Geralmente somos compelidos a querer voltar no tempo por cultivarmos internamente o pensamento romântico de que somos capazes de arrumar aquilo que consideramos passível de mudanças, ou seja, gostaríamos de voltar no tempo para arrumarmos a nossa própria bagunça do passado. Alguns filmes da cultura pop, a exemplo do clássico imortalizado De volta para o Futuro (Robert Zemeckis, 1985), do icônico Efeito Borboleta (Eric Bress e J. Mackye Gruber, 2004) e do mais recente Interestelar (Christopher Nolan, 2014), ajudaram a difundir a ideia de que a viagem no tempo não só é possível como é viável. Já séries como The Flash, Travelers e Legend of Tomorrow, difundiram o tema sobre viagem no tempo como uma forma de ajustar as pontas soltas da história passada ou mesmo antever e corrigir situações conflitantes no futuro. Mas será que realmente somos capazes de mudar a nossa história ou das pessoas que nos são caras através da artificio da viagem no tempo? Aliás, se pudéssemos realmente viajar no tempo o que mudaríamos? Qual critério nós usaríamos para decidir qual fato seria mais relevante e digno de uma mudança na nossa história passada? Aliás, o que nos motivaria a empreender uma viagem no tempo?

A estudante inteligentíssima CJ, cria, em parceria com seu amigo Sebastian, duas máquinas de viagem no tempo, contudo, na primeira incursão ao passado a situação foge ao controle e a reação em cascata, o chamado efeito borboleta, acaba gerando a morte de Calvin, irmão de CJ. Desesperados para reverter esse acontecimento, CJ e Sebastian começam a empreender outras viagens ao passado, todavia, enquanto eles usam as duas máquinas para tentar alterar o dia em que o irmão de CJ morreu, eles acabam confirmando a regra de ouro sobre viagens no tempo: todas as ações geram consequências. Bem, essa é a premissa básica do filme de ficção cientifica A Gente se vê Ontem, da Netflix, produzido pelo ativista e diretor Spike Lee, dirigido por Stefon Bristol, protagonizado por Eden Duncan-Smith interpretando a jovem Claudette ‘CJ’ Walker; Dante Crichlow como o prodígio juvenil Sebastian J. Thomas; o rapper Astro como Calvin Walker, irmão de CJ e Johnathan Nieves interpretando Eduardo, amigo gênio de CJ. A trama ainda conta com a participação especial do icônico Michael J. Fox, interpretando Mr. Lockhart.
Já vimos de diversas formas o desastre que a reescrita temporal pode ocasionar caso não respeitemos alguns princípios básicos, tais como, o você do futuro não deve se encontrar jamais com o você do passado sob risco de acontecer o que se convencionou chamar de Paradoxo da Acumulação. Imagine hipoteticamente que alguém volte a um determinado ponto do passado onde, originalmente, ele esteve. Essa pessoa encontraria seu duplo, sua cópia ou o seu original? Caso essa pessoa voltasse a esse ponto da história outras vezes, veria várias cópias suas espalhadas pelos diversos pontos de convergência? Uma cópia iria subscrever a outra? Ah, tem também o Paradoxo das Linhas de Tempo Alternativas. Segundo esse paradoxo, o passado não pode ser modificado, e qualquer tentativa de mudá-lo causará a criação de uma linha de tempo alternativa, de existência paralela à linha de tempo original a partir do ponto de mudança. É claro que esse paradoxo sempre foi ignorado lindamente pelas construções cinematográficas e televisivas.

Em seus momentos iniciais o filme nos introduz ao seu próprio conceito de deslocamento temporal através da Mochila de Deslocamento Temporal (MDT), engenhoca cientifica construída pelos brilhantes estudantes CJ e Sebastian, após uma série de explicações sobre a viagem temporal através do deslocamento temporal pelo buraco de minhoca com a consequente reconstrução molecular do viajante, A Gente Se Vê Ontem esclarece que na sua narrativa só é possível retroceder para apenas um dia atrás, ou seja, a viagem temporal não só tem limite, como esse limite é bem exíguo. Mesmo que quisessem, CJ e Sebastian não poderiam viajar para um passado remoto, as suas MDT’s não suportariam o desgaste energético do deslocamento. A primeira tentativa de viagem temporal foi totalmente frustrada, contudo, serviu de combustível para que a dupla elaborasse melhor o seu projeto científico e a tornasse viável em um curto espaço de tempo. A parte mais didática do filme não é cansativa, muito pelo contrário, as explicações são dadas, na maioria das vezes, pela protagonista ou pelo seu parceiro de projeto, torando tudo muito dinâmico e até divertido em alguns momentos.

É em uma das salas de aula do Colégio de Ciências do Bronx que somos presenteados pela carismática participação mais que especial de Michael J. Fox (saudoso Marty McFly do filme De Volta para o Futuro) interpretando Mr. Lockhart. O discurso dele sobre as questões éticas e filosóficas relacionadas às viagens no tempo é bem emblemático. Em uma certa altura do seu discurso ele faz as vezes de Doc Brown e lança duas importantes questões para CJ: o que você faria se tivesse esse poder? O que você mudaria? Claro que achei a participação dele exígua e subestimada. Gostaria que o tivessem aproveitado em outras cenas ou até que o tivessem envolvido na história das mochilas cientificas. Caso façam uma continuação desse filme, creio que ele seria uma ótima adição junta aos dois adolescentes na tentativa de solucionar esse imbróglio. Um outro personagem que achei pouco desenvolvido foi Eduardo, aparentemente tão inteligente quanto a dupla de protagonistas, contudo, com poucas aparições, apesar de demostrar interesse romântico pela protagonista.
É claro que por se tratar de um filme produzido por Spike Lee não poderíamos deixar de encontrar nele algum conteúdo sobre ativismo ou questões sociais envolvendo as minorias. Ambos os protagonistas são negros e Eduardo, a amigo nerd, é de origem latina (Porto Rico). Mais adiante, em um recorte, a produção deixa claro que há um conflito instalado entre a comunidade e as forças policiais por conta da morte de um jovem negro que gerou muita tensão dentro daquela comunidade, graças ao uso excessivo de força da polícia. Ou seja, o filme é bem contextualizado dentro do momento atual vivenciado por essas comunidades nos Estados Unidos.
Um outro personagem que entra em cena é Jared (Rayshawn Richardson) ex-namorado de CJ. Que de alguma forma é tão irritante e imaturo quanto a protagonista. O encontro entre CJ e Jared motivou uma briga não só entre os dois jovens como também envolveu Calvin, que ao tomar a defesa da irmã acabou se indispondo com Jared. Por incrível que pareça, foi esse encontro inusitado que motivou as ações futuras de CJ ao empreender a sua primeira viagem no tempo. Ao voltar ao local da briga que teve com Jared no dia anterior, apesar de ter concordado previamente que não faria nenhuma mudança na linha temporal que pudesse afetar o continuo espaço-tempo futuro, a garota arremessou um copo de raspadinha em Jared, coisa que ela não tinha feito no dia original em que se deu a briga. Esse pequeno fato foi suficiente para que uma sucessão de outros pequenos fatos acontecesse ocasionando a morte de Calvin. Gosto muito da relação de CJ e Calvin, que de alguma forma é a relação mais bem construída desse filme. Calvin não se importa com os defeitos de CJ, apesar de criticar duramente o seu temperamento explosivo, ele realmente se importa com ela. Calvin tenta suprir a ausência do pai, morto recentemente.

A divertida narrativa sobre viagem no tempo serve de pano de fundo para uma abordagem um pouco mais séria sobre brutalidade policial, estigmatização das comunidades afro americanas, afinal, o irmão de CJ é morto pela polícia ao ser ‘confundido’ com um criminoso que praticou um assalto em uma loja. O filme não é panfletário nesse aspecto, mas deixa claro que Calvin foi morto por ser um homem jovem afro-americano, portanto, suspeito até que se prove ao contrário. Após esse fato, Sebastian funciona como uma espécie de ancora moral para CJ, ele meio que é a voz da razão ao lembrá-la que ambos não criaram o deslocamento temporal para que a moça se vingasse do seu ex-namorado arremessando na cara dele um copo de raspadinha. É ele também que mais tarde lhe diz que não adianta empreender diversas viagens no tempo na tentativa de rescrever a linha temporal e salvar Calvin, porque cada tentativa apenas complica ainda mais a situação e ocasiona mais danos aos envolvidos. Mas é exatamente nesse ponto que as coisas se complicam, a estudante simplesmente não aceita o fato e decide-se por conta própria reescrever a história, mostrando toda a sua impulsividade e incoerência. Talvez o peso da dor a tenha motivado agir de uma forma tão irracional, porém, nas sequências seguintes vemos um desfile de atitudes irracionais e desmedidas por parte de CJ e voltamos para a questão proposta por Mr. Lockhart sobre o que faríamos se tivéssemos esse poder. Será que salvar Calvin é o suficiente para resolver a situação? Será que ao salvar Calvin novos problemas surgirão ou a história se acomodará por ela própria?
A resposta foi imediata. A retroceder no tempo e salvar Calvin a implacável justiça do contínuo espaço-tempo vitimou Sebastian. Uma vida por outra vida. A dicotomia filosófica da viagem no tempo é bem irônica. Agora, não bastava para CJ salvar Calvin, ela também teria que evitar que durante o processo de salvamento do irmão a vida de Sebastian não fosse perdida. E é nesse emaranhado de viagens e possibilidades que o filme finaliza, com CJ conseguindo trazer Sebastian de volta, contudo, não conseguindo manter Calvin vivo na sua linha temporal original, mas empreendendo uma nova viagem no tempo.

A Gente Se Vê Ontem não é nenhum primor cinematográfico, os efeitos são toscos e pouco orgânicos, a sua protagonista é irritantemente incapaz de aprender com os seus próprios erros, alguns personagens não são desenvolvidos como deveriam ser, a premissa não tenta nem de longe reinventar a roda em se tratando da temática viagem no tempo e o final é aberto, não há uma conclusão para os conflitos apresentados, contudo, a história é palatável e até agradável de acompanhar por retratar pessoas extremamente humanas e falíveis, como nós. O filme tem alguns pontos positivos que acabam nos fazendo aproveitar a experiência e nos interessar pela trama. Além da já falada participação especial de Michael J. Fox, o filme nos apresenta um elenco diversificado e representativo, dando destaque para uma garota adolescente e negra como protagonista; o filme foi escrito por Fredrica Bailey, dirigido por Stefon Bristol e produzido por Spike Lee, todos eles são negros, logo, possuem lugar de fala para explicitar os dramas intrínsecos a essa comunidade; o longa está diretamente alinhado com o movimento atual Black Lives Matter (vidas negras importam, na tradução), ao apontar a brutalidade policial como causa do extermínio de jovens negros naquele país. A Gente se Vê Ontem, também nos desenha uma CJ que sonha em adentrar em uma faculdade e se tronar uma grande cientista, mostrando que apesar da opressão e do preconceito, ainda é possível sonhar. O filme não é escapista ao retratar uma sociedade diversificada, ao usar uma trilha sonora simples, mas que dialoga diretamente com aquele recorte social, ao nos apresentar as bandeiras de outros países integrados a essa grande rede de imigrantes que busca por superação todos os dias nos Estados Unidos e ao nos dizer que é possível falar sobre temas socialmente relevantes e entreter ao mesmo tempo.















