Depois de um terceiro ano truculento e ousado, volta uma das melhores séries da Netflix com a primeira metade do seu ato final. Ainda mais mortal e sagaz, a quarta temporada de Ozark começa provando o que todos já imaginavam: ninguém vai sair dessa limpo.

A quarta temporada começa de onde o terceiro ano parou, com Marty e Wendy Byrde – interpretados por Jason Bateman e Laura Linney – retirando os restos dos miolos estourados de Helen de suas roupas e cabelos. A cena de abertura representa muito bem o que os episódios seguintes entregarão ao espectador, uma vez que vemos ambos os protagonistas tentando se limpar em meio à angústia e tensão de sua vida criminosa.

Logo no início, somos apresentados ao antagonista desta temporada, cuja imprudência será o precursor dos obstáculos que a família Byrde – e companhia – deverão enfrentar em meio ao caos dos Ozarks. Interpretado brilhantemente por Alfonso Herrera, Javier Elizondo, o sobrinho do grande líder de cartel Omar Navarro, demonstra logo de cara que não está satisfeito com a forma de agir dos Byrdes, e que, se dependesse dele, era Helen que estaria limpando os restos de Marty e Wendy.

Indo um pouco além do antagonista – que, mesmo sendo um dentre tantos outros na série, ainda consegue se destacar e se provar memorável –, um dos focos da temporada é no embate entre Wendy e seu filho mais novo, Jonah.

Como é de conhecimento comum, a adolescência é uma fase em que os indivíduos naturalmente tendem a se rebelarem contra o mundo, o sistema e, a cima de tudo, contra os próprios pais. Misturando isso à descoberta de que a mãe foi quem autorizou a morte do tio – uma das pessoas com quem mais se identificava –, o caçula da família Byrde entra em um processo destrutivo de luto e vingança, que faz Jonah ir contra os negócios da família.

Tal discórdia entre mãe e filho permite uma demonstração impecável do que Wendy Byrde se tornou ao longo da obra: uma mulher forte, sagaz e sedenta por poder, que se vê perdendo o controle do próprio lar. Em determinados momentos, a personagem se mostra ambígua quanto às verdadeiras prioridades, deixando os espectadores em dúvida se ela realmente se importa com a própria família, ou se vê neles apenas uma chave para seu sucesso. Essa ambiguidade também é alimentada pela forte presença da imagem de seu irmão Ben nas mídias, onde Wendy reitera repetidas vezes que ele se encontra desaparecido. Com isso, acaba trazendo atenção desnecessária para o caso, e faz com que nos perguntemos se tais ações são parte do seu luto, ou uma forma de incrementar sua imagem.

Wendy, entretanto, não briga somente com o filho nesta temporada. Sua rivalidade com Darlene Snell, interpretada por Lisa Emery, também recebe bastante enfoque nos novos episódios, entregando para o público uma ótima guerra fria entre duas mulheres fortes, poderosas e que certamente conseguem amedrontar qualquer um em seus caminhos.

Em contrapartida, enquanto Wendy usa tudo de si para crescer na política, derrubar Darlene e obrigar o filho a voltar para debaixo de suas asas, Marty Byrde é aquele que mantém a calma enquanto o mundo parece desmoronar ao seu redor. É possível ver quanto o personagem cresceu desde o início da série, tendo passado de um simples consultor financeiro para um poderoso e influente criminoso, o qual se orgulha fortemente das habilidades de seus pupilos, Jonah e Ruth, ainda que estejam ambos do lado oposto desta forte rivalidade.

Ainda assim, mais uma vez a personagem que mais se destaca na temporada é Ruth Langmore, interpretada com maestria pela vencedora do Emmy Julia Garner. Dessa vez compartilhando os sentimentos de Jonah, Ruth se encontra sofrendo pelo homem que amou com tamanha intensidade, levando ela para um caminho de rivalidade contra a Wendy e seu antigo patrão e mentor, Marty Byrde. Para isso, a personagem entra em uma hilária parceria com seu jovem primo Wyatt e sua namorada, a conservadora Darlene Snell – novamente rendendo ótimos momentos como um casal bastante apaixonado, mas disfuncional, pois o brilhante rapaz tem dificuldade em lidar com a brutalidade e as matanças da amante.

Dentre todos os personagens da série, Ruth é a que passa pela maior mudança até o último episódio, e não só por amadurecer e conseguir gerir o próprio negócio. Em determinado momento, no final da temporada, a personagem atinge uma catarse que impacta toda a trajetória da personagem até então, permitindo o público se surpreender, mais uma vez, com a excepcional atuação de Garner no papel.

Trazendo um significante spoiler para reflexão, a morte de Wyatt impulsiona a personagem para um local não visto até então. Sofrendo em todas as temporadas, Ruth Langmore já vivenciou a morte do pai, uma quebra de confiança por parte do primo, e a perda do homem que mais amou na vida por causa de suas decisões… Mas, a partir deste acontecimento, toda sua trajetória colide com o fim daquilo que tanto sonhou. Se tornou a pessoa que é com o objetivo de poder dar uma vida melhor para o primo; acreditou que Wyatt conseguiria entrar em uma boa faculdade e quebrar o ciclo da família; sonhou, fortemente, em viver com ele em um lugar calmo e pacífico. E tudo vai por água a baixo quando o grande vilão da temporada, Javier, executa Darlene e Wyatt, que não deixou o lado da amada – e, vamos concordar, não foi por falta de aviso.

A personagem, dessa forma, entra em um temeroso caminho de fúria, onde nada mais importa se não a vingança. Em meio à sua melhor atuação em toda a série, Ruth nos guia para o plot dos últimos episódios com uma mensagem bastante clara: ela só vai parar se morrer.

Além das clássicas lavagens de dinheiro e tráfico de drogas, a primeira metade da temporada final de Ozark chega com conflitos intensos, reviravoltas estimulantes e mortes de personagens que acompanhavam a obra desde seus primeiros capítulos. O elenco, novamente, entrega tudo de si com atuações poderosas que agregam ainda mais à trama que, por si só, já é pra lá de instigante. Aqueles que acompanham os esquemas da família Byrde devem se preparar, porque o fim está próximo e não sabemos quem sobreviverá.

REVISÃO GERAL
Nota:
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