Uma nova versão de Amazing Stories está a caminho. The Twilight Zone voltará em breve. As duas se juntam às mais conhecidas (American Horror Story, Black Mirror, American Crime Story) para celebrar um ótimo momento para as antologias, fornecendo-nos desde as inspiradas histórias de Philip K. Dick’s Electric Dreams aos divertidos roteiros de Inside No. 9 e o descompromisso com a seriedade de Dimension 404. Mas quando se trata do gênero do horror (pura e simplesmente), não se engane ao voltar sua atenção ao FX: é o canal Syfy que tem a melhor antologia do gênero atualmente. Quando a adversária ao pódio concluiu em novembro mais uma temporada que demonstra claramente a falta de fôlego e inspiração, além de um roteiro pouco polido e um casting estranho, não resta dúvidas de que o posto pode ficar com a série desse texto por algum tempo.
Em primeiro lugar, No-End House é o título da segunda temporada de uma série norte-americana criada por Nick Antosca, sobre a qual conversamos ano passado, durante o #MêsDoHorror. Dessa vez, decidi não esperar até outubro para que possamos trocar nossas impressões sobre essa segunda temporada — até porque a terceira já está em exibição e também pretendo debater sobre ela antes do terceiro ano do projeto sobre séries de horror e mistério. Então, se você deixou passar o texto, pode dar uma passada por lá e ler um pouco mais sobre a produção. (O texto não possui spoilers.)
Como se trata de uma antologia que se renova por temporada, o segundo ano não traz nada do primeiro, além de alguns nomes na produção e desenvolvimento, como o próprio criador que assina ou co-escreve alguns roteiros. A recomendação, como você pode ver pelo texto sobre Candle Cove, é que você assista à primeira temporada antes de se aventurar nesta, mas também é possível pular aqueles seis episódios e se focar nestes, que corrigem e evoluem um material já interessante.
No-End House, a segunda temporada de Channel Zero
Para adaptar mais uma creepypasta para a televisão, Nick Antosca se inspira em NoEnd House, história publicada online por Brian Russell. O roteiro, no entanto, não se compromete a traduzir inteiramente o material inicial, usando aquilo que acha necessário — o que, no fim das contas, pode ser algo bom. No time de roteiristas, temos a maioria dos nomes retornando para ajudar na tarefa: Don Mancini, Harley Peyton, Erica Saleh, Katie Gruel e Mallory Westfall.
A premiere da segunda temporada foi em setembro, a tempo de conseguir uma ótima posição na lista dos 13 Melhores Episódios de Horror do ano, que compreendeu episódios exibidos entre outubro de 2016 e o final de setembro de 2017. Exibida às quartas-feiras no Syfy Imagine Mais, a produção contribuiu positivamente para a grade da emissora, que recebeu muitos elogios ano passado com Blood Drive, que deixou como legado, aos fãs de horror, a esperança de bons futuros projetos.

Na trajetória dos seis episódios há diversas reviravoltas. Por aqui, vou contar o básico para que aqueles que se interessarem possam decidir se deverão ou não dar uma oportunidade à série. Seguimos Margot Sleator, que passa por um período complicado em sua vida por conta da morte do pai, John. Este se suicidara sem muita explicação e a deixara perdida e angustiada para trás. Isso atrapalhou bastante a amizade com Jules, e as duas não têm mais a intimidade que costumavam ter antes do ocorrido. Ao se encontrarem nas férias, ambas saem para se divertir e esbarram com J.D., um conhecido de infância, e Seth, um charmoso desconhecido. Os quatro compõem os protagonistas da narrativa.
Quando sentam para conversar e se conhecer melhor (ou colocar o assunto em dia, no caso dos três amigos), eles ficam sabendo de uma misteriosa atração ali perto. Trata-se de uma casa na qual você precisa passar por seis ambientes assustadores. Segundo rumores, ela surge de ano em ano e fica disponível durante alguns dias em uma localização divulgada na internet. Passado o período, ela desaparece e pode voltar a ser vista em qualquer lugar do mundo. Como se trata de uma história de horror, e esperar jovens inteligentes seria utópico, os quatro decidem se aventurar.
A partir disso, depois de bons vinte minutos introdutórios nos quais os conhecemos, temos uma jornada desconfortável e tensa, que adianta muito do que será visto por eles. O primeiro episódio, This Isn’t Real, dá uma dica sobre esse mundo alternativo e macabro apresentado pela série. A casa, percebemos, não é apenas uma atração inusitada sobre a qual não se sabe muito, mas uma passagem para o sobrenatural. Margot tem um reencontro com o passado e a possibilidade de questioná-lo.

A segunda temporada de Channel Zero oferece o mesmo que diversos filmes têm feito no cinema. Tão bem cuidados e reflexivos que alguns passaram a usar o termo post-horror, uma nomenclatura estúpida, para defini-los. Isso pontua o atual estado da trajetória deste gênero. Os roteiristas e diretores não estão apenas interessados em ambientar o público em uma atmosfera aterrorizante: o objetivo se tornou pensar no medo como um estágio de observação do comportamento humano. Assim, algumas séries de televisão também não pretendem apenas divertir o público ou assustá-lo, mas fazer uma ponte entre o nosso mundo e o fictício — algo que Cult, sétima temporada de American Horror Story, tentou fazer.
Trilhar esse caminho de pretensão além da tela é apenas uma opção, mas quando todo o gênero está sendo expandido e ganhando reconhecimento até nas maiores premiações (Get Out no Oscar e Stranger Things no Emmy) não dá para não olhar desconfiado para as séries que não se interessam em expandir os limites propostos do horror. Channel Zero não foge dessa possibilidade e trabalha em cima das famosas histórias virtuais para levantar diversos temas interessantes. Se em Candle Cove falamos sobre crueldade infantil, entre tantos assuntos, No-End House não é apenas uma história criativa que se passa em um universo paralelo.

Na leitura mais superficial, a segunda temporada é uma alegoria sobre a morte e sobre o luto. Indo um pouco além, verificamos que se trata de como é feita a construção de uma pessoa como indivíduo. Todos somos feitos de memórias, e sem elas não conseguiríamos sequer desenvolver nossa rotina com a nossa independência costumeira. Assim, os seis episódios também servem para caracterizar e descaracterizar uma pessoa na definição que temos disso: vai retirando e desafiando as personagens a lidarem com a perda e o ganho de informações para questionar se isso as mudaria.
Com um pouco mais de esforço, percebemos o roteiro como uma grande metáfora para uma doença crônica — a casa como a prisão que vai devorando aos poucos a força daquele que a visita. Ainda: como depressão, afinal, Margot já estava se sentindo culpada pelo que acontecera com o pai, e o encontro com a casa acelera o efeito que a melancolia tem sobre si. Quem sabe se não fala sobre relacionamento abusivo? Sério mesmo! Ao ponto que os dois começam a conviver juntos, ela precisa doar mais e mais de si para que essa rotina deles seja sustentada. Aos poucos, vai desaparecendo.

No-End House fala, ainda, sobre escapismo. Em uma matéria recente do El País, houve uma reflexão sobre como estamos assistindo às séries de tevê. O texto fala sobre obsessão e traça algumas preocupações. Concordando ou não, não é difícil identificar que as séries de tevê, assim como diversas outras mídias, podem nos tirar um pouco de uma rotina enfadonha. Mas e se não precisássemos dessas ferramentas temporárias? E se tivéssemos a nosso alcance um mundo criado do nosso jeito, onde as coisas estariam sempre como queremos que estivessem? Não dá para não pensar nisso durante o caminhar da temporada, o que torna os discursos do antagonista críveis.
Amy Forsyth (das séries The Path e Rise) resolve um dos grandes incômodos da temporada passada ao protagonizar No-End. A atriz se sai muito bem nas complicadas circunstâncias de sua personagem e consegue vender facilmente as dúvidas e os conflitos pelos quais passa Margot, mesmo quando o roteiro desliza aqui ou ali. Aisha Dee (The Bold Type) também não fica muito atrás e desenvolve com certa facilidade algumas questões de Jules, sua personagem, como amizade e fidelidade. Vale parabenizar a série por escolher atores cuja idade se assemelha às personagens. John Carroll Lynch (que fez o palhaço Twisty na última temporada de AHS) contrasta bem com as duas e oferece sua experiência em cenas macabras. Vale destacar que sua personagem é a mais complexa por conta da mescla entre fantasia e realidade enfrentada por ela. Jeff Ward também não faz feio e se beneficia bastante da negligência do roteiro em seu primeiro momento para surpreender o público nos últimos episódios.

Mesmo com o foco claramente em Margot, cada um dos quatro jovens tem sua jornada dentro da série — algumas mais curtas que as outras. Essa é uma preocupação válida para que não pareçam apenas suportes à protagonista. Esta, aliás, forma com Julie uma dupla de heroínas interessante de acompanhar. Há momentos para cada uma delas mostrar seu potencial, nos quais uma complementa as falhas da outra.
Steven Piet assume a direção de todos os episódios da temporada e faz um bom trabalho, associado à fotografia de Isaac Bauman. Além de os atores estarem bem e saberem conduzir seus papéis, há um senso de monotonia que rapidamente se torna em perigo muito rápido. O público não é poupado de momentos macabros, como as diversas vezes em que algo é devorado em nossa frente. A crueldade, no entanto, é construída aqui de uma forma até bela, demonstrando uma preocupação com a estética que nunca parece bagunçada ou fora de lugar. A construção de algumas cenas quando associadas ao texto também levanta bons detalhes: o uso constante da água e da piscina, por exemplo, podem representar o mergulho que nossa própria memória faz todos os dias, ou mesmo as personagens nesse mundo estranho.

Nick Antosca possivelmente vigiou os roteiros de sua série de perto, mesmo os que não escreveu, porque há um grande senso de unidade por aqui. Há também um constante desenvolvimento, que vai cavando mais a fundo conforme avançamos. Depois do ótimo quarto episódio (The Exit, provavelmente o melhor episódio da série), pensamos que não há mais sobre o que falar, mas há — e como! Ganhamos tramas ainda mais melancólicas e uma reviravolta que pode ser previsível, mas que se desenvolve de maneira assustadora e tem um ótimo diálogo em sua conclusão. O texto não poupa suas personagens e mesmo as que saem ilesas vão perdendo diversas coisas pelo caminho. Não há explicações para tudo, o que é ótimo, deixando que boa parte desse universo seja debatida e elaborada por nós.
Se em 2016 Channel Zero fez sua estreia se igualando ao que a produção televisiva vem oferecendo dentro do horror, ano passado sua segunda temporada elevou a série diante das demais. Deixa-nos ansiosos para as duas próximas. Quem sabe se Nick Antosca não consegue provar que é possível contar histórias macabras sem necessariamente apresentar um roteiro bagunçado, constrangedoramente apoiado no grotesco? A recepção da terceira temporada, atualmente em exibição, demonstra que sim. Vida longa à produção do Syfy, então. Os fãs de séries de horror (de qualidade) agradecem. É quase uma recompensa para as maratonas sofridas que fazemos da última temporada de Slasher e de American Horror Story. Vida longa ao SyFy!
— — — —
MAPA DAS TEMPORADAS:
——–
Beware the cannibals.
















