As viradas aleatórias mais elegantes da televisão.

Sei que pode parecer um desatino acusar algum roteirista premiado de ter apertado o botão do random, mas dramaturgia não é só sobre tomar decisões, é sobre também saber o quanto das suas decisões se enquadram corretamente no planejamento daqueles destinos. Sim, senhores… Porque ficção também é destino. Ao nascerem, cada uma daquelas vidas de mentira tem um plano traçado para elas, ou deveriam ter, se essa quiser ser uma dramaturgia boa.

A pressão é muito maior com a fantasia, devemos dizer. Na vida real, quando alguém muito próximo e cheio de planos morre, ou quando um grande e importante amigo se muda, todos se perguntam por que raios Deus permitiu uma coisa dessas, porém, ninguém vestirá a carapuça do hater e irá para a internet dizer o quão absurdo foi se desfazer da história daquele “personagem” como se ele fosse inútil. Fazer nascer na ficção é fácil, mas se desfazer da criação exige ponderamentos múltiplos.

Boardwalk Empire sabe dar a luz como ninguém. É mestra em trazer personagens novos ao cenário e fazê-los importantes ao contexto. Porém, na maioria das vezes, os destinos desses personagens são sempre os mesmos: a morte. Por 12 episódios eles circulam pela vida dos protagonistas, mas quase sempre perdem o “bolão da sobrevivência” e terminam ensanguentados num season finale com cara de decisivo. Mais sorte tem os personagens regulares, que ainda que entregues à aleatoriedade de suas funções, tem mais chances de continuar vivos.

Margaret é um bom exemplo disso. Assim como Jimmy, ela era um dos centros nucleares que sustentavam a dramaturgia da série quando ela começou. E assim como com Jimmy, ela foi perdendo força a cada semana. Ele não resistiu, numa tentativa de sacudir aquele mundo insípido, mas ela continuou ali… Sobrevivendo. Passou de mulher transgressora à esposa servil. Depois de esposa servil à esposa adúltera, mas ainda servil. Depois fez a primeira-dama na trama sem vida do hospital e terminou mais perdida que nunca no season finale passado. Mesmo com sua irrelevância gritando na nossa frente – mal me lembro que um dia Nucky já foi casado – ela sobrevive. E agora aplica golpes sendo secretária. Se investirem numa ligação com Rothstein, acho até que pode funcionar, mas ela é a Margaret então… Tudo a respeito dela fica pelo caminho.

E falando em Jimmy, como não mencionar a ligação entre Nucky e o sobrinho? Pressinto correlações, mas não vou arriscar ainda. É absolutamente absurdo que Nucky não trabalhe pelo afastamento dos problemas de Willie, porque qualquer um sabe onde isso vai dar, mas ali estamos… Ouvindo o professor do rapaz falar sobre a morte do sósia que aniquila a matriz, pensando no quanto isso sintetiza Nucky, que parece nunca mais ter se recuperado da importância que tinha quando Jimmy era vivo.

Começamos então a falar sobre esses coadjuvantes derramados nas temporadas… Dessa vez é Narcisse que tem o proscênio, e o faz com todo o sortilégio de aspectos chocantes. Ainda que a revelação final sobre ele tenha tido seu impacto, mal posso dizer o quanto soou aleatória essa ligação entre ele, a cantora e Chalky. Entendo perfeitamente que ele quer chegar até Nucky (é sempre isso), mas a coisa toda com a mãe da moça parece ter sido cuspida no episódio com propósitos totalmente egocêntricos. Tudo é sempre sobre tornar o vilão muito chocante… Ainda que saibamos que ele vai morrer no final. Aí só me pergunto por que raios não investem num vilão que esteja no elenco regular!! Capone está há quatro temporadas agindo como o gordinho que é dono da bola e fica gritando que vai matar todo mundo. Ele até mata, mas e aí? É só isso mesmo?

Minhas esperanças então recaem sobre Hoover, que virou o “dono” do FBI, sacaneou Knox (que tem importantes aliados) e pode ser um personagem que sobreviva ao final dessa temporada. Seria um desatino não explorar as milhões de possibilidades que esse núcleo trás… Então, estou confiante. O melhor sempre foi lançar mão do que pode gerar frutos também a longo prazo para a série, muito mais do que a virada coadjuvante sem substância, que se salva das críticas na maioria das vezes, porque é envolta em lindos cenários, ângulos de câmera e bela fotografia. Eu quero ver Boardwalk Empire contar uma história precisa, crescente, gradativa, que mostre a evolução verdadeira de seus personagens, e não somente a mudança deles de um fundo pra outro.

Primeira Dose: Tivemos Gillian, eu sei. Mas resolvi ignorar algumas das esquetes da semana e essa foi uma. Acho bacana que ela pareça ter encontrado um bálsamo… Mas será? Ela não me parece o tipo de personagem que encontra a felicidade.

Segunda Dose: No meio disso tudo preciso admitir que o modus operandi de Narcisse para chegar onde quer tem lá seu charme. Prefiro essa sutileza a loucura de Bobby Cannavale no ano anterior.

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