E se pudéssemos reescrever a história da representatividade em produções audiovisuais? Numa mistura de realidade com licença poética, Ryan Murphy responde esta pergunta na sua segunda produção original para a Netflix.

Murphy e Brennan constroem o universo da minissérie num contexto pós-Segunda Guerra Mundial, apresentando seus personagens principais, jovens aspirantes a atores, roteiristas e diretores que estão tentando fazer sucesso no campo audiovisual de Hollywood. Reaproveitando atores já conhecidos de outras produções, a minissérie possui grandes nomes, desde do núcleo mais jovem até o mais velho.

A narrativa acompanha primeiramente Jack Castello (David Corenswet) fazendo de tudo para conseguir manter financeiramente sua esposa grávida de gêmeos, mas ao mesmo tempo sem desistir do sonho de ser um ator famoso, a partir disso vemos como a prostituição de luxo acontecia em Los Angeles na década de 50, além de uma perspectiva de como a homossexualidade era tratada na época, Murphy não peca em trazer um cenário mais naturalizado, mesmo que de forma caricata. Talvez esse seja o maior problema da série, a ideia de fazer algo que remetesse aos anos 50, fez com que os atores, os mais novos principalmente, atuassem de forma caricata em cenas que beiravam o ridículo. O fato de Jack ser um péssimo ator, mas ganhar o papel por ter “porte de galã”, o que também acontece com o personagem do Rock Hudson (Jake Picking), que representa como os atores eram forçados ao “teste do sofá” para conseguir seus papéis.

Rock Hudson é um dos tópicos especiais da série, por ser um personagem inspirado em uma pessoa real, que escondeu sua sexualidade durante toda sua vida e foi o primeiro ator a morrer com HIV/AIDS nos anos 80, a forma como a série reescreve sua trajetória é bonita e traz uma realidade em que encontrar as pessoas certas no momento certo teria mudado completamente sua vida, o personagem na série representa ao lado de Jack, um arquétipo de homem padrão que não é um bom ator, mas recebe o reconhecimento pelo mínimo que seja. O personagem de Henry Wilson, interpretado pelo Jim Parsons, também foi inspirado numa pessoa real, que era o agente do Rock na vida real, conhecido por abusar de seus clientes para conseguir papéis em filmes. Outra personagem na série que também foi inspirada em uma pessoa na vida real foi a Anna May Wong, o que é um ponto forte e fraco da série ao mesmo tempo, pois da mesma forma que abordam essa questão, a personagem não possui muito tempo de tela, abordando a situação de forma rasa, mas ainda assim com um final emocionante e necessário, a cena do Oscar foi muito bem feita, que poderia facilmente ter sido mais durante a série como um todo. Por último, a personagem da Queen Latifah, Hattie McDaniel, que realmente foi a primeira mulher negra a ganhar um Oscar por atriz coadjuvante e não pode receber seu prêmio ou sentar com seus colegas de elenco durante a cerimônia que a premiou, sua participação foi pequena, mas as conversas com a Camille foram muito importantes para a história que foi contada.

Saindo das representações reais, Hollywood traz a produção de “Meg”, suas implicações e complicações, um roteirista negro e gay com um atriz negra no papel principal levantou grandes revoltas nos EUA, recebendo ataques da Ku Klux Klan, o que levou a mais um problema da série, que foram todas as vezes que uma solução óbvia aconteceu, seja pelo infarto do Ace logo depois que ele decidiu cancelar o filme, o sumiço dos ataques racistas ao filme depois de uma cena de dez minutos, como se eles não tivessem continuado, ou até mesmo piorado, além de outras coisas que acontecem e deixam a impressão de que só ocorrerão porque os roteiristas estavam com muita preguiça para pensar em outra resolução para esses problemas.

Entretanto, é evidente que a química entre o elenco é incrível, o que faz com que o telespectador se envolva com a história e consiga se divertir, personagens como Dick, Ernie, Kincaid e Avis trouxeram maturidade à série, ao tempo que os mais novos pareciam estar perdidos e apenas cheios dos vislumbres dos seus sonhos, esses personagens mais velhos realmente levantaram debates e agiram de forma coesa, a evolução e crescimento de todos os quatro dentro da narrativa mostrou uma maturidade no roteiro que se fosse um pouco mais desenvolvido teria dado muito mais credibilidade e seriedade à série.

Os romances dentro da série não foram algo muito relevante, o único que pode ser considerado como no mínimo envolvente foi o de Rock e Archie, desde o primeiro encontro dos dois a química e a forma como eles se envolveram foi muito bonita, não foi algo forçado que apareceu do nada, mas sim construído durante os episódios, diferente de Jack e Claire, que se tivesse acontecido como Rock e Archie, que tiveram um crescimento gradual, mas toda a história do Jack ter uma esposa e depois descobrir que ele não era pai dos gêmeos dela foi tão desnecessária e sem importância para a trama, já Raymond e Camille não foram nem muito, nem pouco, talvez eu ainda esteja preso ao ator interpretando personagens gays ou talvez só não tenha tido muita importância mesmo.

Acredito que os dois últimos episódios da série mereçam comentários específicos, o penúltimo capítulo trouxe cenas do filme, que realmente ficou bonito e representava algo, a forma como Dick fez Archie mudar o destino de Meg, pois a personagem seria uma símbolo de representatividade, todo o processo de produção, edição e cortes do filme foi algo divertido de se ver, a cena em que o Ace acorda me fez pensar que aquele seria o maior problema da série, mas infelizmente isso durou dez minutos porque a solução para isso foi ele morrer, daí vimos os advogados dele queimarem o filme, mais um problema que seria praticamente irreversível, terminei de assistir este sem acreditar naquilo, muito ansioso para o que estava por vir, daí nos primeiros dois minutos do último episódio tudo foi resolvido da forma mais óbvia possível.

Quando Ryan Murphy propõe que a série vai reescrever a história de Hollywood, ele esquece de pedir que você considere uma realidade ousada e utópica, toda a situação de distribuição, espalhar o filme com preços mais baratos foi algo muito inteligente, algo que realmente teria feito a diferença, o último episódio é puro deleite, as vitórias do Oscar, o impacto que “Meg” teve, a aclamação e os posicionamentos dos personagens. O mais ousado de todos foi Archie com Rock, é claro que se aquilo tivesse acontecido de verdade numa época cheia de preconceitos, a resposta a assumir o relacionamento teria sido bem diferente, mas foi bom assistir a esta outra realidade em que este ato, que não ocorre com tanta frequência ainda nos dias de hoje, teria impulsionado mudanças como visto no final da série. O grande trunfo do último episódio, que me fez esquecer de qualquer defeito  da produção foram as cenas de vitórias do Oscar, as pessoas escutando a vitória daqueles que eram semelhantes a eles, com quem se identificavam, fez com que tudo fizesse sentido, foi emocionante e bem feito. Se hoje em dia nos emocionamos com minorias conquistando espaços, imagine numa época mais repressora da atual. Foi um final com jeitinho de novela brasileira, todos felizes e até redenção de vilões como o Henry.

“Hollywood” não é a obra prima de Ryan Murphy, mas ele nunca quis que fosse, o que aparenta é que ele pensou no final da série, no seu objetivo e partiu disso, é uma minissérie divertida e feita para ser maratonada em um dia, não traz grandes atuações, mas foi criada com uma mensagem a ser passada aliada ao jeitinho que o Murphy cria suas séries, com uma ótima produção, atores conhecidos de seus trabalhos anteriormente e uma linguagem que consiga alcançar muitos públicos.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-hollywood-nova-minisserie-de-ryan-murphy-reescreve-a-historia-de-forma-divertida-e-emocionante-mas-nao-se-aprofunda“Hollywood” não é a obra prima de Ryan Murphy, mas ele nunca quis que fosse, o que aparenta é que ele pensou no final da série, no seu objetivo e partiu disso, é uma minissérie divertida e feita para ser maratonada em um dia, não traz grandes atuações, mas foi criada com uma mensagem a ser passada aliada ao jeitinho que o Murphy cria suas séries, com uma ótima produção, atores conhecidos de seus trabalhos anteriormente e uma linguagem que consiga alcançar muitos públicos.