Seguindo nisto o belo uso do mundo dai-me audiência. Aqui vim para falar-vos

– William Shakespeare (João Rei, ato V cena 2)

Às vesperas da eleição para a presidência da Suprema Corte, o candidato que é nomeado ao cargo tem sua credibilidade moral questionada quando acusações envolvendo seu passado são levantadas por uma ex-colega de trabalho, que alega assédio durante o período em que lhe foi subordinada. Mais do que o caso da semana de alguma série policial ou de bastidores políticos, essa é a forma como Anita Hill é apresentada à história americana moderna e começa uma jornada polêmica, capaz de mudar para sempre o debate sobre o papel da mulher norte-americana no cenário político de seu país. A jovem professora aqui não é só personagem, mas a representação de uma figura importante dos anos noventa, que apareceu no começo da década nessa situação embaraçosa e que aqui, de alguma forma, é celebrada. Mesmo mantendo uma distância saudável na hora de tomar partidos, fica claro o desejo do filme de felicitar as conquistas realizadas por Hill e suas atitudes. A maior delas, eu já adianto: a conquista do diálogo. O sim, vamos conversar sobre isso. O diálogo às vezes é uma conquista.

A indicação do juiz Clarence Thomas por Bush, presidente à época, foi polêmica desde o começo. Caso aceito pelo senado, ele seria o segundo juiz negro seguido a ocupar a vaga, o que ainda era um assunto delicado, visto que quem estava deixando o cargo, Thurgood Marshall, aposentava-se com o título de ter sido o primeiro na função. Consideravelmente novo e desconhecido, Thomas tinha fama de conservador: ótimo para o grupo de votantes que lhe aprovariam. O ano era 1991 e tudo seguia como planejado. O que ninguém contava era com o surgimento de Anita Hill, professora acadêmica com quem o nomeado trabalhara dez anos antes, acusando-o de a ter assediado. A pontualidade da alegação, surgindo às vésperas de momento tão decisivo, e tendo sido retardada por uma década, conforme o testemunho de Hill, além da falta de provas materiais concretas, coloca a palavra da denunciante em questionamento. Ela, respeitada profissional de seu meio, tem apenas as lembranças de tão perturbadora época para apoiar seu discurso. Sendo assim, Thomas, que é amparado pela falta de indícios contra si, entra no jogo de usar a reputação prestigiada que tem e passa a desacreditar quem se diz tão vítima de história tão inacreditável. Temos o nosso filme. Temos um dos maiores escândalos públicos na história contemporânea dos Estados Unidos.

O timing da HBO Films para a adaptação do caso à geração votante atual está sendo questionado por muitos. Diversas pessoas acusam o filme de ser uma propaganda eleitoral relacionada a Hillary Clinton; outros, ligados ao caso à época, acusam o filme de transformar algo real em um drama novelesco demais. Tendo surgido por um desses motivos ou outro, Confirmation se estabelece no momento certo, pois apresenta temas que são abordados o tempo todo por uma geração obcecada por desconstruir os ideais injustos de uma sociedade cada vez mais paródia de si mesma.

A composição do filme é formada a partir da sobreposição de entrevistas e material jornalístico da época com a encenação do elenco, encabeçada pela sempre competente Kerry Washington, nossa querida Olivia Pope de Scandal. A ambientação é bem feita, mas temos que confessar que não é tarefa muito difícil voltar a 1991. Os protagonistas estão confortáveis em seus papéis, mas o material disponível sobre as pessoas reais que estão representando limitam o trabalho de criação que poderiam ter realizado. Em um momento ou outro, Washington faz uma cara de dor que não lhe cabe muito bem, enquanto Wendell Pierce (Suits, The Odd Couple), fica estagnado em um personagem atuado de forma unilateral por conta de um roteiro bem intencionado, mas com algumas falhas. O elenco secundário tem grande força, assim como suas personagens são importantes. Temos alguns momentos com Jennifer Hudson, que tem uma pequena participação, bem menor do que eu gostaria. Mais uma vez ela prova que seu talento como atriz só não é maior que o como cantora. Outros atores, como Grace Gummer, estão muito caricatos e aparecem sempre com as mesmas expressões para se desdobrar com as mesmas falas.

O texto não toma muita liberdade, limitando-se a apresentar a história. O recurso narrativo é estruturado dentro de um jogo desde os primeiros minutos. Thomas é apresentado também como vítima das circunstâncias e, conforme o enredo se desenvolve, o absurdo das acusações sobre alguém tão inocente e o perigo de ter sua reputação manchada por esquemas políticos ficam em suspenso. Mesmo hoje, as acusações de Hill continuam exatamente isso: acusações. É nesse campo que o roteiro trabalha, não deixando de apresentar a professora como alguém que não ganharia nada por mentir, mas também pontuando o quão raso o caso era, afinal, aparentemente, o juiz era respeitado e sem qualquer outra marca em seu histórico. Eu senti falta de qualquer brincadeira com a possibilidade de estarem mentindo, e, talvez, isso não tenha acontecido devido a proximidade de Anita com o projeto. De qualquer forma, esse investimento nos dois lados cria um bom ambiente no filme, não o deixando tendencioso — pelo menos nesse aspecto.

A edição do filme pode incomodar um pouco. As cenas são muito curtas e muito sobrepostas em certos momentos, no que pode ter sido uma tentativa de dar movimento à narrativa, que não funciona e a torna cansativa. O filme se alonga pela necessidade de explorar alguns conflitos, mesmo os que poderiam ser deixados intocados. A fotografia não se destaca como poderia, e alguns truques visuais são bem óbvios. A visão da personagem de costas e constantes cenas em que seu corpo é refletido, metáfora da possível dualidade de sua personalidade, por exemplo. É tudo muito suave porque o roteiro não toma partidos. Nossos ensinamentos morais e cristãos se agonizam por isso, mas essa decisão foi coerente, principalmente dentro da proposta da produção. No começo do filme, há uma cena em que Thomas sai das sombras para conversar com a esposa sobre o futuro escândalo; no final, quando Anita volta a sua cidade, após a audiência do caso, é ela que tem uma cena voltando às sombras.

Há um debate feminista citado no começo, mas que o longa não alcança em seu desdobrar. Assistimos às reações de algumas personagens femininas, mas, novamente, tudo nivelado. A questão racista ganha força quando alcançamos o meio do filme. O diretor Rick Famuyiwa não tem muitos filmes no currículo, mas é perceptível o foque na diversidade que ele traz de sua vivência pessoal para suas películas. Temos uma questão externa que, querendo ou não, influencia no filme: Conforme seu progresso, assistimos a Hill ser desacreditada por ser mulher e negra. A vivência de uma mulher negra é algo que somente ela tem o tato, a sensibilidade e a experiência necessárias para falar a respeito. O roteiro é escrito por uma mulher branca, familiarizada com questões legais, mas que jamais poderá descrever e dialogar diretamente com a vivência de uma mulher negra. Essa discussão, muito presente na causa feminista, é perceptível em alguns momentos. Além disso, o filme ser dirigido por um homem negro, quando o fator “homem negro diante de mulher negra” é introduzido entre as cenas, deixa interrogações. Não sou a melhor pessoa para falar dessas questões sociais, assim como não me cabe, então deixo apenas como observação.

Confirmation acaba não sendo sobre as questões que levanta, mas sobre a pressão pública diante de casos que ganham grande repercussão, os bastidores políticos e o jogo de poder e conspiração estabelecidos em qualquer sistema democrático. O filme tenta ser o mais coerente e documentarista possível, mas ficamos com uma sensação de barganha no final. O chamado Efeito Anita Hill na política não poderia ter sido deixado de fora, e ele é a grande recompensa para quem toma seu partido durante a exibição. O roteiro tem claramente muita influência na biografia de ambos: os dois escreveram e citaram o episódio, dentro de suas próprias verdades. A película está longe de ser suficiente para debater o caso, mas a internet tem o bastante para, pelo menos, criarmos uma base. Em entrevistas, o elenco fala de como o país ficou dividido, e Washingnton, também produtora, compartilhou algumas memórias de adolescência. Há documentários e entrevistas com os envolvidos também.

Há vinte e cinco anos, Anita Hill iniciou o diálogo que reflete na nossa realidade e precisa ser continuado, nem que tenhamos que ser forçados a dialogar a respeito em redações de vestibular, como muitos tiveram ano passado. Em semana decisiva à história de nosso país, o filme vem para reforçar o tópico que ninguém vai conseguir deixar de lado nos próximos dias. Pretensão de cinema em um filme para tevê por ser um assunto que precisa ser discutido em lares: são neles que reside o grande problema que desencadeia o conflito todo.

ps: Shakespeare é citado durante o filme; essa foi a deixa para o link entre os conflitos abordados e os presentes em suas peças. Ele realmente inventou o ser humano.

Artigo anteriorOutlander 2×01: Through A Glass, Darkly [Season Premiere]
Próximo artigoHorace and Pete | Louis C.K. confirma o fim da sua série
Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.