto, uma cena tão impactante quanto Georgie desmembrado clamando por ajuda, ou tão assustadora quanto a cena do projetor. Mas vale lembrar que o grande trunfo da própria história de It, tanto do livro quanto das obras audiovisuais, não se limita apenas ao terror: é, assim, uma história clássica de amizade e autodescobrimento, sendo guiada a partir de um conflito contra uma criatura extremamente obscura e além da compreensão humana – de onde vocês acham que Stranger Things tirou algumas de suas ideias?
E, por fim, o maior êxito do novo filme, além dos já citados nesse texto, é conseguir se relacionar com o espectador a ponto de fazê-lo, a partir da narrativa e do ritmo ao contar a história, sentir como se fosse um dos Otários. Logo na primeira cena, o espectador é convidado a sentar ao redor do Clube dos Otários, ao redor de sete crianças prometendo voltar para Derry se fosse preciso; em seguida acompanha cada um dos protagonistas a descobrir sobre a volta dA Coisa, e senta com eles na mesa para reviver os bons momentos e dar algumas risadas, sendo assim também puxado para compartilhar o medo e a aflição de cada um durante todo o percurso narrativo.
> 13 REASONS WHY FUNCIONA DEPOIS DE 3 TEMPORADAS?
O novo filme apresenta, assim, uma história bastante relacionável, cativante e criativa, colocando o espectador como um dos Otários e mostrando um palhaço Pennywise mais poderoso e grandioso do que nas versões anteriores, ao mesmo tempo em que aborda, no percurso, temas bastante relevantes e, assim, leva a história primeiramente escrita em 1986 para um outro nível. “It – Capítulo 2”, portanto, reinventa e atualiza a própria obra na qual se baseia, conseguindo ser tão bom quanto o primeiro – se não melhor –, e dando a chance ao espectador de se unir, mais uma vez, a Mike, Bill, Beverly, Richie, Eddie, Ben e Stan para enfrentar, pela última vez, um dos vilões mais intensos do cinema e da literatura, até porque, junto aos Otários, o espectador é lembrado da promessa: “Jurem, se A Coisa estiver viva, se um dia A Coisa voltar, nós também voltaremos”.















