A cada episódio que concretiza a formação desta sétima temporada Burn Notice se supera, e surpreende. E durante as últimas semanas, ao se deparar com tamanha qualidade, é difícil não pensar: “Como vai fazer falta!”.

Things Unseen: Ações e consequências.

E com esta sensação mista de nostalgia e satisfação, provocados pela despedida associada à surpresa de ser arrebatado com tamanha qualidade, foi-nos entregue um episódio subjetivo até mesmo em seu nome Things Unseen.

Ao decorrer dos anos Burn Notice sempre buscou trabalhar as escolhas de seu protagonista e as consequências de seus atos. Admiravelmente, a série conseguiu evoluir seu personagem, muitas vezes mais do que a própria trama, de forma em que ele consegue enxergar e sentir o quanto suas decisões e obsessões provocaram ao panorama de sua vida e a todos que o cercam. Se durante os primeiros anos de “Burn Notice”, Michael concentrara-se absurdamente em descobrir a razão de sua “demissão”, assim como quem a provocara, principalmente porque buscava retornar à vida de espião. Ao passar do tempo, ele começou a gostar da vida que havia adquirido em Miami e o quanto aquela “família” balanceava suas decisões quando havia um preço a ser pago por sua busca.

Assim, Michael recusou-se trabalhar para a “Gerência”, recusou a ser comparado com Simon, lutou ao lado dos amigos para destruir Vaugh, e acabou tornando-se fantoche de Anson por conta de Fiona. Porém por todo este tempo, trabalhando este tema, a série nunca havia abordado um cenário de forma tão complexa e verdadeiramente representativa, o quanto a cadeia de eventos e circunstâncias provocados ao circulo desta trama, ou como muitos gostam de pensar, o efeito colateral destes fatos.

Com a busca de tornar evidente aquilo que se passava despercebido, Things Unseen posiciona como núcleo de seu tema a traição, assim como todos os conflitos morais e psicológicos a cada individuo do elenco, mostrando o desequilíbrio causado por este ato e o quanto o mesmo pode ser capaz de separar e unir personagens.

Como plot principal, temos o desenvolvimento do trabalho de Michael para destruir a organização de James e os primeiros indícios de suas atitudes muito além de extremas para alcançar este objetivo. Westen é designado a eliminar um antigo colega de profissão, sabendo de sua “inocência” e sem ter o apoio de Strong para que isto não ocorra… Roger Steele acaba sendo traído pela CIA e pelo velho amigo Michael, tendo como destino um “sinto muito” antes de um tiro no peito.

Como contexto secundário, para mim, a abordagem mais sensacional do episódio. Temos a exploração do passado de Carlos retornando para assombrá-lo, com uma cadeia de ações infiéis e egocêntricas que destinaram a rebater suas consequências, pura e simplesmente, no próprio personagem.

Admiro muito a elaboração deste enredo primeiramente por conseguir, finalmente, enquadrar o personagem de Stephen Martines a trama da temporada, como ele verdadeiramente merecia. Porém, mais do que isso, a história de Carlos inicia-se com a sutileza de um passado que busca ser esquecido por alguém que sofreu muito durante a juventude e, mesmo sendo difícil, tomou as decisões corretas. Para transitar ao extremo de posicionar este passado como tema central de uma cadeia de eventos intensificados à sua dramaticidade, apenas pela teia de traições compostas pela ação de todos os personagens desta história…

Diferentemente dos amigos e da namorada, Carlos é aquele que não permite ser tomado pelo medo para não agir de forma correta, encarando as consequências de seus atos sem buscar amenizá-las com ações momentâneas que geram maiores estragos no futuro. E neste contraste, é fácil perceber seu deslocamento e o quanto seu personagem é distante dos “ideais” daquele grupo.

Carlos estaria disposto a ser torturado e morto sem entregar o amigo ou buscar soluções “remediáveis”, porque é alguém que expõe o sacrifício próprio acima de contornar esta dor dividindo com outros que não a mereçam. E tamanho contraste não poderia ser maior para expor a verdade à Fiona.

Em um episódio que inicia com sua personagem questionando as decisões de Michael e o quanto ao seu comportamento encontra-se mascarado sobre a desculpa de um disfarce. Fiona julga Westen e o quanto ele se desvirtua para completar sua missão. Como sempre o fez por todos esses anos, e por justificar seu afastamento em não suportar as decisões do espião. Porém, Glenanne termina por sentir na pele suas próprias concepções quando se encontra ao outro lado deste papel, e depara-se questionada por Carlos, que expõe suas ações em busca de salvar um homem e acaba provocando a morte de sete pessoas inocentes.

Trágico aos fatos, mas irônico às circunstâncias, Fiona termina expressando a frase que ela sempre ponderou em Michael “Eu não tive escolha”.

A verdade é que as decisões tomadas por toda aquela equipe nunca são as mais fáceis, mas também, não são as mais corretas. Michael age em prol de um “bem maior”, e por isto se assemelha tanto ao próprio inimigo, James. E sempre foi assim, para com o restante de sua equipe, como Sam que enterrou o melhor amigo, ou Jesse que foi “queimado” por Michael e acabou atirando no espião para salva-lo. E Fiona, que se apaixonou pelo homem que entrou disfarçado em sua vida. Todos representam o símbolo de um grupo de amigos que foi unido por aquilo que corrompe: a traição.

E este, talvez seja o grande pormenor que os destacam e os distanciam do restante da sociedade. Não adianta negar a sua verdadeira face, como assim fez Fiona até se deparar com Carlos, ou acreditar ser o mocinho desta trama até perceber que irá assassinar um amigo, como Michael.

De fato, todos têm a sua alma manchada por sangue de outros que se envolveram em seu caminho, e a única maneira de mudar este cenário, é não mais contornar as consequências.

7×11: Tipping Point

Pessoas e Instituições.

Há muitos anos li em um livro, maios ou menos, a seguinte frase: “Entenda que o ser humano é falho em sua essência, enquanto instituições são incorruptíveis.”. De fato, em uma percepção imediata e uma análise superficial, instituições são formadas para a satisfação do interesse coletivo, e sim, em sua origem elas são incorruptíveis. Os atos que denigrem a imagem de uma instituição são provocados por ações humanas, e por muitas vezes, atos egocêntricos que não respondem por uma voz coletiva. Isto, em sua maioria. E porque abordar este foco, ou questionar algo tão complexo de diretrizes políticas? Porque em uma visão critica de nossa sociedade, todos nós vivemos embasados nesta premissa. Assim como Michael Westen…

A história de Michael e os motivos que o determinaram a tornar-se um espião são de conhecimento geral ao público, assim como compreender que seu personagem transformou-se em um aliado de uma das maiores agências de inteligência do planeta, tenha sido um fato ocorrido perante a necessidade de um jovem encontrar a sua própria identidade e compreender o seu lugar no mundo. Não é irônico e nem ao acaso que uma pessoa criada em um lar turbulento e cercado pela violência venha a buscar a sua satisfação pessoal tentando “concertar” os erros do mundo.

E foi assim que Westen se transformou no recurso mais eficiente da CIA, e da mesma forma, também se tornou o grande “calcanhar de Aquiles” da agência. Porque Michael sempre dedicou a própria alma às suas missões, acreditando que um ato de atrocidade imediato seria a ferramenta necessária para impedir uma guerra.

Acreditar na própria causa, foi a única arma que Westen precisou para alimentar o desejo de descobrir sobre sua “queima”, assim como aliar-se a personalidades questionáveis ao decorrer deste caminho. Ele sempre foi fiel ao fato de que havia sido uma vítima do “mal” ao qual passou a vida inteira tentando destruir, e buscar a origem deste “mal” era o que alimentava sua gana em sempre aceitar novas missões e desafios.

Porém, para tantas metas e desafios é necessário um grande alicerce, estrutura esta que para Michael era simbolizado pela agência que o recrutara. Quando o espião encontrou inimigos pelo caminho que representavam elos com a CIA, Westen sempre acreditou na culpa do homem, mas na inocência da instituição. Até Tipping Point.

Em um episódio totalmente dedicado a romper, por definitivo, com a fé de Michael Westen, fomos apresentados ao momento onde a “grande instituição” expõe suas falhas. Construída de maneira gradativa, e permitam-me dizer, perfeita em seus detalhes. A storyline desta temporada provou-se fantástica…

Sempre acreditei que um grande vilão do passado retornaria ao fim de Burn Notice, apostei alto em Larry ou Vaugh. O primeiro, porque nunca vimos o seu corpo e por ter representado muito à formação de Michael como homem. E o segundo, porque ele tinha grandes chances de reconstituir suas “alianças políticas” e assim, retornar. Porém, admito que nunca me passou pela cabeça, o retorno de Simon Escher.

O psicopata que atordoou a racionalidade de Westen e o fez questionar seus verdadeiros valores, pela primeira vez na série. Simon era o símbolo de tudo que havia de errado no mundo para Michael, era a representação de uma personalidade criada pelo “mal” que ele constantemente, tentava combater. E foi o próprio Simon que representou o verdadeiro elo, em finalmente encontrar os responsáveis pela queima de espiões na CIA.

Durante a season finale mais épica da série (até agora), Simon destruiu metade de Miami e fez com que Michael arriscasse a própria vida, apenas para detê-lo, e não por objetivos reais de repostas (àquela época). Prende-lo significou mais do que se aproximar de seus objetivos, representou manter a sua fé em que ele ainda agia aliado ao que era certo.

E o que acontece quando vemos o nosso deus apertando a mão do diabo?

A associação de Simon com Strong pode ser visto como a representação de um grande estopim. O momento de epifania onde nos damos conta da verdade, aonde Michael vê a sua fé desmoronar. E quando não somos mais guiados pela crença, podemos ser guiados pela fúria (Matar Simon), tomados pela loucura (Não entregar James e Sonya à CIA), até reencontrar a racionalidade (expor toda a verdade a James) e almejar novos ideais (lacuna em aberto).

E este é o grande ponto de interrogação, pois esta lacuna em aberto é o que determina o surgimento de personalidades como James, ou “heróis” (como citou Simon) que acreditam nas próprias virtudes e buscam corrigir a vida desperdiçada, aceitando as consequências de seus atos e compreendendo o seu passado, para construir uma nova verdade na qual vale a pena lutar como ideal.

E esta é a grande reviravolta, ou como adoramos nomear, o plot twist da temporada. Eu diria até mesmo o grande “xeque-mate” de Burn Notice. Encaixado em um momento exato e com uma história perfeita, a série coloca em dúvida a própria racionalidade do telespectador, e posiciona o protagonista ao extremo de seus limites para, finalmente, descobrir a sua verdadeira identidade e qual o seu lugar no mundo.

Calendário da Série:

Os dois últimos episódios de Burn Notice serão exibidos nos dias 05 e 12 de setembro, não haverá episódio inédito durante a próxima semana.

Então, até lá…

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