
Dois episódios muito distintos, mas que se complementam no universo da série – pelo bem da sua própria sobrevivência.
Spoilers Abaixo:
Muito antes de “Critical Film Studies” ir ao ar, já o rotularam como o “episódio inspirado em Pulp Fiction”, o que pra mim foi estranho, já que a série sempre homenageou gêneros distintos de filmes, como o “Conspiracy Theories and Soft Defenses” (filmes de conspiração) e o “Contemporary American Poultry” da primeira temporada (homenageou os filmes de máfia), e nunca tinha se inspirado em um filme específico. Porém não foi isso o que aconteceu no episódio, que foi arrojado, interessante e até emocionante sem se apoiar inteiramente no filme de Quentin Tarantino.
“Critical Film Studies” então pode não ter sido um episódio bom para todos, já que foi mais sério que o comum e praticamente se dividiu entre o plot em que Abed convida Jeff para um jantar e o plot “Pulp Fiction” em que o resto do grupo esperava o aniversariante para uma festa surpresa com o filme como tema.
Foi muito estranha toda aquela transformação repentina do Abed (ele gosta de “Cougar Town”!), uma conversa muito reflexiva que parecia ir a lugar nenhum, mas se tornou uma trama excelente por ter um ótimo roteiro cheio de nuances psicológicas envolvendo os dois personagens (“I was that wallet. On the surface, a reference to some cinematic drivel, but on the inside… empty.”). Como indicado no transcorrer do episódio essa trama foi inspirada no filme “Meu Jantar com André” de 1981, e mesmo que o fim tenha sido um pouco anticlimático (porque pregar uma peça em Jeff, aliás?) foi a melhor parte do episódio, grandes atuações tanto de Danny Pudi quanto Joel McHale.
A parte “Pulp Fiction” do episódio foi mais fraca, mais porque a importância do filme requer uma atenção maior que o episódio deu, mas também pelo fator de não ter um desenrolar interessante, com a intriga da mala com o presente de Abed, e a curiosidade/ciúmes de Troy com a aproximação do restante do grupo com seu melhor amigo que já é recorrente e também fez a história perder o impacto (e o Sr. Chang estava insuportável aqui, mais over the top que o costume). Valeu pela interligação dos dois plots no final, que foi a parte mais emocionante do episódio e que ganhou muitos pontos comigo.
E então chegamos ao mais recente “Competitive Wine Tasting”, pouco badalado, mas eficiente na maioria do que propôs. Tenho que confessar minha frustração inicial pela série querer reaproveitar a trama da primeira temporada envolvendo as aulas de dança de Troy e Britta, e ainda os entraves românticos de Troy (lembram quando a Annie gostava dele?) e Britta (a personagem não tem tanto apelo característico, por isso os roteiristas vivem colocando o aspecto amoroso da personagem em foco), mas a história satisfez pela volta do Professor Professorson (o close final da storyline no rosto dele é maravilhoso, “All that matters is our time in the spotlight”) e as expressões de sofrimento do Troy contando sua terrível experiência passada para ganhar créditos na aula de interpretação, Donald Glover é um dos destaques dessa temporada.
Também tivemos mais um pouco da relação Pierce-Jeff, o que também rendeu bons momentos quando Pierce anuncia noivado com uma aluna que tinha dispensado Jeff, que por sua vez tenta acabar com os planos do casal (é a segunda vez que eu escrevo sobre personagens tentando acabar com o casamento alheio, embora Leslie se intrometendo na cerimônia de Andy e April foi mais engraçado). A namorada do Pierce foi hilária, desde seu sotaque contrapondo seu vocabulário vasto (“Please take weird haircut, stupid grin, and go sniff another dog’s ass.”) até a revelação final, coerente e engraçada, tomara que a personagem continue na série. O ponto negativo do episódio pra mim foi o plot do Abed e suas aulas sobre a série “Who’s the Boss?”. Eu tenho a não gostar muito das histórias dadas ao personagem porque tentar “humanizar” o Abed é uma tarefa quase impossível, sendo que os próprios roteiristas perdem a mão quando fazem isso levando suas tramas sempre para um lado surreal como ele de Jesus no episódio “Messianic Myths and Ancient People”. Nesse episódio, ele mais uma vez sai como uma pessoa longe de cometer algum deslize quando o assunto é TV, saindo por cima em um embate com o professor, e mesmo que a característica do personagem não ajudasse, nenhuma cena desse segmento foi engraçada.
Mas depois dos dois episódios vistos é bom observar que “Community” ainda consegue entreter se focando mais nos personagens do que nas referências, e como eu disse anteriormente, isso garante uma liberdade criativa maior para os roteiristas, já que se a série trouxesse episódios exclusivamente referenciais perderia grande parte da sua personalidade.
P.S.:
* “Meu Jantar com André” também serviu de homenagem para um episódio de Frasier chamado “My Coffee with Niles”. O interessante é que Jeff diz em um momento no jantar que Abed está falando como Frasier.













