
White Collar segue bem sua temporada, mesmo caindo um pouco de qualidade.
Spoilers Abaixo:
3×07: Taking Account
Uma das vantagens em produzir uma série que não possua uma quantidade muito grande de arcos é a possibilidade de desenvolver seus personagens sem a necessidade de se prender às suas histórias. Por esse motivo, quando White Collar começou, há quase dois anos, Mozzie logo se estabeleceu como um personagem cômico e cativante. Assim, sempre que os roteiristas da série não tem para quem recorrer, o amigo de longa data de Neal sempre surge como válvula de escape para o roteiro. Taking Account é um episódio que segue essa linha de raciocínio, e, mesmo sem o imenso destaque dado ao personagem em Dentist of Detroit, Mozzie consegue conferir sustentação ao roteiro.
Após descobrir que a conta de Sara fora zerada repentinamente, Neal e o FBI passam a investigar um roubo de 125 milhões de dólares no Manhattan Mutual Bank, executado por um golpe de um hacker, que logo revela-se como Volture, um dos maiores cyber-criminosos da atualidade. Tentando encontrá-lo como prioridade máxima, Peter e Neal recorrem à ajuda de Mozzie, profundo conhecedor desse mundo. Mas, para surpresa de todos, Volture é na verdade uma mulher, que identifica-se como Sally (em uma interessante interpretação de Lena Headey, a Cersei Lannister de Game of Thrones). Enquanto isso, Sara se muda provisoriamente para a casa de Neal, passando a desconfiar das atividades do namorado.
Apesar dos pequenos diálogos entre Sara e Neal e da importante descoberta da primeira sobre o esconderijo do tesouro, é impossível não caracterizar Taking Account como um filler. Como já disse na review anterior, isso não é por si um problema, principalmente para White Collar, que sabe fazer esse tipo de episódio com muita competência. O único inconveniente é que o roteiro não soube trabalhar de maneira satisfatória o cliffhanger de Scott Free, limitando-se a citá-lo já com alguns minutos de tela, o que acaba sendo um pouco frustrante.
Apesar disso, o fato de Sara ter encontrado a identidade falsa de Neal serve para atiçar a curiosidade da investigadora, que parece receosa em confiar plenamente no namorado, principalmente depois das estranhas atitudes de Mozzie ao descobrir que ela moraria com Neal por algum tempo. E fica claro que a garota é personagem-chave para o desenvolvimento do plot principal da temporada, principalmente por ser o principal motivo para a insegurança de Neal em concluir o maior golpe de sua vida.
Nesse sentido, é interessante ver o casal esbanjando uma fortuna que não é deles para atrair a atenção de Volture. Ao ver Sara extremamente empolgada com a situação, Neal parece perder grande parte de sua insegurança, voltando a ficar animado com a possibilidade de reviver os momentos de Palazzo Sasso, nas palavras dele próprio. Enquanto isso, Mozzie finalmente pôde dormir com alguém depois 37 episódios, encontrando uma pessoa com quem se identifica plenamente. Essa situação serve para contrapor o momento vivido tanto por Mozzie como por Neal. A facilidade com que o primeiro tem para ignorar o que acabou de passar para seguir em frente com seu golpe contrasta com o clima de instabilidade vivido pelo segundo, que hora parece querer desistir de tudo, para no momento seguinte se perguntar se isso vale realmente a pena. Essa “bipolaridade” de Neal é um tema que os roteiristas tem sabido explorar de maneira muito competente, possivelmente utilizando-a para concluir a evolução iniciada pelo personagem no princípio da série.
Exatamente pelo fato de o episódio promover uma reflexão sobre as personalidades de seus personagens, o caso da semana acaba destoando do restante do episódio. Primeiro porque os roteiristas optaram por, em dois episódios consecutivos, abordar um tipo relativamente semelhante de antagonistas, uma vez que Volture tem muito do que Scott Rivers apresenta em Scott Free. Até mesmo a identificação com Mozzie soa muito parecida com a que o garoto do episódio anterior tinha com Neal. Apesar disso, a condução da investigação aparece de maneira satisfatória, provocando um desfecho divertido e diferente, como a série sempre costuma fazer.
Trazendo um episódio de nível um pouco abaixo dos anteriores, Taking Account ainda assim consegue explorar de maneira inteligente a personalidade de seus personagens, cada vez mais levantando a questão sobre a possibilidade de Neal abandonar tudo que conquistou. E, se abusa da inteligência do espectador em alguns momentos (a decisão por colocar os valores pulando na tela quando Sara e Neal fazem sua farra soa demasiado invasiva), ainda assim se estabelece como um ótimo divertimento.
3×08: As You Were
A característica que White Collar mais tem prezado nesta primeira parte de sua terceira temporada é o foco em todos os seus personagens, aproveitando-os para calmamente desenvolver seu plot principal, que por natureza apoia-se nas ideologias e sonhos de seu protagonista. Assim, nada mais natural que produzir um episódio em que um de seus personagens se destaca enquanto mostra para seu espectador que a história que fornece todo o argumento dessa temporada está caminhando para o primeiro de seus momentos críticos. O problema é que As You Were, diferente de outros episódios com propostas semelhantes, não consegue manter uma coesão de roteiro satisfatória, entregando o foco a um personagem que, apesar de simpático, não consegue trazer o mesmo impacto que os outros.
O episódio começa exatamente no ponto em que Taking Account termina, com Sara descobrindo toda a verdade sobre o tesouro escondido por Neal e Mozzie, e terminando com seu namorado logo em seguida, ainda chocada pelo que vira. Em seguida, a casa de Jones é invadida, e ele descobre que seu amigo, Jimmy Wilson, corre perigo. A White Collar Division descobre então que Wilson é suspeito de assassinato na mina de paládio que trabalha a mando da Barett-Dunne Security, chefiada por Henry Van Horn. Enquanto isso, Neal desconfia que Peter ainda mantém a lista parcial dos artigos encontrados no submarino, e planeja com Mozzie invadir a casa do amigo para procurá-la.
Começo minha análise com o caso da semana, que dá destaque a um personagem pouquíssimo explorado durante a série, Jones. Exatamente por esse motivo, ele parece incapaz de tornar uma história focada nele convincente. É verdade que na realidade o roteiro o usa como desculpa para introduzir sua história, raramente o colocando no centro das atenções de fato, mas as tentativas dos roteiristas em tornar o passado dele interessante acabam fracassando pelo simples motivo de soarem muito dispersas. Jones é um excelente personagem de suporte, mas não tem peso o suficiente para que uma história baseada nele seja interessante naturalmente, necessitando de um pouco de esforço por parte de seus roteiristas, que fazem sua parte até certo ponto. Por exemplo, o diálogo entre Peter e Neal que os leva a descobrir o motivo de todos aqueles acontecimentos se dá de maneira inteligentíssima, provocando o espectador, que consegue participar da investigação de um modo que jamais soa artificial. Em contrapartida, o desfecho do caso se dá com uma cena de ação simples demais, onde o roteiro falha em gerar a tensão necessária para que a situação seja convincente.
Apesar dos pequenos problemas de roteiro na investigação, os momentos em que a história trata de seu arco principal são interessantíssimos. A começar pelo término da relação entre Sara e Neal, que aprofunda no criminoso a insegurança que ele vinha sentindo nos episódios anteriores. Por esse motivo, o conselho de seus amigos se torna importantíssimo para que ele tome as decisões a seguir, e se as palavras de Jones não são suficientes para que ele tome uma posição, ao ouvir Peter dizer que o compreende, Neal decide que não é hora de revelar a Mozzie a verdade sobre o manifesto. Além disso, os roteiristas acertam ao não exibir um Neal Caffrey vulnerável e afogado em mágoas (não condiz com a personalidade do personagem), e prefere se utilizar de recursos mais sutis, como afastá-lo da investigação, onde ele sempre parece deslocado em relação às anteriores. Infelizmente, a intenção de afastar o protagonista do tema principal de As You Were acaba gerando um problema de coesão de roteiro, pelo fato de as histórias parecerem demasiado distantes uma da outra do início ao fim do episódio.
Exatamente por apresentar alguns problemas não vistos nos outros episódios desta temporada, As You Were se revela como o episódio mais fraco da mesma. Apesar disso, é inegável que os roteiristas estejam fazendo um ótimo trabalho ao desenvolver o lado psicológico de seu protagonista, apresentando uma evolução muito mais evidente do que nos anos anteriores. Por isso, embora As You Were não seja perfeito, revela-se como um passo importantíssimo para o que virá a seguir.













