Um conselho bem frequente nos últimos dias, seja pessoalmente, seja divulgado nas notícias pela mídia, é que os pais cujos filhos receberem eletrônicos controlem, de alguma forma, o conteúdo acessado por eles. Defende-se em alguns casos a intrusão sem nenhum constrangimento no que isso possa representar a terceiros, afinal, cada um sabe o que é melhor para os seus. As ferramentas disponíveis são um ótimo auxílio, podendo-se usar a mesma tecnologia que os mais novos amam para colocá-los em segurança. Isso vale, por exemplo, para o rastreador anexado àquele celular mais moderno, que talvez ofereça alguma orientação em emergências.

Claro que o fechamento dentro desse mundo seguro, quando muito seguro, pode não ser tão eficaz ou saudável quanto se pensa. Assim como o fracasso do selo Parental Advisory, que transformou uma suposta barreira no símbolo de rebeldia de sua geração, há sempre o fator externo, aquilo que está lá fora. As novas medidas são bem-vindas, sim, mas confiar cegamente em sua eficácia é tomar para si a ingenuidade que se acredita pertencente aos menores. Pensando assim, fica mais fácil entender por que a ideia de Arkangel não daria muito certo.

Black Mirror 4x02: Arkangel
Black Mirror 4×02: Arkangel

Arkangel, o segundo episódio da nova temporada de Black Mirror dá o seu palpite, de maneira indireta, na sensibilidade desse assunto. Podendo muito bem se passar no Brasil, a história faz provocações à ideia que se faz da delicadeza da infância e da necessidade de tirar as barreiras perigosas de seu caminho. Chega-se à conclusão, adiantando-me, que esse perigo aparece pelas tangentes, inelutável como o Babadook de Jennifer Kent. Como é Black Mirror, exageramos aqui e ali e, no caminho dessa narrativa, passamos do limite. Como é Black Mirror, a realidade futura é basicamente uma lupa apontada para nossas questões de agora.

Somos apresentados à dinâmica de relacionamento de Marie e Sara, interpretas, respectivamente, pelas atrizes Rosemarie DeWitt (The Last Tycoon, United States of Tara) e Brenna Harding (The Code). A relação contada entre mãe e filha é bem crível e o texto não se prejudica tentando dar aspectos singulares às personalidades delas. Ou seja, é uma mãe comum, que trabalha, cuida da filha e tem um relacionamento tranquilo com o pai. A filha também: típica adolescente, crescendo, fazendo o que pode para se desviar das limitações da sociedade e da própria família.

Black Mirror 4x02: Arkangel
Black Mirror 4×02: Arkangel

Histórias boas não são sobre épocas, mas sobre pessoas: não são somente sobre mundos diferentes, distantes no tempo ou no imaginativo, mas sobre o relacionamento que se estabelece entre os que fazem parte daquilo. É por isso que as obras clássicas ainda falam tanto conosco. Black Mirror dá conta muito bem desse aspecto de suas narrativas. Em Arkangel, por exemplo, não falamos apenas do perigo de se invadir a privacidade alheia, mas da obsessão que se cria quando adquirimos o poder de tudo ver. E, para debater obsessão, não precisamos ir muito longe e cada um de nós deve ter, no mínimo, uma história para contar.

O roteiro é de Charlie Brooker, como de costume, que há três meses subiu ao palco do Emmy como vencedor na categoria de escrita em que concorria com San Junipero, o polêmico episódio que ainda divide os fãs da série. Como em boa parte do que foi visto na temporada passada, o criador da produção sabe nos surpreender com ideias criativas, apresentando nessa nova safra outras formas de se abordar o meio tecnológico em que vivemos. Assim como o premiado terceiro ano, entretanto, fica o questionamento sobre o talento para desenvolver essas boas histórias, pelo qual ele é tão creditado. Isto é, se em poucos minutos de Nosedive já sabíamos o destino da protagonista, o mesmo ocorre aqui. Os desdobramentos do roteiro, comprometido com a tensão que se esforça em criar, são previsíveis em muitos pontos, nos deixando mais fisgados pelo argumento inicial do que pelo que é mostrado pelos cinquenta minutos de sua duração.

Jodie Foster assina a direção, área que tem focado nos últimos anos, tendo, junto à Netflix, experiência com episódios de House of Cards e Orange Is The New Black. Assim como algumas atrizes que fazem o caminho de transição para essa posição, a recepção de seus filmes tem sido mista, por vezes negativa. O trabalho realizado aqui não contribui muito para o lado positivo, porque falta pulso em alguns momentos e não há uma boa construção do clímax, culpa dividida com o roteiro. A cena de confronto entre as duas personagens, que deveria explorar um diálogo ao nível dos que Greta Gerwig utilizou para quebrar recordes nos últimos tempos, é apressado e não tem a força que poderia.

Black Mirror 4x02: Arkangel
Black Mirror 4×02: Arkangel

Não faço ideia do porquê de se escolher uma atriz de vinte e um anos para interpretar uma personagem de quinze quando ela, ao contrário das meninas de Pretty Little Liers, não tem essa aparência de adolescente. Só aponto isso porque se a idade dela não fosse gritada em certo momento, eu juraria que se tratava de uma adulta, o que levaria a história para outra esfera. Deixando de lado essa observação, ambas as atrizes se saem muito bem, principalmente Rosemarie, que usa sua experiência para explorar o desespero materno.

Talvez por falta de percepção ou mesmo ajuda para se fundamentar, Black Mirror não constrói uma história de obsessão com a grandiosidade que esperamos, por mais que tenha tanto material e possibilidade em mãos. Fica o esboço, no entanto, bem atuado e bem produzido — mas sem carisma e às vezes repetitivo. O resto, nós discutimos, elaboramos, colocamos algumas pautas no meio e expandimos pela internet.

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Em ano em que o cinema falou sobre maternidade com mother! e Lady Bird e a televisão falou sobre liberdade com Big Little Lies e The Handmaid’s Tale, Arkangel não é o que você vai levar de 2017 — nem mesmo dessa nova temporada. É, na verdade, acrescentar outra interrogação a um velho questionamento: o “efeito Black Mirror” é realmente nos deixar boquiabertos e perturbados, ou apresentar histórias tão criativas e atraentes que pouco nos importamos com o desenvolvimento? Pode ser que os outros episódios da temporada ajudem nessa resposta.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
black-mirror-4x02-arkangelEm Arkangel, por exemplo, não falamos apenas do perigo de se invadir a privacidade alheia, mas da obsessão que se cria quando adquirimos o poder de tudo ver. E, para debater obsessão, não precisamos ir muito longe e cada um de nós deve ter, no mínimo, uma história para contar.