Numa sociedade de indústrias, tudo é ou vira indústria. O sobrenatural assim se firmou através da religião ou do comércio do medo e do espiritual nas mais diversas áreas. Se os demônios caminhassem sobre a terra de uma maneira mais concreta, não só capturados por vídeos inconclusivos ou em nossas mentes, haveria um comércio para isso. Se pudessem ser capturados para se tornarem parte do cotidiano humano, assim aconteceria. Dessa forma, fariam parte do grande conjunto de coisas que são postas a serviço do homem, mesmo que dele não saibam. Esse mundo de comercializar essas criaturas e as lições que podemos tirar de nossa interação com isso não precisa mais ficar no nosso imaginativo: há uma série mexicana da Netflix abordando o assunto.
Diablero estreou em dezembro de 2018 na plataforma de streaming. Baseada no livro do autor mexicano Francisco Haghenbeck, El Diablo me obligó, a série teve oito episódios de quarenta minutos em sua primeira temporada. Acompanhamos a jornada de um “diablero”, homem que tem a capacidade de lidar com demônios — expulsá-los, evocá-los ou prendê-los. Entendemos, logo no primeiro momento, que há todo tipo de profissional dentro dessa área, assim como qualquer outra. O que acompanhamos, Elvis (Horacio García Rojas), é um diablero que deve uma cota de serviços para um traficante de demônios. Para saldar sua dívida, Elvis caça por aí, prende-os e repassa.

É um verdadeiro comércio, que não inclui apenas esses compradores e vendedores, mas pessoas que trabalham com o oculto de alguma forma, como a loja que ele frequenta para avaliar o nível dos capturados. Isso porque os mais comuns são nível 1, mas eles não são os únicos a rondar os humanos e se apoderar de seus corpos. Mais raros, mas não inexistentes, temos demônios mais poderosos e que exigem um trabalho mais complexo para enfrentá-los. Como dinheiro é o que esse diablero decadente precisa, ele não deixa passar a oportunidade de ajudar um padre que precisa achar uma criança perdida. O que começa como uma missão com fins lucrativos, no entanto, transforma-se em uma divertida aventura que vai unir essas personagens e torná-las suficientemente fortes para confrontar seus dramas pessoais ou o mal que os ameaça coletivamente.
Diablero tem um horror voltado para o épico, para a grandiosidade da coisa. Não é uma série sobre o demônio que assola uma família, prende-se em uma casa e transforma esta no cenário para exercitar seu controle sobre os outros. Não temos esse plano doméstico, comedido. A série vai para o maior, fala sobre um mal voltado ao mundo como um todo, que ameaça a vida como nós a conhecemos e que precisa, por isso, de heróis para deter tal façanha — mesmo que os heróis aqui nunca tenham características típicas dessas figuras. Isso porque o grupo apresentado é composto por humanos desajeitados, falhos, que não necessariamente nos dariam lições morais sobre comportamento. Para o roteiro, a escolha de um grupo que se constitui assim ajuda a série a não perder seu tom; ela não fica séria demais e não ameaça exagerar uma história que já traz exagero em si.

O submundo apresentado pela produção é bem crível. Temos diversos cenários que não se provam coerentes apenas visualmente, mas com o enredo desenvolvido. A repetição de alguns locais acaba nos fazendo criar uma memória de telespectadores que vincula lugares e atmosferas, como livros costumam fazer.
Além de Elvis, temos o citado padre, Ramiro Ventura (Christopher von Uckermann, o Diego de Rebelde). Este tem um passado atribulado, que volta para cutucá-lo — uma vez que sua relação com a menina desaparecida é consequência de algo que ficara para trás. Uma boa dupla para a coragem e a expertise do diablero, Ramiro tem uma boa jornada dentro da trama, variando sua visão sobre fé e descrença, certo e errado e as morais aplicadas a esse universo que descobre. É o ator mais limitado do elenco, mas não é uma série sobre atores, e sim sobre personagens, então isso não chega a atrapalhar nossa experiência.

Keta (Fátima Molina) é a irmã de Elvis. Nos primeiros episódios, somos enganados por um erro comum em diversas produções, mas aqui evitado. Ela parece coadjuvar diante do grande talento do irmão para lidar com o sobrenatural. Isso só acontece porque, dentro da cultura em que foram criados, já que as noções espirituais foram ensinadas pelo pai, não há diableras. As mulheres, como em outras culturas e produções relacionadas ao sobrenatural, não têm a chance de lutar contra o mal cara a cara — são os homens, os padres, os exorcistas, que geralmente fazem isso. O roteiro, no entanto, surpreende-nos ao mostrar uma personagem com camadas: Keta tem uma perseverança e um otimismo misturados com um ressentimento e certa inveja. Mas não só isso, ela também sabe manipular o mal a seu favor, e um dos momentos mais tensos e interessantes é quando ela precisa enfrentar, sozinha, uma ameaça.
Nancy (Giselle Kuri) fecha esse grupo da melhor maneira possível. Disparada a melhor personagem e talvez atriz do elenco, temos aquela que vai conquistar muitos fãs por aí. Nancy tem um passado turbulento no que diz respeito à família, ao ponto de oferecer seu corpo aos demônios para que eles a defendessem das garras do pai. Ela é ajudada por Elvis, tornando-se amigos. A partir da parceria, vemos duas pessoas atormentadas, mas que nos dão grandes lições de amizade, assim como a jovem nos dá grandes lições sobre controle e lealdade.

Além do grupo principal, acompanhamos a garota sequestrada e tudo o que ela faz para tentar escapar. Quando a série decide tê-la como foco, não vemos uma linguagem infantil para abordar sua visão de mundo. Mariana (Cassandra Iturralde) precisa amadurecer muito rápido e perceber o perigo mesmo quando este está camuflado de ajuda. Sua jornada é angustiante, mas vibrante. Mama Chabela (Dolores Heredia) é outro grande acerto, pois nos oferece uma antagonista que subverte nossas expectativas e não se importa em cruzar o limite do sagrado para conseguir aquilo que quer.
Vale mencionar que há muito humor dentro de todo horror apresentado. Não é um humor desajeitado, que quebra a atmosfera da história ao aparecer repentinamente, como ocorre em diversas produções do gênero. Ao contrário, é um humor integrado à forma de apresentar este horror ao público, mostrando, talvez, que, mesmo dentro dessas dificuldades, é preciso encontrar uma forma de não perder a sanidade.

Não será difícil achar quem diga que se sentiu parte desse grupo de adultos desajustados lutando com forças maiores do que si. A série possui jornadas individuais para cada um e as desenvolve de modo que não terminamos com as mesmas pessoas que começamos: elas aprendem, desenvolvem-se, fortalecem-se. Esse aprendizado se dá em nossa frente, mas também é visível aos companheiros. São fortes separados, mas também são juntos. Nancy consegue derrubar homens gigantes possuídos, mas precisa dos conselhos de Elvis. Este pode ter muito conhecimento para passar, mas precisa da intuição da irmã. Esta, por sua vez, pode contar com todos os outros para chegar a seu grande objetivo.
Desde episódios envolvendo lutas de ringue, passando por um covil de bruxas ancestral, esbarrando em demônios que valem mais ou menos, Diablero completa sua primeira temporada com muita energia. Há quem se apegue à simpatia das personagens e mal veja o sangue, a violência ou as crianças possuídas. É possível, uma vez que tanto esforço foi feito para que os atores tenham química entre si e as personagens tenham alguma ligação com o público. É uma série divertida, baseada em uma tradição que pode não ser verídica, mas assim parece. Não é melodramática. Tem seus exageros muito bem pensados; todos a favor de si.
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Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.















