O rei está nu!

Spoilers Abaixo:

A silhueta de Kelsen Grammer é o ponto de convergência de ambos os lados da narrativa. Em um extremo, vemos um rosto repleto de ambiguidade, cuja primeira impressão é a de justamente representar o ganho de confiança e recuperação da saúde do protagonista nos últimos episódios. Ao final, percebemos que é uma sensação ilusória, encontrando-o mais fragilizado do que nunca, tanto psicologicamente quanto de um ponto de vista da saúde.

O grande mérito dessa segunda temporada é o de conseguir ser um oposto exato do primeiro ano. Enquanto ali Kane, mesmo com os primeiros sintomas, desfilava com calma sobre todos ao seu redor na construção de alianças a seu favor, aqui é encontrado contra ele um inferno astral que vai aos poucos tomando conta das diversas facetas de sua vida: A perda de poder, quebra de coalizões, ressentimento da esposa e da filha, tudo parece funcionar contra ele. É o purgatório dos seus atos, construído de maneira nada sutil, mas que consegue funcionar pela dinamicidade que entregou à narrativa.

Kane caiu com força, em um retrocesso que dificilmente poderá ser recomposto tão cedo. Claro que estamos falando de uma narrativa televisiva, onde para continuar algo terá que funcionar para mantê-lo no poder, mas essa possível mudança não tira a sobriedade com que a exploração desta queda foi retratada até o presente momento. Toda a arrogância com que tratava os seus rivais políticos se virou contra ele, pois as variáveis querem finalmente ter a possibilidade de tirar a constante da equação.

Dentro de tudo isto, cabe analisar a evolução (ou seria involução?) da personagem de Mona Fredricks. Pintada inicialmente como uma humanidade dentro da máquina pública, percebe-se sua mudança desde o início da temporada por uma pessoa disposta a fazer de tudo para conseguir alavancar sua causa. Evidentemente, os motivos são mais humanos que os de puro aparelhamento de poder como da maior parte dos personagens, mas os meios não deixam de serem os mesmos empregados por qualquer um: Troca de apoios.

Esta desvirtuação dos personagens também é encarada na figura de Sam Miller. O seu ódio pelo prefeito e vontade de obter “a verdade” o corromperam por completo. Os métodos usados por ele são o roubo, a fraude, o uso do medo, a única diferença básica para o seu algoz é a falta de poder direto. E, mesmo assim, com o controle de um veículo da imprensa em mãos e o crescimento deste ego, isto aos poucos passará a ser contornado em sua provável ascensão no Quarto Poder.

O mais notável, no entanto, ao seu falar em tramas paralelas foi a de Zajac. Administrando uma campanha em estado vegetativo, é impressionante a capacidade do homem de conseguir continuar sobrevivendo apesar de tudo. Pode ser um péssimo estrategista político, como é percebido por cada peça que coloca no tabuleiro, mas é um perfeito fantoche para ser usado nas mãos de outras pessoas. Ou melhor, um fantoche de outro fantoche, como é enfatizado na cena que mostra o total controle que Doyle detém sobre Claire Mann. Mas, diferente do tesoureiro, esta aos poucos tenta se libertar com novas alianças em vez de tentar uma pura e simples troca de chefe.

Os jogos por poder estão cada vez mais acirrados em Boss. Pela qualidade desse “Consequence”, pode-se esperar um fim de temporada que no mínimo consiga colocar cada um dos seus diversos personagens em uma situação de tensão e fora de sua zona de conforto. Quem ganha com isso é o espectador e, talvez, o contribuinte de Chicago. Mas, em ambos os casos, é preciso primeiro esperar para ver exatamente como a conclusão desses duelos se dará.

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