Hora de recolher os feridos e ponderar se a sua luta tem sido satisfatória.
As histórias de faroeste de antigamente são carregadas de vilanisses e heroisses exageradas, mas não sem honra. Muitas vezes um determinado código moral estava acima do simples ato de ser mocinho e bandido. E a história da vida não mente, até para viver num ambiente que aparenta ser uma terra sem lei, algum tipo de tratado é necessário. E não importa se foi algo combinado de boca, escrito no couro do boi, ou em marca de ferro queimado em brasa, as pessoas querem ter um senso de existência, a certeza que elas têm algum tipo de valor.
Nas ruas de Colony, só falta o matinho rolando e o vento uivando. Vários elementos de uma trama de faroeste estão presentes no show, mas às vezes falta o cumprimento dos acordos. Katie em mais de um momento bradou que gostaria de ouvir que a vida de quem ela nutre sentimentos, deveria ser palpada. Certamente que ela ouviu. Entretanto, sabemos bem que nem sempre o código de honra vem em primeiro lugar. Por um certo momento ele pode até existir, mas num segundo ato, a rapidez do gatilho fala mais alto que o almejado e idealizado pacto. Me surpreenderia se não ocorresse, mas lutar por ele não é uma utopia.
Broussard poderia ter atirado no Will na sua emboscada com os outros ReadHats, não atirou, nem no Yonk Bar agiu com a força que deveria ter agido para ter a cabeça a prêmio do Snyder. E Colony desde o seu primeiro episódio tem disso, uma oscilação ética e moral demasiadamente forte dos seus personagens. Tem momentos que você apenas vai desejar que o infeliz seja morto, em outros, se espantar com uma humanidade que você não esperava que pudesse aflorar. Katie foi traída pelo Quayle. Broussard não esperava que esta seria a reação de seu chefe.
Em Colony todos em um maior ou menor grau estão buscando um senso de existência, seus colonos querem ter um propósito para existir. E o ideal de quem escolhe lutar por algo, pode até ser nobre, já imaginar cegamente que a do seu líder no momento do perigo e fracasso vá ser de acolhimento para com seus fiéis súditos guerreiros, é viver demais um sonho que pode ser somente seu. E mesmo entrando século, saindo século, o homem não aprendeu a lidar com isso. E nem acredito que um manual do “Aprenda ser um guerrilheiro de sucesso em 45 minutos” seja um livro que possa ser levado a sério, nem um “Seminário de Guerrilha Pessoal” no meio do deserto do Arizona nos Estados Unidos seria capaz de formar empreendedores na Arte da Guerra para ajudar na sobrevivência local. A espécime humana tem algo que a escapa, sempre surpreende. Não reprovaria a atitude da Katie posteriormente se ela insistir lutar pela resistência mesmo sabendo que Geronimo e os motivos que a fizeram participar dessa luta, não passaram de apenas mais um ás, uma carta qualquer na jogatina da vida.
A imagem de um governante sem presença política do Snyder me incomodava, algo não batia bem nisso tudo. Alan Snyder, era o antigo reitor da Universidade de Stanford. Não diria que Snyder é só mais um idiota num cargo de poder como a Katie comentou com o Will, mas um tolo qualquer, isso ele não é. Will foi certeiro, é melhor um diabo imaginário assombrando nossa garagem do que um real todo poderoso.
Snyder em conversa com Katie, diz que além do bloco de Los Angeles, existe um bloco maior, o da Costa do Pacífico. Que é constituído pelo estado de Washington, Oregon e Califórnia em 7 colônias. Que na I e II Guerra Mundial, foram estados chaves, e centros econômicos importantes para o desenvolvimento dos EUA até hoje. Se é para invadir um país e ter controle sobre parte de suas terras, outro local nos Estados Unidos não teria sentido. É preciso um polo industrial, técnico e comercial para se manter um certo tipo de ordem. O que torna o mistério da Fábrica que transforma os moradores sabe lá em que, em algo bem intrigante. Só por curiosidade, corpos de pessoas sendo usados como combustível para manter uma determinada cidade funcionando, já foi usado em outra série, The Last Ship (TNT), uma situação abominável que cairia como uma luva na aura dark de Colony.

Katie indaga Snyder sobre a possibilidade de existir vida fora dali. Ele diz que é algo que ela não gostaria de saber. A dimensão territorial americana é imensa, e somente a existência de sete colônias dentro de três estados, é algo assustadora.
Na review anterior, sugeri que Colony pudesse ser uma experiência social. E quem vem acompanhando a série, sabe que o background cultural do show é imenso. O trabalho da produção em correlacionar os fatos ou situações presente em nosso mundo com o deles, para na hora da exibição, não soar falso em tela, tem sido algo fantástico na trama. O universo de Colony e o nosso estão quase num mesmo plano temporal, por isso o cuidado em prestar atenção nas falas dos personagens.
Por dentro do show cinco:
– Snyder falou que existe 7 colônias. E que ele foi escolhido para o seu cargo devido a um código algorítmico. Os Ocupantes continham dados de todos os supostos colonos de antes de sua chegada a Terra. Will cita o Rolodex. E sua falecida chefe, Phyllis, também disse que usava este banco de dados. O que não sabemos, qual a porcentagem do limite de acesso aos humanos. O Rolodex serve como base de dados de uma “polícia secreta” dos alienígenas? A Gestapo deles? E novamente eu pergunto, qual o papel dos drones, filtrar e pesquisar a vida dos colonos?
– Em 1939, o Escritório Central de Segurança do Reich (RSHA) estava dividido em 7 grupos com vários departamentos. Na Polícia Secreta Nazista, civis tiveram um papel chave na prisão e desestruturação de vários cidadãos. Observem o comportamento da representante local, Helena Goldwin (Chefe de Gabinete do Governador Geral da Califórnia) e o da Phyllis, que sabia mais do que imaginávamos que ela soubesse? Se os ocupantes de antemão já tem um perfil completo de todos ali presente, como é feita cada escolha?
– O símbolo da Homeland Security é uma águia que foi estilizada seguindo um padrão da Águia Nazista, que politicamente subentendia o controle do Ocidente e do Oriente pela força simbólica que este animal representa culturalmente.
– Se você tem pensado que Colony é uma crítica a atual política americana, não diria que você estaria de todo errado. 45 dias após ataque do 11 de setembro, o congresso americano aprovou o USA PATRIOT Act, uma sigla para identificar o “Ato de Unir e Fortalecer a América Providenciando Ferramentas Apropriadas e Necessárias para Interceptar e Obstruir o Terrorismo”, ou seja, esta lei concede ao FBI (Federal Bureau of Investigation) total acesso a qualquer documento privado de um civil que for considerado suspeito, pode ser registro médico, email, ou uma conversa telefônica qualquer. Para quem advoga sobre os direitos a liberdade dos cidadãos, a aprovação desta lei, marca um grande atraso social em décadas. Para eles, o governo estadunidense estaria usando esta lei para investigar qualquer cidadão ou pessoa presente em solo americano. No julgamento do “Geronimo”, Snyder diz que a liberdade dos colonos era mediada, e que ninguém ali era livre de verdade, e que era um dever ser participante ativo na era da ocupação alienígena (informar todo ato suspeito?). Qualquer semelhança com a Gestapo e o Usa Patriot Act, é mera coincidência? Pode ser que não.
– A universidade onde Snyder trabalhou, é famosa por causa da fatídica Experiência Prisional de Stanford, que tinha como base inicial, simular o comportamento de guardas e prisioneiros na década de 70. Este experimento mostrou que papeis sociais podem ser invertidos, agressivos e realizados por pessoas sem um “certo padrão mental definido”; que também se correlaciona com o Experimento Milgram (um estudo polêmico sobre uma das facetas do nazismo), que tinha a pretensão de analisar as respostas e a obediência que um indivíduo qualquer teria para um certo poder autoritário na realização de ações sociais que poderiam ser contrários a conduta de quem praticou um ato supostamente “ilícito”; e que já vinha acimentado, por estudos semelhantes realizado por Gustave Le Blon (e outros em psicologia social e experimental), afirmando que indivíduos numa multidão, perderiam sua individualidade ou consciência, que em linhas gerais, cederia aos ideais de um grupo independente do seu pensamento antes do ocorrido. No fim, o surgimento de impulsos antissociais, era inevitável. Por este ângulo, a resistência e os colaboradores de Colony, não estão tão distantes dessas teorias não.
















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