Olá assíduos leitores que fazem do Série Maníacos o maior e mais etnicamente diverso blog independente sobre séries do Brasil (primeiro eu relembro a nossa credibilidade, pra depois aumentar sua vontade de ler a nova coluna).

E antes que me pergunte, não, essa coluna não é um Arquivo Confidencial do Faustão ou um Top 10 colado descaradamente do imdb. É uma verdadeira expedição ao passado dos grandes sucessos do artista, e dos fracassos tão risíveis que destruíram famílias inteiras de atores azarados. Prontos?

Leves spoilers abaixo:

Certo, começamos nossa primeiríssima coluna homenageando a coleção do nosso querido Ryan Murphy que, caso não saiba, vai muito além de Glee e Nip/Tuck. Ok, não tão além assim, mas vai. E antes que você, leitor perspicaz que se sente indie por comprar a Rolling Stone do mês reclame dizendo que eu copiei trechos da matéria de Glee, eu respondo que minha pesquisa se baseou em vários sites da net e outras fontes confiáveis como o Wikipédia, então nem tente.

Aliás, pesquisar sobre a vida do Sr. Murphy não é tão fácil quanto descobrir que raça de cavalo mais parece com a Sarah Jessica Parker. Sabemos que ele tem 44 anos, mas até aí nossos pais também tem. Que ele é gay também não é novidade alguma, levando em conta que sua carreira inteira se baseou em shows sobre cirurgia plástica e/ou cheerleaders musicais seria até um espanto ele ter filhos e ler o jornal Lance.

E se você acha que é porque seu trabalho é tão expressivo que fala por si próprio e sua vida fica em segundo plano, talvez mude de idéia ao saber que a primeira vez do Ryan foi com um jogador de futebol americano quando ele tinha oito anos. A vida dele na verdade é gráfica e alternativa demais pra casta sociedade americana. Não que a gente não entenda disso, troque o jogador de futebol americano por um capataz e isso vira um flashback de metade dos leitores em viagem do sítio da família, né.

Vamos lá. Conhecido por atuar em diversas frentes artísticas, como roteirista, diretor e produtor musical, Ryan Murphy despontou nos anos 90 com um roteiro intitulado Why Can’t I Be Audrey Hepburn? Ou Por que eu não posso ser Glória Pires, numa tradução para o pessoal que não foi alfabetizado em inglês. O roteiro, que até chamou a atenção de Steven Spielberg, nunca chegou a ser realmente produzido, apesar de alguns boatos recentes de uma produção com a Dreamworks. Não que a gente ligue muito pra isso, claro.

Ainda sem uma chance em mãos de despontar para o estrelato, nosso showrunner continuou trabalhando como jornalista, até que finalmente no ano de 1999 seu primeiro grande projeto televisivo mudaria sua vida. Popular contava a história de duas inimigas mortais de ensino médio que subitamente se vêem obrigadas a viverem como irmãs, quando seus pais anunciam o noivado. A série foi exibida pela extinta WB, que tinha como público alvo os jovens brancos americanos (os negros eram visados pela concorrente, a UPN. Um dia elas se fundiriam e virariam o nojo que é a CW, mas isso é outra história), e rapidamente chamou a atenção por um detalhe peculiar e diferenciado para uma série adolescente: a dose cavalar de ironia, que anos mais tarde influenciaria até The OC e teria sua trama principal plagiada por High School Musical. Popular era uma delícia justamente por seus personagens absurdos e situações de humor negro que envolvia deficiências e distúrbios alimentares. Mas tanta inovação e experimentações de seu criador (que chegou a fazer episódio musical) acabaram selando um fim precoce para a série em sua segunda temporada. Deixou saudade.

Com o fim da série adolescente em 2001, Murphy roteirizou um telefilme chamado St. Sass para a própria WB, em 2002, mas como a gente sabe que telefilme é uma coisa mais avulsa do que vencedoras de Oscar de melhor atriz, a gente solenemente ignora essa parte, até porque estamos chegando em 2003, ano de quê? Nip/Tuck.

Mas o que a série do FX tinha de tão maravilhoso pra conseguiu instantânea aclamação de crítica e público? Bom, eu posso te perguntar o que a série não tinha. Circuncisão feita em casa com cortador de unha? Check. Sexo com animais? Check. Incesto? Check. Travesti torturada jogando pai de família nazista em uma tumba cavada para ela? Check, Check, Check!

Nip/Tuck levava a TV paga aos limites do conservadorismo (e do bom senso) jamais explorados antes, e ainda contava a história de dois cirurgiões plásticos no meio tempo. O drama médico foi cancelado recentemente, em sua sexta temporada. Mesmo vindo de uma queda absurda de qualidade e frescor em sua reta final, as três primeiras temporadas são tão maravilhosas que garantem à série um lugar incontestável na história da televisão americana. Pra ver e rever com os amigos mais corporeamente libertos (a.k.a. pervertidos).

Tentando alternar cinema e televisão, Ryan Murphy estreou na direção em 2006 com Correndo com Tesouras, que ele mesmo roteirizou e reunia um grande elenco com alguns nomes que voltariam a trabalhar com ele no futuro, como Kristin Chenoweth e Joseph Fiennes. Mesmo com gente como Gwyneth Paltrow, Annette Benning, Alec Baldwin e Evan Rachel Wood, e críticas que elogiavam o humor característico do diretor, o filme passou despercebido entre todo mundo.

Já com a ótima experiência de Nip/Tuck no FX, nosso showrunner produziu em 2008 um novo (e polêmico) piloto de uma série estrelada por Joseph Fiennes e Carrie Anne-Moss, onde um médico pai de família começava sua jornada para mudar de sexo e virar uma mulher, sem em nenhum momento achar que travesti é bagunça. Nascia e morria aí Pretty/Handsome, já que a série não foi aprovada por motivos nunca realmente revelados. Um pena para quem, assim como eu, viu o piloto e se interessou.

E aí chegamos em Glee, que basicamente é a cereja no topo do sorvete, e uma revisita a tudo presente na história do próprio Ryan. Tem sua fascinação por colegiais, tem as invenções de Popular, as esquisitices (em um nível moderado, claro) de Nip/Tuck e o início de sua já bem sucedida carreira em produção musical, sendo responsável por escolher todas as músicas que são apresentadas na série. Resumindo, ele escreve, dirige e produz a obra mais lucrativa, baixada, assistida e premiada de sua carreira. Levou algumas décadas até que o espevitado e precoce garoto gay conseguisse o estrelato e influência que tanto almejava, mas hoje em dia ele tem o prazer de poder rolar no dinheiro que somente um lugar poderia provir: o bolso dos pais de fãs adolescentes.

E qual seria o próximo passo de alguém que se encontra no auge? Para Ryan Murphy, o roteiro e direção do filme baseado no best-seller Comer, Amar, Rezar, estrelado por Julia Roberts e previsto para estrear nos próximos meses. E é assim que nós batemos no peito que éramos fãs do Ryan antes de virar modinha, enquanto nós dizemos que ele traiu o movimento e saímos à caça de um novo gênio indie que seja ainda mais irônico.

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