São os seus olhos.
Perigo: spoilers!
“Going to ask where we’re going?” – Mike
“Nope.” – Jesse Pinkman
“Bullet Points” me lembrou um certo episódio de outra série famosa da AMC: “The Good News”, o terceiro da quarta temporada de Mad Men. Ambos possuem funções similares dentro do contexto de suas temporadas, estabelecendo novos desenvolvimentos baseados em eventos passados – lá com a visita a Anna Draper, aqui com o retorno do desgosto que Gus tem por Jesse como parceiro de negócios – e novos tipos de conexões entre personagens, que serão vitais a curto e longo prazo. Ambos também são estranhamente estruturados, com dois longos segmentos tomando conta e mantendo pouca conexão.
A diferença? “Bullet Points” é bom pra caramba. Em Mad Men a divisão pareceu auto-indulgente, uma maneira pobre de preparar terreno que Matthew Weiner achou e executou sem a coesão narrativa que esperamos da série e do seu calibre. Em Breaking Bad, isso soa natural. Há uma linha de pensamento urgente e honesta nessa transição. As tramas de Hank/Skyler e a de Jesse não são os opostos exatos uma da outra, são apenas diferentes e frutos de um mesmo sentimento. Sim, o posicionamento das duas em um mesmo episódio é excêntrico, um produto de falta de tempo contra necessidade, mas Vince Gilligan não tenta traçar diferenças. Ele as usa para energizar a temporada e espremer tudo que pode dos personagens. Percebam como as conversas com Hank são dadas na escuridão, com uma tensão quase que ensurdecedora, e como a busca e frustração de Walt são executadas de tal maneira que se ele entrasse na casa de Gus com uma metralhadora na mão, tudo ainda faria perfeito sentido.
Também ajuda o fato delas serem incríveis, cada uma com os seus próprios méritos.
Por motivos óbvios o episódio começa com a do jantar, no qual Skyler – cada vez mais controladora – praticamente roteiriza o reencontro da família com Hank. Ela se preocupa com a frase certa no momento certo. Com o balanço de emoções. Com as expressões faciais e movimentos corporais. Foi uma longa, maravilhosa cena para Anna Gunn, que consegue interpretar tantas Skylers com tanto cuidado, mas ainda assim passa algo de novo no meio dessa inexperiência criminal proativa: tratando Walt com aquele tom de voz quase didático e abrindo grandes e ameaçadores olhos de tubarão ao lembrá-lo (sempre em frases curtas) do que fez. Assim, ela não só garante que a mudança da personagem seja natural, oposto do claro produto da imaginação de um roteirista que é, como mantém uma interessante tensão na relação de sua personagem com Walter.
A trama então segue e o pequeno show dos dois continua. A mentira cola. Todos simpatizam. Walter Jr. quer um carro. Normal, até mesmo calmo demais pra série.
E… É isso. Bem no meio, o episódio parece acabar. Claro, nós temos aquela linda cena que encerra tudo e ao mesmo tempo põe uma interessante interrogação na história, onde Hank fica desconfiado e compartilha um pouco do caso de Gale com Walt – meio que ciente de que ele está escondendo algo, meio se achando bobo por acreditar nisso. Mas Jesse só aparece na metade. Não há qualquer tentativa de entrelaçar as duas histórias, e a única conexão existente é dada por algo óbvio: todos estão em perigo. A virada que se dá é drástica. Somos jogados em uma espécie de corrida contra o tempo quando as notícias sobre o Lar Pinkman se espalham, Mike conversa com Gus e Walt teme que tudo vai terminar.
Até onde ele se importa com o garoto? Existe um momento nisso onde a preocupação desaparece e sobrevivência toma conta? Será que ele, como Heisenberg, realmente confia no parceiro?
A série brinca com essas perguntas, mantendo-as de lado ao mesmo tempo em que faz zig-zag e coloca a busca de Walt e as idiotices de Jesse em paralelo. Não é mais rápido em si, o ritmo não muda, só a nossa impressão dele que sim – tamanha coerência como um todo é outro motivo pelo qual a transição entre tramas funciona. Jesse tem sido o personagem principal da temporada até agora, Breaking Bad é uma das únicas séries em exibição verdadeiramente sem medo. “O que vai acontecer com ele?” não é uma pergunta retórica, é realidade.
Afinal de contas, que diabo de vida é aquela? Qual o objetivo? Tentando se sentir melhor ao criar um ambiente repugnante, Jesse só se afoga cada vez mais. E ele não percebe. Ele está paralisado. No passado, parecia compreensivo quanto ao que fez. Quanto a Jane e todas as outras mortes que causou. “I’m the bad guy”, disse na premiere da terceira temporada. Na quarta, e mais especificamente em “Bullet Points”, não existe nada além disso. Não existe redenção. Não existe uma válvula de escape nas drogas. Não existe implorar pela vida de alguém ou realmente ligar para a pessoa ao seu lado. Jesse tenta fazer todas essas coisas em “Box Cutter”, “Thirty-Eight Snub” e “Open House”, recebendo nada em troca. Assim, quando algo enfim existe, ele apenas segue. Indiferente ao fato desse algo ser uma viagem suspeita pelo deserto com um conhecido assassino.
Jesse não está sem direção, ele sabe muito bem para onde está indo. Apenas não se importa.
Outras observações:
– A escolha de música durante as cenas na qual Walt procura Jesse talvez seja a única parte ruim da temporada até agora. Não chega a matar a intenção da trama ou nada (longe disso), só me tirou um pouco do momento e no seu estilo genérico, falhou em passar a inquietação que aquele momento representa para o protagonista.
– Permanecendo firme na ideia de orgulho, adoro como Walt se sente ofendido ao ver Gale sendo confundido com Heisenberg. Em algum lugar ali, ele ainda pode sentir um pouco de vergonha do que é, mas ama todo aquele poder, o seu produto e o respeito. Vê-los sendo tirados dele pouco a pouco é pior do que qualquer câncer.
– As aberturas ficam cada vez melhores, dessa vez com Mike sobrevivendo a um ataque do cartel. Algo que não só antecede o contraste nos finais das duas tramas do episódio (do frio dentro do caminhão ao calor deserto, que nem das cores escuras do quarto de Hank ao longo caminho que Jesse e Mike vão percorrer sob o sol), mas nos lembra de que na situação atual, Gus não pode perder aliados – mesmo que eles sejam instáveis como a nossa dupla de protagonistas. Também é sempre bom ver Mike chutando algumas bundas e soltando grunhidos.
– Por motivos óbvios, o “vazio” é complicado de ser interpretadao. Mas Aaron Paul consegue, como de costume, ser fantástico em exprimir não só isso, mas a intensidade com a qual Jesse consegue se afastar de tal estado: aquele longo e asfixiante zoom na sua cara enquanto Walt tenta fazê-lo reviver cada momento da morte de Gale… Uau. Dá pra sentir as engrenagens se movendo no cérebro do personagem de um modo que é indescritível (e depois dessas reviews, já dá pra imaginar o quanto me dói não poder analisar e destrinchar com várias palavras algo tão poderoso quanto aquele olhar).
– Apropriado: Jesse cortando o cabelo e Gale gravando a si mesmo cantando. Espero que Breaking Bad termine com todos carecas, dançando aquela música no meio do deserto ao estilo Twin Peaks.














