Será que nós nos reconheceríamos se voltássemos no tempo? O questionamento chegou a mim introduzido por um professor de língua portuguesa, que colocou em perspectiva a tradição das histórias cinematográficas. Isto é, tradicionalmente, a resposta é “sim, nos reconheceríamos”, mas será que não há uma constante mudança no ser humano que impossibilitaria esses dois seres, existindo em tempos diferentes e em circunstâncias diferentes, de se verem como parte da mesma unidade? O reconhecimento é a prova de que não se muda, de que há uma substância da qual somos feitos e que se conserva dentro deste vaso que chamamos de pele. O reconhecimento se daria de forma certeira para aquelas pessoas que nunca viram fotos de si mesma e se assustaram com alguns detalhes ali representados. Outras, no entanto, teriam muita dificuldade se voltassem no tempo no meio de um colégio lotado e tivessem que se procurar.
No caso de Satoru Fujinuma, seu encontro não é como uma segunda pessoa que precisa alertar sua “versão” mais jovem. Ele retorna às circunstâncias do garoto que fora aos onze anos, quando reencontra diversas questões ligadas aos acontecimentos do presente e que esquecera — talvez alguma relação com o que fora apontado no parágrafo anterior. Na porta dos trinta anos, ele é um artista que não consegue desenvolver o mangá que pretende escrever, trabalhando também com entregas para uma pizzaria. Sua vida é pouco movimentada e o único relacionamento que vemos em desenvolvimento é com a mãe, que o visita para ver como estão as coisas.

Nessa rotina sem inspiração, acompanhado pelos olhos espertos maternos, Satoru precisa lidar com as consequências de um dom: ele consegue prever o futuro. Isto é, ele vê algo ocorrendo e depois, como se puxado para trás de repente, volta ao instante pré-acontecimento e sente tudo como uma premonição, aquela velha sensação de déjà-vu. Com essa sensação, é possível que faça algo para impedir alguma coisa terrível de acontecer, como o vemos fazendo algumas vezes. Ainda assim, ele não é capaz de impedir que uma tragédia ocorra com sua mãe, da qual acaba se tornando o principal suspeito.
Seu dom o salva de encarar a perseguição da polícia: Satoru volta dezoito anos no tempo e se vê como criança. A diferença é que ele tem memória de tudo o que ocorrerá no futuro: a fatalidade com a mãe e os sequestros envolvendo colegas de turma. Isso porque, nessa época, alguns colegas de classe desapareceram misteriosamente, fato que marcou a cidade de vez com a descoberta de seus assassinatos em seguida. A culpa recaiu sobre um dos amigos do protagonista, levado em custódia para responder pelas vidas das crianças que teria raptado.

Ao voltarmos à infância de nossa personagem principal, percebemos que há indícios da pessoa que seria quando mais velho. O futuro artista, além de desenhar, não tem muito contato com os outros colegas de classe, conservando sua companhia para si. Ao retornar, no entanto, ele percebe que o assassino por trás dos eventos que acontecerão (novamente) em seguida caça as crianças sozinhas, que não têm amigos e se tornam bons alvos para desaparecerem. O modo de salvá-las, então, é juntar um grupo que possa se conservar como segurança um do outro.
Mesmo com essa introdução, garanto não ter contado muito do enredo dos doze episódios de Bokudake ga Inai Machi. Talvez os apreciadores da cultura popular oriental se lembrem deste nome, pois é o mesmo de um famoso mangá lançado no começo desta década. Depois do reconhecimento alcançado, a obra japonesa ganhou adaptações em anime e filme, ambos em 2016. Em dezembro do ano seguinte, chegou pela Netflix em parceria com a Kansai TV uma versão em seriado (e live-action) com episódios de trinta minutos e que fazem, pelo que pesquisei, um caminho diferente das outras adaptações. A rápida temporada faz uso de diversos elementos de fantasia, drama e mistério para contar uma história que nos lembra quase um conto de fadas, transformando crianças em heróis e fazendo reflexões sobre a vida adulta a partir da ótica de alguém que quer reescrever o próprio presente.

Erased passa boa parte de sua trama sendo desenvolvida por atores mirins, explorando o mundo encantado deles, mas não suaviza sua melancolia com esse olhar sobre o período escolar. A classificação alta na Netflix se justifica não só pela violência que aparece aqui e ali com cenas de perseguição e assassinato, mas pela dureza de seu roteiro que nunca trata a infância como intocável. Ao falar sobre essa época, o texto aborda questões como abuso físico, psicopatia e solidão. Temos crianças marcadas não só fisicamente, mas cujo comportamento é afetado por questões de seu cotidiano.
Além do protagonista, interpretado aqui pelo ator Yuki Furukawa (e, quando criança, pelo encantador Reo Uchikawa), vale destacar sua mãe. Ela, inteligente e solidária, espelha algumas qualidades do filho ao se importar com outras crianças e os problemas pelos quais passam — aqui desenvolvida pelo trabalho da atriz Yuriko Ishida. Kayo Hinazuki (Rinka Kakihara) é a mais preocupante vítima por conta não só dos riscos que o estranho que a raptaria representa, mas pela negligência materna. Junto com Satoru, ela forma um casal que divide festas de aniversário e reaprende a sensibilidade do outro a partir de si. Por último, a divertida Airi Katagiri (Mio Yuki) é uma colega de trabalho do procurado no presente. Sua ajuda é importante, uma vez que ninguém acredita na inocência dele.

Entre os diversos temas e objetivos, Erased fala sobre a desconstrução do irreversível. Mesmo com as falhas do herói, a importância de alcançar sua missão é tão grande que acompanhamos outras tentativas. Ele precisa salvar os novos amigos a todo custo, porque o que começou como um plano para resgatar a mãe se torna maior e abrange os colegas de classe. Assim, a produção faz um resgate do período escolar como um berço da vida social, dos primeiros sonhos de qualquer um.
> Bom gosto pra SÉRIES é relativo? feat Alice Aquino!
Quando no passado, a série tem seu principal acerto e é mais cativante. No futuro/presente, pouco nos atrai, mesmo quando sabemos que é só então que veremos o destino das personagens. Há bons momentos, mas a ansiedade em que ficamos é pela volta ao grupo infantil na esperança que ele seja mais explorado. Com mais de dez episódios, há um desconforto no ritmo mesmo que os episódios não cheguem a trinta minutos. Dava para retirar alguns acontecimentos e deixar a série intacta. Há uma reviravolta com o destino do protagonista que repercute em um presente diferente, mas que só alonga as consequências para as verdades reveladas ao telespectador.

Além disso, o culpado é meio óbvio, tornando o mistério o menos interessante aqui, assim como a construção do antagonista. Este, como em tantas outras produções, é visto como a figura possuída pelo mal e pronto; seu destino. O confronto final é deprimente, mas nisso não posso achar defeito porque a série toda é melancólica — e isso não é algo ruim pois combina com os tons que escolhe. No fim, Erased faz um bom trabalho ao posicionar suas crianças como sobreposição ao adulto e refletindo as dificuldades da vida. Tem na missão do protagonista, ao salvar crianças de uma solidão que elas não sabem que as ameaça, algo doloroso, forte e impressionante.
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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2017 e setembro de 2018.















