O momento da virada (?)

Spoilers Abaixo:

O que qualquer governante teme acima de tudo é qualquer ameaça fundamental ao seu próprio poder e à sua existência. Para evitar isso, qualquer meio consequentemente será utilizado sem pudores e sem reflexão cuidadosa sobre os seus efeitos. No fim das contas, e isso é um fato, quem terminará sempre pagando por essas medidas para preservação do poder é a população.

Kane não é diferente nesse aspecto; Nem tão pouco Meredith; Ou ainda qualquer outro dos personagens ligados à ala política da trama de Boss. A questão é bem simples na verdade: ter poder é uma das sensações mais prazerosas que alguém pode experimentar, e assim como qualquer droga com efeito semelhante, é difícil fazer o “viciado” nele o larga-lo.

Quando analisamos esse episódio sobre essa ótica, é fácil compreender como a estrutura de dominação se estende para além da própria esfera política, atingindo inclusive áreas que lhes são totalmente estranhas a princípio. Alguns exemplos podem ajudar a elucidar este argumento: a relação de Emma com Darius pode até lembrar o telespectador de certa forma (e essa com certeza é uma das ações propositais do roteiro) a história de a “Dama e o Vagabundo”, mas quando se olha bem o que há por trás, fica claro que ela simplesmente o usa para satisfazer suas necessidades químicas e sexuais, e não há a ilusões de que quando ela encontrar um substituto, ele será “cortado”. Outro exemplo interessante é o de Kitty e Sam: eles podem até estar desenvolvendo um interesse mais pessoal, mas o que cada um realmente quer é usar o outro em seu próprio benefício (ela eleitoral, ele jornalístico). Enquanto suas ações lhe forem reciprocamente favoráveis, essa relação se manterá.

Aliás, e isso é curioso, em ambos os exemplos, a dominação se estabelece essencialmente pelo sexo, sendo que em geral é a mulher (Kitty e Emma) que o utiliza para estabelecer sua posição de controle sobre o dominado (Darius e Sam). Notem também que é justamente essa “ferramenta” que Meredith teve que se utilizar no final da temporada anterior, o que de certa forma foi visto por ela como um retrocesso na maneira de se impor sobre aqueles que pensava controlar.

Por sua vez, os homens de Boss mantém seu poder com demonstrações de habilidade na arte de manipular, por entenderem que essas duas palavras são de certa maneira sinônimas. Vejam como eles atuaram nesse episódio: Zajac se utilizou habilmente dos conflitos sociais que se agravaram nos bairros que estão recebendo os moradores de Lennox Gardens para tirar seu nome do foco da mídia e ganhar alguns pontos com parte da população; o governador Cullen aproveitou os distúrbios para, enquanto enviava a Guarda Nacional para Chicago a fim de restaurar a ordem, dar a entender sutilmente que apoiará a rival de Zajac nas eleições; Já Ross botou seu obediente subordinado Trey, o traficante que quer subir na vida, para agravar os distúrbios pela cidade aumentando a tensão entra a polícia e a população para prejudicar Kane. Em todos os casos, a cadeia de dominação é clara, não existindo a sutileza do disfarce sentimental envolto em sexo como há com as mulheres. Nesse sentido, esse foi um episódio sensacional pela forma como essas características foram apresentadas ao público.

No meio disso tudo, é óbvio que “Backflash” resolveu apostar no paralelismo entre como Chicago vai gradualmente saindo do controle e Kane vai beirando a uma insanidade intensa, enquanto os “remédios” para a(s) sua(s) cura(s) são sobrepostos cuidadosamente no decorrer do episódio. Percebam que até as fases do tratamento de ambos são similares: enquanto Chicago vai crescendo em tensão por causa das realocações sobre o olhar atento do gabinete da Prefeitura, Kane vai se irritando com a alucinação de Ezra sobre a observação do médico; enquanto a cidade explode em violência com os poderosos se articulando para reestabelecer a ordem, Kane sucumbe a memórias desagradáveis de uma época passada confiando que o tratamento experimental funcionará; e assim por diante. Nessa simbiose estranha, Chicago é Kane e Kane é Chicago: sem um controle total, ambos se tornam um perigo para si mesmo e para outros.

Por fim, cabe também comentar sobre como as ações do passado de Kane vão provavelmente ditar os rumos da metade final desta temporada. Se por um lado temos agora certeza que Todd é um filho bastardo de Kane, o qual foi solenemente desprezado pelo mesmo (e que está arquitetando uma vingança cuidadosa por causa disso), do outro lado temos Emma descobrindo que seu avô, o ex-prefeito Rutledge, foi vítima de Kane que, utilizando-se de uma poderosa droga, o mantém em um estado semelhante ao derrame, o que só servirá para agravar seu ódio pelo seu progenitor.

Restando agora apenas quatro episódios para o final da temporada, Boss vai aumentando a tensão na trama e abrindo possibilidades múltiplas para desfechos potencialmente impactantes na season finale. Ao menos é isso que esperamos ansiosamente.

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