Baseados em grande parte nas lendas orientais, repletas de seres fantásticos, os kaijus surgiram como uma interessante adição aos tokusatsus japoneses, servindo como os inimigos que destruíam cidades após cidades miniaturizadas em uma sequência incansável, vindos das mais diversas origens (fundo do mar, do espaço, vulcões). Os monstros gigantes, no entanto, ultrapassaram a barreira das ilhas e foram exportados para o mundo, onde em cada novo lugar que aportavam ganhavam uma nova versão, localizada para sua cultura, mas sem nunca perder o cerne de sua origem. Hollywood, por sua vez, tentou algumas vezes em reproduzir esse sucesso oriental em suas telas, mas nem sempre obteve sucesso.
O primeiro filme dessa “franquia”, “Godzilla” (2014) conseguiu se destacar por usar uma inventiva maneira de retratar o mais famoso dos kaijus, escondendo em grande parte do filme sua aparência e mostrando através das consequências de seus atos a sua verdadeira natureza, tornando sua aparição uma recompensa prazerosa. A sequência que chega essa semana aos cinemas, “Godzilla II: Rei dos Monstros” (Godzilla: King of the Monsters, 2019), consegue manter o nível de destruição nas alturas, mas se perde no seu componente humano.

Cinco anos depois da destruição causada pela batalha entre Godzilla e os MUTO’s, os titãs se tornaram conhecimento mundial. A Monarch luta para manter em segredo a localização dos dezessete espécimes encontrados ao mesmo tempo que tenta escapar do Governo Americano e suas sanções. Mas tudo isso se torna irrelevante quando uma ameaça ancestral desperta, fazendo com que os homens e o monstro (Godzilla) se unam para salvar o planeta da destruição certa.
O filme parte do ponto de vista de uma família de cientistas afetadas pela destruição em São Francisco no filme de 2014, trazendo rostos conhecidos somente no núcleo da Monarch. O diretor Michael Dougherty constrói então uma narrativa visual que bebe um pouco das fontes anteriores, mas imprime sua própria marca. O que antes era construído com certa elegância, criando tensão e suspense da ausência, agora dá espaço para uma colisão explicita de figuras conhecidas, num show apoteótico de destruição como só hollywood consegue proporcionar. Ver Godzilla, Rodan, Ghidorah e Mothra se digladiando na telona é de encher os olhos, com visuais que atualizam as versões antigas para um público recente e deixam a criança interior em cada um dos espectadores no limite da cadeira. É como ver uma luta de sumô entre gigantes titânicos que destroem cidades e a eles mesmos sem nenhuma cerimônia. Isso fica ainda mais evidente com a enérgica e completamente imersiva trilha sonora criada por Bear McCreary, que usa uma base de taikôs e gritos de guerra em japonês como núcleo das faixas.

Se o filme fosse somente sobre os monstros seria perfeito, mas o lado humano do longa acaba sendo a sua parte mais frágil, literal e figurativamente falando. Se por um lado atores como Ken Watanabe, Ziyi Zhang, Bradley Whitford e Charles Dance conseguem roubar suas cenas de modo imediato, outros nomes de peso como Vera Farmiga, Kyle Chandler e Millie Bobby Brown são desperdiçados em um drama familiar que não emociona e força com twists de roteiro bem incoerentes. O pior ainda é o subaproveitamento de vários outros nomes, como Sally Hawkins, Aisha Hinds, O’Shea Jackson Jr e Jason Strathairn em participações ora descartáveis, ora breves demais.
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De maneira atípica, “Godzilla: Rei dos Monstros” faz com que o publico se importe mais com os monstros do que com os humanos em sua narrativa. Mesmo com um subtexto ecológico, na batalha entre o macro (monstros) e o micro (humanos), somos nós que levamos a pior. O longa que prepara caminho para a esperada batalha entre Godzilla e King Kong, cumpre sua função construindo e expandindo ainda mais a mitologia de seu mundo, mas falha em contextualizar o nosso papel do outro lado da tela. Sem a identificação humana, basta acompanhar o desenrolar da sangrenta e divertida conquista do reino e aproveitar a guerra entre as forças primordiais, desejando vida longa ao rei dos monstros (humanos ou não).
* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Warner Bros. Pictures Brasil
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