Com as antologias em alta, é curioso notar a quantidade de histórias que cada série desse formato consegue contar. Desde aquelas que só trocam de enredo de temporada em temporada àquelas que semanalmente abordam novos desdobramentos da mesma proposta. Esta, aliás, é muito importante para que o público se envolva com o projeto. É preciso identificar algo por trás da intenção de trocar de elenco e cenário constantemente. Em American Horror Story, por exemplo, a intenção é cavar o horror presente na história norte-americana. Room 104, que terminou recentemente sua temporada, passeia por diversos gêneros, mas sempre com a regra de que a história deve se passar dentro de um quarto de motel. Inside No. 9, que veio bem antes, é similar nesse aspecto — com a diferença de que é mais divertida, mais criativa e mais recomendável.
A série teve sua primeira temporada em 2014, a segunda no ano seguinte e a terceira começou a ser exibida na BBC Two no final do ano passado, terminando em março deste ano. As três temporadas contêm seis episódios cada, totalizando dezoito episódios que investigam o humor nas mais bizarras e diversas situações. Algo presente constantemente é o suspense e os elementos de horror, que aparecem de surpresa em reviravoltas ao final de diversos episódios. Vale destacar a criatividade na elaboração dos enredos, não só em relação aos diálogos afiados, mas às situações criadas e exploradas nos trinta minutos de duração de cada seguimento.

Reece Shearsmith e Steve Pemberton são responsáveis pela criação da antologia. A dupla escreve os roteiros e estrela os episódios, interpretando as mais diversas personagens. Um elenco de apoio, com alguns nomes conhecidos, vai mudando de acordo com a semana, tendo nos dois as únicas figuras fixas. Ambos são muito talentosos e exibem controle absoluto do material em mãos ao conseguir extrair o humor proposto pelo texto e mostrar versatilidade na abordagem das personalidades que retratam.
Shearsmith e Pemberton trabalham juntos há bastante tempo e a química visível nos episódios é resultado de uma parceria de longos anos. Ambos, junto aos escritores Jeremy Dyson e Mark Gatiss, criaram a comédia inglesa The League of Gentlemen que foi ao ar entre 1999 e 2002, ganhou alguns prêmios e voltará nos próximos anos para novos episódios. O horror visto em Inside pode ser observado em Psychoville, produção que foi ao ar entre 2009 e 2011, também na BBC Two. Na série, cinco estranhos recebem a mesma ameaça de uma fonte secreta, que diz “saber o que eles fizeram”. Os escritores, assim como em Inside, atuam nos projetos citados.
Como o nome adianta, Inside No. 9 retrata histórias que se passam dentro deste número, podendo ele se referir ao número nove de um endereço, o nove de uma cabine de karaokê ou o vagão de um trem. A primeira temporada foi dirigida por David Kerr, experiente em comédias por ter dirigido alguns episódios da famosa e premiada Fresh Meat. A segunda e terceira temporada tem, no total, sete episódios dirigidos por Guillem Morales, diretor do horror espanhol Los Ojos de Julia. Além dos próprios criadores, Dan Zeff e Graeme Harper fecham o time da direção.
É arriscado adiantar qualquer coisa sobre os episódios porque eles tomam rumos inesperados, e não saber muito acaba complementando a experiência. Sem abordar muito, então, destaco The 12 Days of Christine (02×02), um passeio pessimista e não linear pela vida de uma mulher e Cold Comfort (02×01), sobre atendentes que trabalham em um centro de ajuda que recebe ligações de pessoas solitárias e desesperadas, filmado a partir de câmeras de segurança.
A minha recomendação é que a série inteira seja assistida, pulando somente o segundo episódio da primeira temporada. Mas como Inside No. 9 chegou ao Serie Maníacos no #MêsDoHorror, vou destacar cinco episódios mais diretamente ligados ao gênero para quem quiser encaixar a antologia entre os filmes de horror de outubro:
#1
01×06: “The Harrowing” (12/03/2014)

O número nove, aqui, se relaciona a uma mansão gótica. Nela, Katy (Aimee-Ffion Edwards) é contratada como a babá do casarão de Hector (Reece Shearsmith) e Tabitha (Helen McCrory), pessoas pálidas que não costumam sair de casa, mas que têm um evento para comparecer. A jovem é orientada a não subir ao andar de cima e não incomodar Andras, o irmão dos dois e que, aparentemente, não possui boca. O debilitado utiliza um sino para pedir ajuda, mas é improvável que o faça. Ou seja, não precisa se preocupar com ele.
Conforme os minutos passam, entretanto, a babá percebe que não será tão fácil cumprir a tarefa, porque coisas estranhas começam a ocorrer ao seu redor, combinando com o estranhamento gerado pelo cenário em que se encontra. Isso é suficiente para que Katy perceba que deve ir embora dali. Quando se prepara para isso, entretanto, o sino toca no andar de cima e ela precisa decidir se deve ou não socorrer quem pede ajuda. Sua decisão quanto a isso revela alguns segredos relacionados aos moradores do casarão e o destino que prepararam para ela.
#2
02×03: “The Trial of Elizabeth Gadge” (09/04/2015)

Assim como o episódio que o segue, The Trial se mostra uma história de mistério conforme os minutos passam. O grande mistério, aqui, é se Elizabeth Gadge (Ruth Sheen), acusada de bruxaria, pratica ou não as artes das trevas. A filha e o genro a acusam, além de alguns vizinhos. Segundo os relatos, ela fala com animais e tem poderes obscuros. Com uma acusação tão séria, a senhora é levada a julgamento diante da vila, onde será posta a frente de alguns juízes cristãos que decidirão o seu destino.
A história se passa no século XVII e traz os criadores da série como caçadores de bruxas, que chegam à cidade justamente para julgar a acusada. A dinâmica entre os dois, que discordam da forma como o julgamento deve ser conduzido e a inocência da acusada, é interessante de acompanhar, assim como as reviravoltas do enredo, que vai revelando os desejos por trás de quem tanto quer a condenação da senhora. O episódio faz referência ao maravilhoso The Crucible, entre outras obras que retratam a amargura e hipocrisia desse período. A atuação de Sheen, debochada e desesperançada, faz um bom complemento à dupla do elenco fixo e é outro bom motivo para ver o episódio.
#3
02×06: “Séance Time” (29/04/2015)

O último episódio da segunda temporada traz a metalinguagem para Inside No 9 e fala sobre um programa dentro de um programa. Neste, chamado Scaredy Cam, um grupo de atores é responsável por assustar pessoas ingênuas através de truques gerados pela tecnologia e atores maquiados. Os monstros e o contato sobrenatural, tidos como verdadeiros no primeiro momento, se mostram como parte de um cenário elaborado para cativar e assustar os mais ingênuos.
Entre uma tomada e outra, entretanto, algumas coisas estranhas começam a acontecer. Sem tempo para ajeitar tudo como deve ser, o programa segue para a gravação de uma nova pegadinha, dessa vez com outro convidado. Quando ele entra, está tudo fora de lugar e não dá muito certo, resultando em consequências dramáticas para os envolvidos na situação. Uma história com diversas camadas, Séance Time é divertido e utiliza elementos de horror e mistério para elaborar o humor negro da série — lembra um pouco o episódio Television Terror, citado no TOP 13 Episódios de Tales from the Crypt.
#04
03×03: “The Riddle of the Sphinx” (28/02/2017)

The Riddle of the Sphinx é possivelmente meu episódio favorito da série, além de um dos melhores de horror/mistério exibidos na televisão este ano. Nele, há um jogo de manipulação que brinca com a noção de vítima. Citando diretamente o mito da Esfinge, temos menção ao caçador e à caça, que mudam de figura conforme o episódio avança.
A história retrata uma garota que invade a casa de um professor, durante a noite, para que ele lhe dê algumas dicas sobre suas palavras cruzadas, que possivelmente a ajudarão a se relacionar melhor com um garoto. O professor, mestre nessa função, vai lhe ensinando alguns truques para desvendar os mistérios das charadas, enquanto ela revela alguns segredos. O roteiro brinca com o absurdo da situação, apostando nos mais bizarros diálogos, que soam engraçados às vezes. O tom muda rapidamente, entretanto, indo para o grotesco e o macabro, provocando sensações estranhas por conta das direções tomadas pelo enredo.
#05
03×06: “Private View”

Mais uma história que vai se mostrando bizarra conforme os minutos passam, aqui temos um grupo de pessoas que não se conhecem, visitando uma galeria de arte, respondendo assim o convite particular que receberam. A galeria se encontra fechada, no entanto, e nenhum deles sabe por qual motivo sua presença foi solicitada.
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Aos poucos, assim que se separam, os convidados vão sendo assassinados, o que os leva a acreditar que alguém entre eles pode ter intenções perversas sobre seus destinos. A revelação sobre o plano do assassino, aliás, é cruel e reafirma a criatividade dos escritores da série para histórias de horror.

Renovada para a quarta temporada, que irá ao ar no ano que vem, Inside No. 9 tem uma trajetória quase perfeita pela televisão e que poucas vezes apresenta um episódio que não empolga — aqueles que não fazem isso no começo, conquistam no desenrolar da história. É recomendável para quem gosta de comédias que investigam o humor por trás das histórias mais comuns, como o questionamento sobre quem deve pagar a conta de um jantar entre amigos, ou para aqueles que gostam de mistérios que nunca se levam a sério demais. Ou para todos, em geral.
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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2016 e setembro de 2017.
















