
Criminal Minds e sua incrível capacidade de surpreender nos minutos finais.
Spoilers Abaixo:
“Família é um lugar onde as mentes entram em contanto entre si. Se essas mentes se amam, a casa será tão bonita quanto um jardim de flores. Mas se essas mentes saírem de harmonia, assemelha-se a uma tempestade que destrói o jardim.” Essa citação de Buda, dita no season premiere da conturbada sexta temporada, reflete totalmente o que se passou em All That Remains. No decorrer do episódio, Reid comentou que Bruce, Judy, Sera e Katie aparentavam ser uma família perfeita. O que realmente existia naquele ambiente era um modelo disfuncional muito parecido a um barril de pólvora e qualquer trisco seria capaz de provocar uma grave explosão.
Desde os instantes iniciais, ficou bem claro que o foco seria investigar Bruce Morrinson como um potencial suspeito. E, por isso motivo, era obvio que ele não seria o culpado. Tudo estava apontando para ele. O apagão entre a noite de segunda e a manhã de quarta, os arranhões, os relatos externos de discussões, a instabilidade proveniente da bebida e a traição da sua esposa eram apenas alguns exemplos de fatos que indicavam seu envolvimento. A convicção era tanta que o detetive não procurava por suspeitos, ele apenas queria provas que pudessem o incriminar de uma vez por todas. Bruce iria pela cadeia pelo desaparecimento e possíveis assassinatos de toda sua família.
À medida que o episódio fluía, elaborei muitas teorias para o que tinha realmente acontecido naquela noite de segunda-feira. O técnico do time – também amante de Judy e conselheiro de Sera – e o detetive convencido da culpa de Bruce foram cogitados por mim. Pensei até que quem estava por trás de tudo era a própria Judy, que desaparecera há um ano e voltara para buscar as filhas do seu perigoso marido. Quando a morte de Katie foi concretizada, essa ideia foi refutada: a mãe não mataria suas filhas. No interrogatório de Bruce, desenvolvi algo praticamente infalível. Ele fingia distúrbio de múltipla personalidade, mas era um psicopata terrível. A lição ensinada para aquelas meninas era somente um pretexto para o assassinato. Tudo estava resolvido…
A adolescente havia sido resgata e confrontado seu pai, tornando sua culpa ainda mais evidente. As motivações, é claro, ainda seriam reveladas. Havia, contudo, algo muito estranho: faltavam aproximadamente dez minutos para o fim. E nesse momento que chegamos a uma reviravolta fantástica e ao desfecho surpreendente. A encarregada em acompanhar a traumatizada Sera seria a agente especial Jennifer Jareau, mas seu comportamento estava muito estranho para uma pessoa que acabara de perder todos os membros de sua família. J.J observou isso rapidamente. Aquele diálogo extremamente calmo entra as duas induziu as minhas suspeitas a algo improvável. O esconderijo na propriedade do pai, o uso de sua irmã na denúncia, a criação de testemunhas confiáveis e os ferimentos eram indícios que apontavam a dois fatos: o envolvimento do pai e o plano excepcional.
Alguém já ouviu aquela expressão de que não existe essa coisa de crime perfeito? Sera falhou em algo muito comum para os psicopatas: a falta de empatia e a ausência de sentimentos. A percepção minuciosa dos detalhes corroborou a culpa. Um ponto incoerente do episódio tenha sido a apreensão de Sera. Ela havia confeccionado um esquema perfeito, mas foi facilmente enganada por acreditar nas palavras de Morgan. Como uma pessoa tão inteligente não percebeu que ele estava mentindo? Outro fato mal explicado foi a escolha da data, exatamente um ano depois do sumiço de Judy. Nos primeiros instantes, isso parecia crucial, mas foi ignorado com o passar do tempo.
O destaque do episódio atende ao nome da já citada J.J., cujo trabalho de profiler foi sensacional. A menção ao suicídio de sua irmã, plot unicamente explorado em Risky Business (5×13), foi muito valiosa. Tal lembrança permitiu comparações entre as famílias Morrinson e Jareau, fato este fundamental para a resolução do caso. “Eu não conseguia andar na minha casa depois da minha irmã ter morrido, muito menos passar pelo quarto dela.” Ela esteve brilhante também ao atiçar o confronto de Bruce e Jeff, sugerindo uma possível relação entre o técnico e Sera. Por ter visto o sofrimento de uma adolescente sem uma mãe, ela identificou-se ainda mais com o caso, pensando em seu adorável filho Henry. Entretanto, nem tudo são flores. Ela foi muito ingênua ao pensar que Sera estava realmente tomando banho e ter descido para o sótão. Ainda bem que, como sempre, os agentes chegaram na hora certa e impediram algo muito pior.
O foco de Criminal Minds nunca foi fazer um mistério de quem seria o verdadeiro culpado. Tal fato é marcante, visto que em muitas oportunidades somos apresentados ao rosto do unsub logo na primeira cena. O objetivo sempre esteve em uma cadeia de eventos que faz sentido ao final. Seu alvo é simplesmente a investigação e a análise das situações pelo comportamento. O suspense visto em All That Remains trouxe ótimos momentos, vide na primeira aparição de George Foyet, considerado por muitos como o melhor unsub de Criminal Minds até hoje. Esse recurso poderia ser explorado mais vezes para, assim, protagonizar mais excelentes episódios.
Na televisão americana, All That Remains garantiu certo destaque por ser dirigido por Thomas Gibson e escrito pela showrunner Erica Messer. Nosso querido Hotchner estava atrás das câmeras, e fiquei muito feliz com o que vi. Os flashbacks, apesar de longos, nunca se tornaram cansativos ou monótonos. Foram sabiamente utilizados em ambas as oportunidades, assim como a sequência de cenas que revelaram a culpa de Sera. Mais perfeita ainda foi a transição do presente para o passado. As passagens dos olhos de Bruce para o interruptor e para o jogo de basquete na televisão foram simplesmente sensacionais, enfatizados pela aceleração dos ambientes. Todo o episódio teve um tom mais escuro e uma trilha sonora bem sombria, o que combinou de forma magnífica com os dramas transmitidos em 44 minutos.
Quando somos levados a situações angustiantes e vemos que tudo é bem maior do que pensamos, sempre fazemos uma simples pergunta: e o que sobra? Bruce já era doente e numa única tacada perdeu toda a sua família. A maioria da cidade acredita em sua insanidade e a quantidade de pessoas que ele vê como amigos é minúscula. Bruce tornou-se praticamente um homem sozinho. Em um contexto como esse, grande parte do que permanece é injusto e traz consequências bem negativas.
Esse episódio reforça o alto nível desta temporada. Ao contrario dos últimos, ele não trouxe algo tão macabro e incomum. Apesar de gostar bastante desse lado sombrio, o balanço foi positivo, excetuando-se os problemas ressaltados anteriormente. O surpreendente final contribuiu em demasiado para isso. Já podem começar a reclamar: teremos mais uma semana sem Criminal Minds. Em compensação, os próximos dois episódio trarão um personagem até então peculiar: o Replicator. Tenho expectativas altíssimas para essa trama e espero que não me decepcionem. Em 2013, Criminal Minds adquiriu um fôlego incrível e só tem espaço para melhorar.
Observações:
– Rossi se perguntou quais eram as chances de dois sequestros na mesma data em anos consecutivos. Rossi estimou 1 para 1 bilhão e Reid disse que era um valor bem próximo. Será que ele sabia a resposta?
– O ator que interpretou Bruce Morrinson soube conciliar perfeitamente o seu lado sombrio e a sua face de pobre e injustiçado pai. A cena que ele limpa os olhos no espelho após o choro foi muito boa.
– Alguém se lembrou do 4×20 – Conflicted? A dupla Adam e Amanda que, na verdade, era uma única pessoa? “Monstros são reais, e fantasmas são reais também. Eles moram dentro de nós. E, às vezes, eles vencem.”
– Existem cenas que não precisam de diálogos. Uma delas foi a revelação da morte de Katie. Hotch fechou a porta e ouviram-se os gritos de Bruce. Excelente!
– Criminal Minds mostrou, que, nem sempre, uma chamada telefônica depois de um sequestro vai ser necessariamente do sequestrador. Para o contexto de All That Remains, isso seria inadequado, mas, não me lembro de ter visto em nenhuma outra série algo nesse sentido.
– Muitos roteiristas esquecem que chove no dia-a-dia. Muito bom terem utilizado esse recurso. Lembro-me de pouquíssimas exceções em que se chove muito em uma série. Cabe ressaltar o maravilhoso Always de Castle e There Is No Place Like Home de Criminal Minds.
– E a chuva de novo… Perfeita a passagem da ligação para o 911 para a equipe reunida na sala de conferência. A sonoplastia da chuva em ambos os ambientes foi ótima e o telespectador viu uma transição muito bem feita. Outro detalhe foi a transcrição da chamada na cena preta. Só tenho elogios à direção de Thomas Gibson.














