Seria o altruísmo uma doença?

Eu não sei se os roteiristas pretendem fazer disso uma regra, mas confesso que estou gostando de vê-los usarem os casos da semana para tratar de um tema em comum. Assim, tivemos em “Saints” uma discussão sobre o altruísmo.

Vamos analisá-los:

1 – Adolescente que iria receber transplante de medula.

A impressão que tenho é que esse enredo foi escrito por um dos roteiristas de Chicago Fire. Eu digo isso, pois a equipe criativa de CF tem um vício de usar subterfúgios não muito inteligentes para aumentar a carga dramática de suas tramas. Assim, tivemos Peter, um dos executivos do hospital, tentando impedir que o transplante de Christy ocorresse pelo fato do seu irmão estar levantando dinheiro para pagar uma viagem para o doador da medula.

O argumento usado pelos roteiristas deve ser legal, mas como o próprio Peter confessou depois, causar a morte da adolescente por proibir o transplante poderia ser pior para o hospital do que permiti-lo e correr o risco de alguma sanção pela ação de um adolescente.

Essa história forçada ao menos serviu para vermos o quanto Sharon é badass, já que ela assumiu o risco de ser demitida ao permitir o transplante mesmo contra a vontade da administração do hospital.

2 – Senhor que sofreu derrame e teve uma mudança de comportamento.

A história de Bobby foi, a meu ver, a melhor do episódio. Achei que a trama foi desenvolvida de forma orgânica, com o dr. Charles sendo chamado para uma consulta pois o médico que o atendeu achou que sua natureza excessivamente generosa poderia estar fazendo com que o paciente não pudesse cuidar de si mesmo.

Confesso que dividi com April a frustração de ver toda a generosidade do personagem ter sido causada por um problema de saúde, e fiquei ainda mais chateado ao ver que as sequelas do seu segundo derrame o fizeram egoísta ao extremo. Um final triste para um enredo bem desenvolvido.

3 – Um casal é vítima de um acidente automobilístico após um homem roubar um carro.

Esse caso teve uma reviravolta logo na maneira que foi apresentado. Se em um primeiro momento pensei que o foco seria em Mike e Jess, casal envolvido no acidente após o roubo do carro, para minha surpresa a sua história foi secundária em relação à de Walter.

Achei corajoso ver os roteiristas usarem essa trama para fazer uma crítica ao sistema de saúde americano. Afinal, sem um convênio para cobrir as despesas do tratamento do seu câncer, a família de Walter seria levada à falência.  Assim, o paciente preferiu “roubar” um carro em frente a policiais para ser preso, pois sabia que seria tratado de graça pelo governo.

Infelizmente a sua ação não foi bem calculada e ele acabou ferindo Mike e Jess, o que irá acarretar em uma sentença maior.

Quanto ao casal, seus ferimentos só serviram para gerar a cirurgia na qual Rhodes e Zanetti brigaram. No que diz respeito ao futuro deles, concordo com Rhodes e acho que o relacionamento não irá durar apesar dessa ligação intensa que o acidente gerou.

4 – A novela dentro de CM.

Acho normal os roteiristas de uma série médica aprofundarem as histórias dos relacionamentos dos personagens ao mesmo tempo em que desenvolvem os enredos dos pacientes da semana.

Em CM, no entanto, estou começando a ficar preocupado com o tom aplicado a essas tramas. Primeiro temos o aborrecido relacionamento entre Zanetti e Rhodes. Estou para ver um casal mais sem química que esse. Além disso, Julie Berman interpreta a cirurgiã da maneira mais antipática possível, o que não ajuda em nada o “relacionamento” do casal.

A novela mexicana, entretanto, fica por conta da “amizade platônica” de Will e Nat. Se antes Helen, a sogra manipuladora e insuportável de Nat, não queria ver Will nem pintado de ouro, agora que sua nora afirmou que pensa em se mudar para Seattle a situação mudou, e Will virou um “ótimo partido”. Eu consigo entender o motivo do seu ex-marido ter se divorciado e mudado de estado, o jeito dissimulado dessa senhora faz com que você queira fugir para as montanhas.

Apesar de uma premissa interessante, “Saints” foi um episódio irregular devido à diferença de qualidade de algumas de suas tramas. Enquanto tivemos ótimos momentos com as histórias envolvendo Bobby e Walter, o resultado dos enredos de Christy e os dramas pessoais dos médicos me pareceram forçados. O saldo foi positivo no geral, e confesso que gostei muito da crítica feita ao sistema de saúde americano, já que trata seus presidiários de graça, mas não consegue fazer o mesmo para os cidadãos de baixa renda.

Observações finais:

1 – Um homem chamado Walter está sofrendo de câncer e não tendo como pagar o tratamento decide cometer um crime, seria Breaking Bad? Só faltava ele ser professor de química.

2 – Will defendendo um homem que foi condenado por assalto à mão armada?! Acho que o médico do batom rosa está amadurecendo.

3 – Nat tem um pôster de Nick Carter no seu quarto na casa dos seus pais?! Eu esperava mais de uma fã de música clássica, Nat!

4 – Adorei ver que os roteiristas incorporaram as origens brasileiras de Yaya da Costa à sua personagem, vê-la falando: “São Francisco” com seu sotaque foi divertido.

Comentários da Bruna.

Apesar de ter sido um episódio mais leve, ele não deixou de passar uma mensagem para quem assistiu. Os casos foram interessantes em suas particularidades, mas acredito que o da garotinha que precisava do transplante foi o que mais me tocou porque dá para ver nitidamente a realidade que não acontece só no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo. Muitas vezes as vidas dos pacientes acabam ficando em segundo plano quando na verdade deveriam ser sempre prioridades, por isso bastou a garota quase morrer para que fosse tomada uma atitude. Ainda tivemos o paciente do Will que precisou cometer um crime para que só assim pudesse receber os devidos tratamentos na prisão. Não digo que foi correta a atitude, mas em certos casos as pessoas tem a necessidade de fazer algo que não fariam por um determinado motivo que no caso dele era o tratamento do câncer.

O outro caso que gostei foi o do Bobby. Devo dizer que fiquei satisfeita com o modo que Dr. Charles foi utilizado – trabalhando em sua especialidade – e na interação dele com a April. Para ela, Bobby lembrava São Francisco por sua generosidade com o próximo e os minutos finais dela com o Dr. Charles foram bem legais por levantar a questão de que existem pessoas que colocam o bem-estar próximo à frente como é o caso dos médicos que foram usados como a referência para isso, mesmo qualquer um sendo capaz de tal ato em minha opinião. Com derrame ou sem derrame qualquer um deveria ser capaz de pensar e ajudar o próximo.

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