O inesperado sempre tem um papel importante na criação do memorável. Mas quando esse fator é descartado, quando você sabe o que esperar e ainda assim se surpreende, é que você descobre o que significa ser verdadeiramente memorável. Fish Out of Water dá corpo a este sentimento. A qualidade onírica e a sensibilidade estoica fazem deste não apenas o episódio definitivo de BoJack Horseman (adeus, Say Anything) como também um dos melhores episódios produzidos esse ano. Ponto.

Para ser franco, o episódio é inquestionavelmente uma gimmick, aquele esquema clássico de tornar algo atraente com um maneirismo. “O filme todo é um plano-sequência!” ou “o roteiro é totalmente improvisado”. A carta bem escondida na manga que faz todos gritarem quando aparece. No caso, um episódio quase que completamente mudo ambientado a algumas milhares de léguas submarinas. Mas em BoJack Horseman, esse maneirismo é abraçado e o estilo é imediatamente transformado em mais do que conteúdo; ele é transformado em sentimento.

A ideia não deve parecer estranha na mente de quem ama acompanhar boas histórias na telinha. O excepcional episódio “Hush” de Buffy, a Caça-Vampiros tem a mesma gimmick estilística e ela é usada para traduzir os seus temas de bom-humor, aventura e terror. Com BoJack, a ausência de diálogos no episódio foi um recurso afiado para traduzir a realidade mais crua sobre o cavalo: embora ele esteja sempre rodeado de pessoas e oportunidades, ele ainda se sente sozinho. A equipe por trás do episódio não tentou esconder as suas inspirações no belo Encontros e Desencontros de Sofia Coppola. Aliás, não houve pretensão por trás deste episódio, apenas uma genuína e preocupada ambição de dizer algo sobre um personagem de uma maneira diferente.

A solidão e o isolamento que BoJack enfrentou no fundo do oceano não foi tão diferente do que ele enfrenta lá em cima. É o mais fascinante disto tudo. BoJack nunca parece ouvir o que os outros têm a dizer e quando ouve, parece não se importar ou não compreender. Mas ele sempre teve essa escolha, essa possibilidade (a de ouvir e ignorar). Quando finalmente a privam da escolha, ele descobre pela primeira vez o que é ser totalmente silenciado. Ele não pode dizer que não se importa e tão pouco explorar os seus outros subterfúgios, como o álcool e o tabaco, que se perdem na água. Dessa vez BoJack está preso com a sua própria mente e não há nada que o assuste mais. Ele é um forasteiro num lugar estrangeiro onde ninguém o compreende e a única pessoa com quem ele pode conversar é a pessoa que ele mais odeia: ele mesmo.

Algo que me tocou profundamente foi a aparente indiferença de BoJack à vastidão e às ameaças horrendas que residem nos sete mares. O cavalo estava se sentindo tão deslocado que a primeira vez que o vemos se sentir amedrontado surge na reta final do episódio (durante a fantástica gag do molusco de inúmeros olhos bebendo refrigerante). Mas a razão para ter medo ainda está lá. Quando BoJack se vê apertado num ônibus em que ele nunca quis estar e depois abandonado na última estação sem previsão de retorno, nós nos sentimos assustados por ele. Qualquer coisa pode acontecer. E ao mesmo tempo, o episódio parece estar mais maravilhado pelo mar do que assustado. Uma das criaturas mais repulsivas e que poderia render alguns arrepios, os lophiiformes (o famoso peixe com a luz na cabeça de Procurando Nemo) é transformado numa piada, usando a sua luz característica para servir como flash numa fotografia e não para atrair presas. Isso é uma representação perfeita da tristeza otimista de BoJack Horseman. Quando nós somos levados para o escuro de águas desconhecidas, a série escolhe focar na beleza das cores, formas e diferentes espécies e não no medo do que espera na esquina.

Após ajudar um cavalo-marinho macho no parto dos seus muitos filhotes, BoJack acaba se vendo perdido com um deles. O cavalo obviamente tenta se livrar do filhote, mas depois decide levá-lo até o pai e no caminho forma com o filhote o que talvez tenha sido uma relação tão poderosa quanto a de BoJack e Todd (embora, é claro, muito mais breve). É um clichê dramático, sem dúvidas, mas usado com atenção e carinho ímpares. O filhote tem olhos enormes e cheios daquela energia que as crianças têm, daquela capacidade de enxergar tudo que há de bom em viver. O bebê guia a jornada saltando pelado de lá pra cá, anestesiado aos riscos de mortes terríveis em que BoJack e ele se metem graças à sua ingenuidade. Vale ainda dizer que o design do bebê foi parcialmente inspirado na filha imaginária de BoJack no episódio “Downer Ending” da primeira temporada.

E ao fim da aventura, a recompensa de BoJack não parece ser o suficiente. Mas nunca seria o suficiente, porque ele dá autorização à sua parte mais amarga de sentir carinho por aquela criança, sem sequer saber o porquê. A sua recompensa é esperar desconfortavelmente na porta enquanto o pai alimenta a multidão de filhotes, o próprio BoJack sendo incapaz de diferenciar o seu amiguinho entre eles. O filhote é agora como todos os outros. Como todos na vida de BoJack. Ele volta a se sentir deslocado e não sabe se deve entrar e jantar com eles ou se deve ir embora. Por norma, ele escolhe a última opção. Mas a tristeza da conclusão não mancha a magia e a beleza da aventura.

Muitos vão acabar o ano se lembrando da barbárie espetacular da Batalha dos Bastardos. Pessoalmente, vou chegar ao fim deste ano ainda me recordando da fantástica sequência em que BoJack corre atrás do filhote e ambos saltam entre as anêmonas coloridas na escuridão. O filhote toca as anêmonas e elas acendem ao passo de que BoJack tenta manter o caminho iluminado para poder alcança-lo. Não há gigante, exército ou duelo de espadas que me conquiste mais do que a inocência deste momento.

O episódio é também sobre fechar uma cicatriz aberta no ano anterior: Kelsey, a diretora e visionária da biopic do Secretariat (que está revigorando a carreira de BoJack), foi despedida do próprio projeto e o cavalo não a vê desde então. Sempre soubemos que BoJack Horseman tinha muito a dizer sobre a tristeza inevitável da indústria hollywoodiana, mas o destino de Kelsey me deixa particularmente triste. Em Fish Out of Water, Kelsey é uma das poucas caras familiares de BoJack e ele tenta aprender a pedir perdão. De verdade. Não pelo bem do seu próprio ego ou para agradar a mídia, mas por vergonha e lamento. Mas ele não sabe como. Ele tem de perder na vastidão do oceano e passar por aventuras psicodélicas antes de aprender a mais bela e poética lição que BoJack Horseman alguma vez nos trouxe:

Neste mundo aterrorizante, tudo o que nós temos são as conexões que fazemos

Mas não existe perfeição. E se a felicidade é a perfeição, não existe felicidade. Quando BoJack consegue que o seu bilhete sincero chegue às mãos de Kelsey, a tinta já está borrada e as suas palavras ininteligíveis. Mas a trágica conclusão da sua busca por perdão não as suas intenções, não. Foi com essa sentença de estrutura simplória e pouco inovadora, porém rica em honestidade e otimismo que eu, assim como BoJack, tive uma epifania. Nessa epifania eu me dei conta de que estavam terminando os melhores 25 minutos de televisão sobre os quais já escrevi aqui no Série Maníacos.

… Até que BoJack descobre que o seu respirador permitia que ele falasse o tempo todo, que toda a sua miséria e agonia poderiam ter sido evitados. Talvez a revelação tenha sido um mero momento de brilhantismo cômico sustentado na banalidade das tragédias mundanas do cavalo. Ou talvez tenha sido mais uma maneira de BoJack Horseman nos dizer que talvez a vida consista em se lembrar do tempo perdido.

Gags mais charmosas do episódio

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Essa sátira de Moby Dick, com a cachalote encarando o capitão Ahab numa partida de boxe, foi genial. Uma das melhores da temporada até agora.

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Esse jogo de perspectiva também foi engraçadíssimo e me pegou desprevenido.

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Da série: piadas idiotas de BoJack que nos fazem rir como idiotas.

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A gag das sardinhas foi recorrente no episódio, mas essa foi de longe a melhor delas. Me lembrou um pouco a célebre cena em que o Michael Corleone ordena que fechem a porta na cara da Kay em O Poderoso Chefão.

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Do “Top 10 Trincheiras Mais Profundas” ao preço (seis conchas) ali em cima, tudo nessa revista me deixa sorrindo.

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Não vejo Black-ish. Não aguentei ver mais do que alguns minutos da sitcom e a sátira com as orcas expressou bem o que me levou a não ter qualquer interesse pela série.

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Era obrigatório estar aqui, não é?

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“Eu amo o meu filho nº 475”. Essa também passou bem rápido. Eu não me perdoaria se tivesse perdido.

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Essa cena foi concebida pelos lordes de Kobol com o único propósito de fazer a humanidade rir (o que significa que se você não riu, você não é humano). Mas o que me fez rir mais alto ainda foram os olhinhos do filhote coberto de chiclete.

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Alguém deve ter descoberto um daqueles listicles com os animais mais bizarros, porque esse peixe aparece constantemente neles. Me sinto representado.

Outras coisas que eu também adorei:

– Os peixes se segurando nos anzóis no ônibus;

– Pô, até o Spike Lee na onda das sequências? “Faça a Coisa MAIS Certa”;

“Se você encontrar qualquer pacote suspeito… achado não é roubado.”;

– A paródia do clássico livre de gravidez americano “O Que Esperar Quando Você Está Esperando” com cavalos-marinhos foi uma piada bem no ponto;

– Até no mar estão anunciando O Nazista que Jogava Yahtzee;

– A corcunda do camelo enchendo enquanto ele bebe água no início do episódio;

– O design de som desse episódio ficou excelente. Principalmente a parte do filhote de cavalo-marinho chorando e se grudando no respirador do BoJack;

– A canção nos créditos, “Sea of Dreams”, foi tão bonita e memorável quanto a “Impossible” nos créditos do episódio “Say Anything”;

Falas que me fizeram uivar:

Err…

Momento que deu aquele arrepio que BoJack sempre dá: o episódio inteiro.

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