O primeiro pensamento que vem à tona após a exibição de Entre Irmãs, o novo filme de Breno Silveira é: “Quando é que esse filme vai ser dividido em cinco capítulos para a Globo?”. Tudo em Entre Irmãs grita pela necessidade de fazer parte do catálogo de microsséries da emissora. Assim como muitas produções nacionais (Gonzaga – De Pai para Filho, O Tempo e o Vento, Mais Forte que o Mundo e Alemão – Os Dois Lados do Complexo), parece que o destino do longa estrelado por Marjorie Estiano e Nanda Costa é ser picotado para os especiais exibidos após a virada do ano.
Toda a estrutura da narrativa parece ter sido criada especialmente visando a adaptação para às telinhas posteriormente. Mas, então, por que não produzir diretamente nesse formato e deixar de lado a ambição de ir para os cinemas? Difícil de compreender, especialmente ao notar que, como longa-metragem, a trama não ganha em nada. Na verdade, o livro A Costureira e o Cangaceiro – obra que deu base para o filme – só se vê prejudicado nesse esquema.
A quantidade de personagens, as diversas tramas paralelas, o texto didático e frouxo dos diálogos juntos a duração de Entre Irmãs jogam contra o longa-metragem e a favor da microssérie. Não será uma surpresa se a versão serializada fizer mais sucesso que o próprio filme. Afinal de contas, o aparente público-alvo será aquele que acompanha as novelas e estará disposto a ir dormir um pouco mais tarde em vez de pagar uma entrada no cinema. Esse público não estaria pronto para encarar uma projeção de quase 3 horas. Na televisão e em blocos, o processo será bem mais fácil e o conteúdo melhor digerido pelos espectadores.
Muito do que se apresenta problemático no longa-metragem poderá encontrar certo brilho no novo formato. Os personagens deslocados de Letícia Colins e Rômulo Estrela receberão um certo respiro e poderão ter um desenvolvimento até justificado se de fato a divisão em episódios ocorrer. Nessa versão condensada, entretanto, os dois ficam perdidos e, apesar de explorarem núcleo e enredo interessantes e necessários ao cenário social do Brasil no momento, são personagens cujas tramas são descartáveis perante a premissa.

Por outro lado, em qualquer versão que seja feita, fica complicado defender o roteiro. Quando chega a um ponto em que a maioria dos personagens parece falar como um professor de ensino fundamental, algo está errado. Nem as atuais novelas entregam diálogos didáticos e mecânicos nesse nível. Talvez isso passe despercebido por um ou outro espectador recorrente da Globo e talvez seja muita exigência da minha parte, mas não posso negar que esse foi um dos pontos que mais me incomodou durante toda a exibição.
Falando em incômodo, é preciso tocar no ponto de que o elenco erra a mão na hora de trabalhar o sotaque local (ambientado em Pernambuco), chegando a dificultar a compreensão de algumas falas. Mas, em meio ás 2h40 de filme, felizmente o sotaque forçado consegue não chamar tanto a atenção em alguns momentos.
O elenco consegue fazer um trabalho decente. Nanda Costa desempenha bem seu papel de menina rebelde e que segue o caminho mais duro, claramente sendo o destaque da produção. Marjorie, por outro lado, segue fazendo seu feijão com arroz sem comprometer o longa, mas também sem conseguir agregar algo mais empático a sua personagem.
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A trama não poderia seguir cartilha mais batida do que a de garotas do sertão em busca de liberdade, em suas diferentes formas. Mesmo assim, não deixa de ser um enredo bonito e que emplaca momentos tocantes, feito muito beneficiado pelo trabalho realizado na trilha sonora, ao criar paralelos com a história das duas irmãs. Além disso, impossível ignorar como é louvável ter, no cinema, um longa protagonizado por duas mulheres e que desenvolve de forma sensível o empoderamento destas.
É conflituoso perceber que o que torna Entre Irmãs diferente de todos os filmes regionalistas que retratam o sertão são suas tramas secundárias, mas que são estas, também, que desviam o longa de um desenvolvimento mais coeso e menos enfadonho. Não poderia ser mais claro que a produção foi feita para o público habituado a enredos novelescos e, ainda assim, para estes espectadores seria mais viável aguardar a provável transmissão televisiva. Dessa forma, entretanto, resta admitir que Entre Irmãs não funciona como filme.




















