Nós ainda nos dividimos nesse papo de influência. Talvez uma questão herdada das discussões com os pais na adolescência, boa parte de nós argumenta sobre a liberdade de expressão do indivíduo e como suas escolhas como pessoa não são influenciadas por aqueles com quem anda. Outros vão dizer que, assim como a sociedade corrompe o homem, o grupo com o qual se convive pode mexer no comportamento de todos aqueles que lhe compõem. É nessa segunda visão que o comportamento de Maja foi explicado. Assim que começa a andar com o namorado e os amigos ricos dele, ela deixa de ser aquela garota que a escola conhecia para se tornar uma jovem arrogante, isolada nas possibilidades do dinheiro do amado. Ou assim ela é descrita. De uma forma ou de outra, a garota acaba no centro de uma investigação criminal que desconstruirá sua vida para descobrir sua participação na trágica morte dos próprios amigos.

Areia Movediça (Störst av allt no original) é uma série sueca criminal produzida pela Netflix e que estrou em abril deste ano. Em seis episódios de pouco mais de quarenta minutos cada, a produção foi baseada no premiado romance homônimo da autora Marlin Persson Giolito. Na história não linear, acompanhamos uma jovem ser resgatada de um tiroteio em uma escola. Suja de sangue e, aparentemente, a única sobrevivente, não demora muito para que provas sejam levantadas sobre a participação de Maja nesse evento. Culpada aos olhos do público desde o primeiro momento, até porque ela não faz esforço nenhum de negar o que fez, é perceptível que as provas se misturam com a opinião já formada das pessoas, algo que contamina seus testemunhos.

Hanna Ardéhn and Felix Sandman in Quicksand (2019)
Areia Movediça.

O foco principal aqui é o julgamento e o papel de Maja Norberg (Hanna Ardéhn) na morte dos amigos. Por que, junto com seu namorado, ela carregou duas bolsas com armas e explosivos para dentro da escola e se trancou em sua sala de aula antes de abrir disparos? A narrativa volta no tempo e mostra como os dois se aproximaram, os primeiros encontros e como a família de cada um se portava durante este namoro. Sebastian Fagerman (Felix Sandman) é o típico menino rico negligenciado pelo pai. Solitário, mesmo tendo grana para encher a casa de amigos nas festas mais faladas da escola, é só no relacionamento com Maja que ele parece encontrar alguma paz. Pelo menos nos primeiros meses.

Para as pessoas que preferem o mistério que se constrói com agilidade e carisma, talvez Areia não seja a série certa. Isso porque, para começar, a grande revelação sobre o que a protagonista teria ou não feito dentro da sala de aula só se dá na última cena. Ou seja, você vai precisar passar por mais de quatro horas para ter uma resposta. Até lá, o caminho construído pode ou não te encantar. Isso porque toda a série é carregada pelo casal principal, e eles não têm carisma nenhum para nos prender à história. Além de mimados e egoístas, isolados em uma bolha que lida com questões que à maior parte dos telespectadores é irrelevante, não temos as pequenas coisas que nos fazem torcer por alguém. Não são inteligentes, não são caridosos e sequer sabemos por que estão juntos.

David Dencik and Hanna Ardéhn in Quicksand (2019)
Areia Movediça.

É como se a própria série estivesse te convencendo da inutilidade de se torcer por eles — principalmente por Maja que, presa e sem ver a família até o julgamento, talvez mereça tudo isso. Ainda assim, dentro dessa dúvida de seu envolvimento no frio assassinato até da melhor amiga, temos outras personagens secundárias oferecendo-lhe amparo em momentos de crise, luto e saudades repentinas. Maja parece, por muito tempo, uma pessoa que fez algo ruim e está arrependida, sendo o julgamento que toma os seis episódios o começo de sua penitência. Quando vamos ao seu passado, temos pouco para nos apegar. Ao fim dos dois primeiros episódios, é como se estivéssemos vendo mais do que é justificável mostrar para entendermos o presente.

É aí que entra o grande trunfo de Areia Movediça. Não mais sobre o grande mistério de ter ou não feito — afinal, ela fez —, fazemos um estudo de causa. Conhecemos as consequências, mas qual estado de espírito levou as coisas àquele ponto? Então, olhando mais atentamente, Areia se torna uma série sobre paixão, manipulação e relacionamentos abusivos. Temos diversos estágios do relacionamento dos protagonistas, num jogo de petulância e violência que começa divertido, mas acaba aprisionando a garota na mente doentia de seu namorado. Maja se torna quase uma figura materna para esse jovem que a prende, insulta-a e a usa de maneira tão aberta. Seu futuro, seu relacionamento com os pais e os amigos e sua saúde mental vão sendo afetados por uma situação da qual não consegue sair.

Quicksand (2019)
Areia Movediça.

Caso termine com ele, será responsável por tudo o que acontecer? Através dessa pergunta que a trama vai caminhando. Assim, vale destacar que a temática nunca deixa de fazer referência ao dito papel da mulher, mesmo tão jovem, dentro de uma relação. Maja está à sombra de Sebastian mesmo durante o julgamento, quando ele está morto, e ela, só. A opinião pública é referida no último episódio, mas não posso não deixar de sublinhar que isso aparece pouco — a visão da mídia sobre a protagonista.

Areia tem um conjunto de personagens apáticas com as quais sequer nos importamos a ponto de sentirmos sua perda. Quando a melancolia nos alcança, é por maneiras indiretas, pela piedade de ver alguém em tal situação. Ao fim do julgamento, por exemplo, os flashbacks que recontam os últimos momentos do relacionamento de Maja e Sebastian são tão sufocantes que eu me assustaria se alguém não sentisse empatia pela protagonista e seu estado de entorpecimento. Percebemos que, assim como em The Sinner (USA Network), o que conta aqui não é o mistério. Este é fraco, provavelmente não vai sustentar seu interesse. O que vai te prender é a esperança de que essa garota consiga sair ilesa de um namoro que lhe proporcionou não só viagens e acesso ao luxo, mas o piores momentos de sua vida. É um jogo inteligente sobre conclusões precipitadas, jogado entre o roteiro e o público, numa direção que recobra muito de nosso fôlego, mas que parece consciente de aonde quer chegar. E chega.

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Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-areia-movedica-vai-de-misterio-apatico-a-poderoso-drama[Areia Movediça] É um jogo inteligente sobre conclusões precipitadas, jogado entre o roteiro e o público, numa direção que recobra muito de nosso fôlego, mas que parece consciente de aonde quer chegar.