A verdade dói.

A sinceridade é algo complicado. Por mais que o ser humano tente se enganar ao dizer que sempre é bom ouvir a verdade, ter que encarar certas situações ao nosso redor é sempre complicado.“The One With the Giant Poking Device” lida exatamente com essa situação e como ela pode afetar os outros ao seu redor.

A trama se inicia do exato ponto em que o episódio anterior é finalizado, com Joey descobrindo a traição de Janice, Monica e Rachel passando a cuidar de Ben por um dia e Phoebe tendo que ir ao dentista e rezando para que ninguém ao seu redor morra.

A história de Chandler é o melhor do episódio. Resolvendo o dilema inicial de Joey sem enrolação, o episódio passa a se focar em como Chandler lidaria com isto, realizando estudo de um personagem que apenas cresce desde o início da série. Para alguém cuja principal característica é a incapacidade de participar de relacionamentos, era natural que em um momento como esse fizesse o possível para não perder a estabilidade que Janice o garantia. Esta dinâmica rende um dos melhores momentos, no qual vemos o personagem fazer perguntas apenas para que as respostas de sua amada não sejam satisfatórias o suficiente.

Mas é na dinâmica de Joey e Chandler que reside o melhor do episódio. O grande trunfo da dupla é o modo como ambos encaram o mundo ser tão similar, apesar dos modos de humor díspares, o que é muito bem aproveitado pelo roteiro de Adam Chase. O diálogo entre ambos sobre dar uma chance para uma família consegue transmitir tamanha sinceridade, além de utilizar suas personalidade já estabelecida a fim de estabelecer um momento tocante. Como um complemento, temos a grande cena em que Matthew Perry expõe toda a fragilidade de seu personagem através de elementos já conhecidos do espectador(o divórcio dos seus pais) e o inserir na situação em questão, conseguindo ao mesmo tempo despertar risos e lágrimas. Sempre é duro um fim de relacionamento, mas sabemos que esse é para melhor.

A trama das garotas acaba por funcionar ao gerar um diálogo com o presente arco de Monica. Com uma série de insucessos na sua vida, dentre os quais está atualmente representado pelo rompimento com Richard, tomar conta de Ben é uma tentativa de mostrar que algum dos seus projetos de vida podem ser bem-sucedidos. É por este motivo que um ato aparentemente sem importância, a batida de cabeça do sobrinho, acaba ganhando um contorno tão grande. Não é apenas um machucado, mas  uma sensação de incapacidade em lidar com uma tarefa aparentemente rotineira, refletindo toda a insegurança da personagem em um único ocorrido. O que leva a outro grande momento do episódio, em que vemos Ross descrever sintomas falsos para o seu filho enquanto a irmã está prestes a surtar, em uma sincronia afiada entre David Schwimmer e Courtney Cox.

O humor do episódio é carregado na história de Phoebe. Com uma premissa naturalmente bizarra, como é orgânico à personagem, e a desenvolve até que aparente se mostrar algo coerente com o universo de Friends. Mesmo que não seja temida pela vida de Ugly Naked Guy, ao menos existe uma aceitação que sua morte possa ocorrer pelo simples fato de que algo tão absurdo poderia acontecer no mundo em questão. As situações que se desdobram disso são os diálogos sarcásticos típicos da série, como o ótimo “O que falaremos, que o cara pelado que ficamos encarando pode estar morto?”. O ápice do episódio é justamente o momento em que o “Giant Poking Device” do título surge a fim de verificar o destino do sujeito, em uma missão descoordenada(e com direito à visão de sua barriga sarada). Liza Kudrow mais uma vez rouba a cena, conseguindo se sentir em tamanho conforto que todas as idiossincrasias de sua Phoebe surgem sem esforço algum, conseguindo puxar o arco mais humorístico sem dificuldade alguma, além de ser complementada pelas ótimas intervenções de todo o elenco.

Friends é uma série que faz rir. Friends é uma série que faz chorar. Esses dois extremos por vezes conseguem se unir e criar episódios como “The One With the Giant Poking Device”, mais um dos ótimos momentos de uma temporada que beira a perfeição.

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