Oito amigos decidem viajar até o norte da Suécia, próximo à Noruega. Eles se hospedam em uma estação de ski fechada há mais de vinte anos, sem nunca ter sido oficialmente aberta. O objetivo de um deles, e por isso a reunião e empolgação geral, é abrir o estabelecimento e lucrar com as pessoas ricas que por ali passem. Conforme o tempo passa, entretanto, alguns detalhes vão sendo descobertos por eles, como o fato de que uma família fora assassinada ali no passado. Isso é o suficiente para alertá-los sobre a possibilidade de o lugar ter mais segredos do que gostariam. Parece não ter importância no primeiro momento, mas estar tão longe da polícia e de um hospital é uma realidade que coloca suas vidas em risco.

Entre as pessoas, temos Hanne (Sarah-Sofie Boussnina), que ainda sofre por conta da morte do irmão, e sua irmã Mette (Mathilde Norholt), companheira essencial para ajudá-la em sua fragilidade emocional. As irmãs são as grandes protagonistas por aqui, principalmente Hanne, que divide muito tempo em tela com Johan (Filip Berg), o garoto rico responsável por adquirir a central em que estão. Junto aos amigos e parentes, temos a quase desconhecida Jessan (Aliette Opheim), a impulsiva e misteriosa nova namorada de um amigo do grupo. Honestamente, o resto não vale muito destacar, e logo mais explico por quê.

Black Lake
Black Lake

Como faz parte do gênero de horror e mistério, a série chega quase como a promessa de algo novo, mas dá para fazer diversas associações com filmes durante a experiência de assisti-la. A maior referência que eu tenho com o que me apresenta a sinopse é o filme norueguês Fritt Vilt (Presos no Gelo por aqui, de 2006) do diretor  Roar Uthaug e que sempre aparece como bom candidato quando me proponho a elencar os meus filmes de horror favoritos — divertido, sabe criar bons momentos de tensão. Dá para citar The Thing (O Enigma de Outro Mundo, de 1982) por conta do isolamento, de algumas condições parecidas e de algumas regras que o roteiro estabelece.

Nesse contexto e com essa bagagem, Svartsjön estreou na Suécia e na Dinamarca em outubro de 2016 na TV3 e fez uma temporada de oito episódios, até dezembro do mesmo ano. Os episódios têm pouco mais de quarenta minutos. A BBC Four adquiriu e transmitiu a série em 2017, tornando possível a apresentação da série aos falantes da língua inglesa. O ator e escritor Ulf Kvensler é responsável por criar a série. Sua experiência inclui trabalhos com comédia e drama, não com horror, e isso fica bem visível durante a temporada.

Entre os principais problemas de Black Lake (título dado pela BBC Four), está a dificuldade do roteiro em se perceber como série. Sabe aquele filme que pensamos que ficaria perfeito como série? A sensação aqui é parecida. Se um editor muito inspirado e um roteirista engajado pegassem o material aqui disponível, possivelmente o transformaria em uma minissérie. Ou melhor, daria um filme razoavelmente divertido.

Black Lake
Black Lake

Como o projeto foi para a tevê, fica complicado não reparar em diversos pontos que poderiam ter sido melhor aproveitados. Um bom exemplo é que, assim como em muitos filmes sobre jovens, a série se isola demais em sua protagonista e na jornada que ela faz através dos mistérios do lugar. O restante do elenco se torna quase um conjunto de itens descartáveis, que aparece para socorrê-la quando ela é perseguida. Se já é algo complicado em filme, é imperdoável na televisão, com tanto tempo disponível.

Black Lake nunca se entrega de fato aos jogos ou regras que propõe. Talvez por medo de fazer referências diretas demais, o roteiro brinca com algumas coisas que não ganham profundidade como deveriam. Entre elas, temos a ideia de possessão que pode acontecer com qualquer um deles (e que lembra o filme The Thing), mas que vai sendo renegada em nome da história por trás do lugar, que leva oito episódios para ser explicada e, além de não fazer sentido, não é interessante. Quando há o “momento da explicação”, é desanimador constatar que o nível de entrega da personagem principal aos mistérios da estação não condiz com as descobertas.

Em outro momento, o texto estabelece que há um desafio geral para os presentes e que é fatal que sigam aquilo. Prendê-los e obrigá-los a enfrentar os próprios instintos de sobrevivência seria uma opção, mas, novamente, temos que acompanhar as jornadas de Hanne ou suas brigas com o namorado. Enfraquece a história, ainda, perceber que em diversos momentos as personagens estão ali porque querem, mesmo quando tanta coisa ocorre — e isso se refere mais à protagonista que aos demais. Uma vez que ela decide deixar o local, é impedida (no obstáculo mais previsível da série) por conta de algo que não ocorrera em momento algum até então.

Black Lake
Black Lake

A personagem de Aliette Opheim, que propõe muita coisa e protagoniza momentos empolgantes, é mal utilizada, assim como o restante. Há dois irmãos que circulam o lugar e tentam provocar os hóspedes, mas nada muito efetivo — e a revelação do porquê fazerem isso também é decepcionante. Erkki (Nils Ole Oftebro), responsável por cuidar da casa, faz coro aos irmãos e não empolga, por mais que sua personagem seja essencial ao desfecho.

O primeiro episódio é interessante, o segundo nos deixa preocupados (não num bom sentido) e o terceiro é bom. Depois disso, é investir se tiver tempo e vale mais para treinar o seu inglês e descobrir como fala “obrigado” em outras línguas do que como história. Os atores estão bem, mesmo quando suas personagens não ajudam.

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Svartsjön é mais empolgante na proposta e no significado do que na execução. Digo, é mais interessante ver séries estrangeiras produzindo conteúdo voltado ao terror do que lhes assistir, talvez pela ingenuidade e inexperiência do escritor, que acaba cumprindo alguns quesitos ditos (ao que parece) essenciais às produções do gênero — desde a protagoniza desacreditada à investigação feita por ela para desvendar as maldições dali, mesmo que não faça sentido que ela prossiga com aquilo quando sua vida está em risco.

Black Lake
Black Lake

A série, portanto, parece um filme de 320 minutos sobre algo que dá para se resumir em uma hora e pouco. Lembra-nos daqueles filmes ruinzinhos, com finais ruinzinhos e que a gente assiste por teimosia. A frustração maior não é por ser terrível, porque não é: há elementos que funcionam, episódios consideravelmente bons e momentos interessantes. A frustração maior é perceber que é um filme vestindo uma roupa de série, bonita, bem produzida, com uma fotografia bacana, mas que não lhe cabe e não faz sentido em seu corpo.

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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2016 e setembro de 2017.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-black-lake-parece-filme-longoBlack Lake nunca se entrega de fato aos jogos ou regras que propõe. Talvez por medo de fazer referências diretas demais, o roteiro brinca com algumas coisas que não ganham profundidade como deveriam.