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Perigo: spoilers!

“Motivation. Oh. As in “motivation” motivation?” – Saul Goodman

Breaking Bad é fascinada por várias coisas. Ela adora usar algumas pequenas técnicas visuais como o foco constante em pequenos objetos, ela preza o distanciamento dos seus personagens na imagem, dá predominância ao vermelho e verde em roupas/lugares, escolhe músicas um pouco ocultas, até mesmo sombrias em contexto… O que é ótimo, não só por elevar o nível de precisão artística da série, como por reproduzir de maneira palpável o único elemento que domina cada um dos personagens: obsessão. De Walt até Jesse, passando pelos Primos e Victor, todos aqui possuem uma espécie de fascinação inquieta por alguma coisa (tanto que entre analisar os seus motivos e mostrar das maneiras mais violentas possíveis as suas consequências, a série pode ser vista como uma análise de tal condição).

“Open House” alia isso ao seu crescente senso de expansão para criar um belo e calmo episódio – no qual, através de três pequenos contos, essas tais obsessões saem de controle, são alimentadas ou simplesmente empacam.

Na primeiro, temos Marie. No passado, a série costumava usar a personagem como uma espécie de muleta. Precisamos expor um ponto de vista da Skyler para a audiência? Fácil, coloque-a conversando com Marie. Precisamos que Hank entre na casa dos White? Um almoço na beira da piscina, cortesia de Marie. Precisamos de uma trama para preencher espaço? Cleptomania! Estrelando, é claro, Marie. Mas assim como vários personagens, ela começou a se tornar um elemento ativo lá na segunda parte da perfeita (repito: perfeita) terceira temporada, o que não só aumentou o número de vítimas nas costas de Walt como realçou – e ainda realça – todo o arco de Hank. Uma coisa é ouvirmos o número de mortes no acidente do Wayfarer 515 e vermos ele tentando amenizar a situação para os alunos, outra coisa completamente mais impactante é o choro numa face conhecida como resultado dos seus atos criminosos.

E a saída? Roubar, criar personagens, trabalhar fantasias elaboradas e se tornar mais ambiciosa com o tamanho de suas mentiras, ao passo que o seu marido se torna menos ambicioso com… Tudo.

Isso é uma prova da qualidade de Breaking Bad. Pegou uma obsessão crua e conseguiu transformá-la em um argumento maravilhoso sobre exaustão emocional nas beiradas daquele mundo. Pode não ser integral ao que achamos ser o grande arco da temporada (Gus VS. Walter ao som de “The Final Countdown” no meio do deserto), mas é imprescindível. Faz parte do padrão da série ao esticar, pouco a pouco, o seu universo e criar um padrão no qual todos os eventos são absorvidos – ou seja, não é só violência e sangue. É drama, é tenso, é bem feito, é bem fundamentado e, mais importante, é evolução.

Não só isso, mas uma evolução que soa orgânica dentro da proposta da temporada. Várias séries fazem essas pequenas “promoções” em importância com uma cara de pau imensa, Breaking Bad lentamente nos coloca em uma posição onde isso é possível, suave. A tal expansão não é só em consequências e profundidade, ou até mesmo no tipo das situações. É em como o ritmo se ajusta, como as pequenas engrenagens narrativas ao redor se movem para acomodar novos elementos e sobre como dá pra sentir uma gradual mudança de tom nas cenas: do capricho doloroso de ver alguém criando tantos detalhes para uma vida falsa, para a pequena tensão de ver Marie quase ser pega, chegando ao momento de pura devastação emocional com o seu choro na delegacia.

O que nos leva ao segundo conto da semana, o de Skyler. Nas semanas passadas eu comentei sobre como ela estava cada vez mais se deixando ser arrastada pelo campo de força gerado pelos pequenos vislumbres que teve de Heisenberg – e aqui isso acontece mais uma vez, com os machucados causados por Mike e um misto de atração/carinho pelo marido como resultado.

Em “Open House”, essa inclinação para decadência se torna uma obsessão já completamente realizada. Assim como Walter, ela tenta impor limites ao que está fazendo. Ela tenta se justificar. Bogdan foi rude com o seu marido, Skyler diz. Ele sempre foi assim e a sua incoerência em relação a uma oferta de negócios exige medidas mais drásticas (sem violência até agora, claro). Mas a sua perseverança em cometer aquele crime não é nada mais que orgulho ferido em busca de reparação, assim como os vários problemas que Walt criou por causa disso. Sim, ela parece ser mais esperta que ele nesses aspectos. Sim, ela soube se retirar na hora exata semana passada. Só não pretende levar desaforo pra casa.

Ao contrário de Jesse, na última e terceira história dessa curta semana para a série.

Tem sido uma jornada difícil para o personagem, mas é interessante notar que existe uma espécie de aceitação comedida em tudo que ele faz durante esse episódio. Toda a quantidade de merda que a vida continua a jogar, Jesse parece estar guardando e absorvendo dentro de si – não bem ou mal, apenas se deixando cansar com o peso. Nesse ponto, ele até parece resumir cada um dos seus pensamentos a isso, focado em remoer situações e fatos depois de não conseguir esquecê-los com kart e variadas distrações.

Onde Jesse vai terminar? Quando Jesse vai terminar? Talvez ele não mereça tanta simpatia. Ele matou alguém. O trabalho dele perpetua um incansável ciclo de violência e vício. No final das contas, o mundo ficcional da série seria um lugar melhor sem ele.

Mas ela nos fez amá-lo. Essa maldita, brilhante série nos fez torcer por alguém assim.

E o futuro dele me dá medo.

Muito medo.

Outras observações:

– Estou quase certo que Huell é o melhor nome de todos os tempos.

– Hank pegou o caso da morte de Gale. Melhor esperar e ver no que isso vai dar.

– Walter foi renegado a um papel coadjuvante nesse episódio, mas gostei de vê-lo dando dedo pra câmera e depois reclamando da falta de privacidade no seu local de trabalho… Um laboratório que fabrica metanfetamina, claro. Leves e apropriados lembretes do quão defensivo/assustado ele está com Gus (que ainda não voltou, por sinal).

– Muito se falou essa semana sobre as negociações entre a AMC e a Sony para uma quinta e final temporada, então meio que sinto a obrigação de comentar aqui: não existe motivo para se preocupar. A série vai melhor do que nunca na audiência, papa Emmys como poucas e com a imagem do canal danificada por vários escândalos (o cancelamento de Rubicon, a saída de Frank Darabont do comando de The Walking Dead, as declarações da showrunner de The Killing e o terrível season finale da série), o AMC não seria bobo o suficiente para perder uma das séries mais amadas dos últimos anos – que no final, apenas acabaria sendo salva por outro canal.

A grande questão ainda no ar é o número de episódios para essa quinta temporada, e se ela vai ou não ser a última. Assim que tudo se resolver, espere informações lá no Twitter do site: @SerieManiacos.

 

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