Stephen King é um dos escritores mais prolíficos da atualidade. A invejável contagem de obras publicadas, no entanto, tem altos e baixos. Alguns livros são obras primas do suspense e terror, enquanto outros são totalmente esquecíveis. A mesma coisa acontece com suas adaptações para o cinema e a televisão. Enquanto obras como “O Iluminado” (que por ironia King não gosta) são verdadeiros exemplos de brilhantismo no gênero, outras como o “O Apanhador de Sonhos” são praticamente uma cartilha do que não se fazer. “Cemitério Maldito” (Pet Sematary, 2019) é um dos exemplos que ficam no meio do caminho. Em comparação ao filme de 1989, atualiza a roupagem visual, mas narrativamente, mesmo com algumas mudanças interessantes, não consegue inovar além do esperado de uma obra do autor.

Louis Creed (Jason Clarke) é um médico que troca a vida estressante de Boston pela pacata Ludlow, no Maine. Junto com a esposa Rachel (Amy Seimetz) e os filhos Ellie (Jeté Laurence) e Gage (Hugo e Lucas Lavoie), ele se muda para a beira da floresta, onde mais tarde eles descobrem um misterioso cemitério de animais escondido próximo de sua casa.

A dupla de diretores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer dão uma nova cara a história que já tinha sido adaptada anteriormente. Com a ajuda da evolução dos efeitos práticos e CGI, muito do gore e das cenas violentas chegam a ser nauseantemente realistas com uma maquiagem que borra o limite da dicotomia realidade/ficção em alguns momentos. A fotografia também ganha contornos mais sombrios, mergulhando os ambientes em sombras e contraluzes, utilizando mais a sugestão de clima claustrofóbico do que “jump scares” para causar medo na audiência. A trilha sonora vai na contramão as vezes, mas Christopher Young inova em algumas faixas, usando respirações, tambores e riscos de metais para criar ainda mais camadas de estranheza inerentes a história.

Narrativamente o filme segue o “template” básico de grande parte das obras de King, mas roteiro o de Jeff Buhler inclui algumas mudanças significativas em relação ao livro, que a dialogam melhor com o público atual e dão uma sensação de novidade a história. Isso acaba jogando com as expectativas daqueles que viram a versão passada, mudando alguns pontos principais da trama. O grande cerne do filme é a construção da loucura que vai lentamente tomando a família assim que os elementos sobrenaturais entram em cena, usando traumas do passado e do presente no processo.

O roteiro também brinca em fazer pequenas ligações com outras obras do universo criado por King, sejam em replicação de cenas (o começo do filme lembra bastante o travelling de “O Iluminado”), elementos visuais (a placa de Derry, cidade de “IT – a Coisa”) ou falados (uma transmissão de rádio que fala sobre um cachorro que atacou diversas pessoas numa cidade vizinha, como em “Cujo”).

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As atuações do elenco principal são competentes (principalmente Clarke e Laurence) e nomes como John Lithgow dão ainda mais estofo para os twists da trama terem credibilidade. Todavia, o filme não consegue se desfazer da sensação de ser mediano. É uma obra que atualiza o livro base e usa de coragem para construir um clímax inesperado, mas tudo isso não é capaz de dar mais importância a essa adaptação, que acaba ficando com cara de remake. O público é que dirá se o filme merece ressuscitar dos mortos ou ficar eternamente enterrado no mar de produções saídas das obras do autor.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Paramount Pictures Brasil 

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.