Algo que fazemos com frequência é transitar pelas mídias levando costumes antigos. Baixamos o novo app da moda e logo o preenchemos com as mesmas piadas do app antigo, ajustadas aqui e ali ao formato introduzido. Vamos da literatura para o cinema repetindo vícios, expectativas e hábitos. Isso explica por que a invenção e propagação da internet não nos reinventou totalmente. Um dos hábitos trazidos e ainda divulgado com muita gana é o de discutir teorias sobre mistérios envolvendo bastidores. A ideia de obscuros fóruns da internet espalhando desinformação de um modo quase cruel parece distante demais até lembrarmos que a tão falada “maldição de Glee” esteve entre os assuntos mais comentados há alguns meses. Ainda somos os mesmos e criamos lendas urbanas como nossos pais.

Discutindo a permanência de tais teorias na cultura popular, Cursed Films estreou em abril deste ano. A curta série documental foi exibida no canal Shudder, serviço de streaming da AMC especializado em conteúdo de horror e que tem nos dado interessante material original. A premissa é bem simples: cinco filmes são analisados. Não quaisquer filmes, mas aqueles cujos bastidores têm uma história de “maldição” tão conhecida que qualquer fã de horror que acompanha este tipo de conteúdo saberia te dar os acontecimentos e as datas. Em trinta minutos, vemos diversas entrevistas conduzidas pela equipe com a missão de colher o maior número de versões e ângulos da mesma história. Temos atores que trabalharam nos filmes, produtores e equipes relacionadas, mas também contamos com pessoas que lidam com o sobrenatural em sua vida, seja padres ou feiticeiros.

Cursed Films.

A série dirigida, editada e escrita por Jay Cheel não tem apenas a missão de apresentar a conhecida maldição aos telespectadores. Isso tornaria o material fraco, uma vez que o próprio YouTube oferece dezenas de canais (muito bem narrados e editados) que se dedicam a falar sobre esses acontecimentos. Os fatos trazidos chegam a ser quase superficiais em alguns episódios, quase como se a série soubesse que os nerds de horror tivessem aquele conteúdo decorado. Assim, a apresentação serve para introduzir as histórias a novos curiosos, nunca os mergulhando profundo demais nos fatos. Episódios inteiramente dedicados a detalhes e mais detalhes pareceriam apenas datados. No lugar disso, temos uma série que, após apresentar por que tal produção é considerada amaldiçoada, decide colocar a maldição em questionamento.

Como falado em um dos episódios, conversas a respeito de bastidores amaldiçoados tendem a esquecer que há vidas por trás das tragédias relacionadas aos casos e pessoas, familiares, profissionais e fãs, que sofrem até hoje com o ocorrido. Cursed Films não é cética, contudo. O que faz é não ficar na superfície da tal maldição e apenas colocar uma trilha assustadora para acompanhar os depoimentos dos envolvidos. Aprofundando-se na discussão, ganhamos uma conversa que fala sobre o próprio horror em si, por que ele existe e a atmosfera ao redor de tal gênero, algo que o diferencia totalmente dos outros. Fala-se também sobre crença e por que alguém se daria ao trabalho de criar tais boatos ou quais sensibilidades deixam uma pessoa a ponto de crê-los.

Cursed Films.

A série pode parecer apressada em muitos momentos, uma vez que condensa tantos focos em um único episódio. Se pensada como uma apresentação do tema, contudo, ela cumpre seu papel de ir de uma desculpa para se pensar na crença coletiva ao debate sobre como esta crença é formada e por qual razão. Com a possibilidade de acessarmos bancos de dados tão rapidamente graças à internet, é uma série que entende seu tempo, o ano em que está inserida. Há material suficiente para nos deixar tristes e assombrados.

Abrimos a temporada com The Exorcist (William Friedkin). Não havia melhor maneira de iniciarmos, já que este ainda é um dos filmes que domina rodas de conversas sobre o tema, e alguém sempre conhece alguém que teve experiências “estranhas” quando tentou assistir ao longa. Aqui temos Linda Blair fazendo uma intrigante participação enquanto o documentário discute o inferno que tornou sua vida porque as pessoas acreditavam que a garota era amaldiçoada.

Cursed Films.

Em seguida, The Omen (Richard Donner) entra em foco. A discussão sobre este filme parece continuar a anterior, pois ambos são filmes que lidam com temas cristãos em seu enredo e que, por esse motivo, teriam trazido uma maldição para si. Temos coincidências analisadas, e um debate sobre a noção de “maldição” ser enganosa se pensarmos o grande sucesso que se tornou o filme. No terceiro episódio, Poltergeist (Tobe Hooper), como não poderia faltar, tristemente famoso pela morte da atriz Heather O’Rourke, vítima de negligência médica. Quando alcançamos o episódio, temos uma interessante discussão sobre mídia e sobre nossa contribuição para a popularização de tais narrativas urbanas.

Os dois últimos episódios são especialmente tristes, e por motivos que fogem a aura de maldição dos anteriores. No quarto, falamos sobre The Crow (Alex Proyas), cultuado filme adaptado de histórias em quadrinho. O foco do episódio, como é de se imaginar, é a trágica morte do ator Brandon Lee vítima de um acidente no set que quase entregou à mídia uma “maldição” que ela estava há muito esperando para relatar. Conhecemos a história do ator e sua família, ouvimos profissionais que trabalharam diretamente com ele e vemos o acidente sendo explicado de forma detalhada.

Cursed Films.

Fechando a temporada, temos Twilight Zone: The Movie (John Landis, Steven Spielberg, Joe Dante e George Miller). Revoltante e absurda, a história desses bastidores é possivelmente aquela que mais vai mexer contigo. Isso porque, conforme vamos assistindo, percebemos que não há nada de sobrenatural na história: o que há é um conjunto de fatores infelizes que levaram à morte de três pessoas na queda de um helicóptero. Vale deixar avisado que a queda é mostrada no episódio. Por mais que não haja nada explícito na cena, não deixa de ser aterrorizante.

Estamos em boa época não só das séries em geral, mas do próprio horror. Na internet, o gênero ganhou novo fôlego e vai se adaptando aos nossos novos hábitos — e mesmos medos. Cursed Films vem para celebrar ambos, sendo uma boa série para maratonar e uma boa homenagem ao gênero do horror e os mistérios nele contido que jamais decifraremos.

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Este post faz parte do quinto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-cursed-films-apresenta-e-discute-a-existencia-de-filmes-amaldicoadosCursed Films é uma boa série para maratonar e uma boa homenagem ao gênero do horror.