Eu sei o que vocês fizeram na geleira passada.
A quarta temporada de Black Mirror vem sofrendo inúmeras críticas – eu ainda não assisti aos demais episódios para afirmar que são justas ou que não são -, mas Crocodile tende mais ao sucesso em se blindar delas do que a fracassar em nos entregar um episódio de qualidade.
A sequência inicial, que bebeu sem moderação da fonte do filme teen dos anos 1990 Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, mostra nossa protagonista, Mia (Andrea Riseborough, Birdman), no banco do carona do namorado bêbado (Andrew Gower, Outlander) que atropela um homem enquanto dirige. Todo o desenrolar da cena do atropelamento – até mesmo os diálogos – é quase idêntico ao do longa, mas a questão só nos é posta por um motivo simples: e se Sarah Michelle Gellar e sua turma tivessem tido sucesso em manter o segredo, mas caíssem no mundo tecnológico de Black Mirror 15 anos depois?
Mia, que havia se oposto ferozmente à ideia de esconder o crime, tornou-se uma arquiteta extremamente bem-sucedida. Já Rob passou de jovem adulto aparentemente vindo de família rica a um homem consumido pela culpa e incapaz de viver plenamente. Essa inversão do status social de ambos gera a primeira reflexão interessante do episódio: o seu instinto de sobrevivência é proporcional ao quanto você tem a perder.
Quando Rob enxergava para si todo um futuro pela frente, confessar o crime era a pior possibilidade. Mia, que estava apenas no carona e não era tão culpada nem tão bem-sucedida ainda, tinha um senso maior de certo e errado. Quinze anos depois, ele acabou, mesmo sem pagar pelo crime, perdendo toda a perspectiva de futuro, e ela, ganhando uma. E essa é a explicação para o deslocamento de equilíbrio nessa balança de instintos de sobrevivência.
Mia adulta fez o que a Mia de 15 anos atrás jamais imaginaria: matar para preservar seu status. É fácil e instintivo condená-la e pensar no absurdo de tal atitude – e é o que precisamos fazer mesmo.
Mas, em Black Mirror, as coisas não são tão simples assim.
Há espaço para empatia quando ouvimos a personagem falar sobre seu filho de 9 anos, assim como a vemos relembrar o fato de que, na ocasião, ela queria, sim, ter feito a coisa certa. Talvez Mia não mereça tanto assim ser punida por aquele incidente, ou ao menos é nisso que ela quer acreditar a esta altura.
O título do episódio tem relação direta com esse mergulho no senso de autopreservação de Mia, uma explicação que incluo aqui por contribuição do meu amigo e antigo leitor Aécio. Na cadeia evolutiva do reino animal, foi a partir dos répteis que o cérebro se desenvolveu suficiente para obter a função de instinto de sobrevivência, que visa à autopreservação a qualquer custo.

No exato momento em que a protagonista tira a vida de seu ex para se preservar, ela casualmente vê um rapaz sendo atropelado por uma van automática – mais um pequeno detalhe usado pela série para mostrar que a tecnologia não é lá tão confiável assim. É aí que entra Shazi (Kiran Sonia Sawar), apenas uma funcionária de uma companhia de seguros fazendo o seu trabalho.
Mas, em Black Mirror, as coisas não são tão simples assim.
Sabemos muito bem qual será o destino final da jornada de Shazi, mas o roteiro é extremamente competente na decisão de não ter pressa para chegar lá. O clímax do episódio – o momento do encontro entre as duas que será a encruzilhada definitiva para que Mia escolha a pessoa que ela é – vai sendo construído com calma por meio da jornada de Shazi, nos deixando ansiosos pelo que viria. Como cada uma delas reagirá a esse Big Bang? Alguns detalhes do texto nos revelam regras interessantes, como o momento em que a muçulmana deixa claro que ela é obrigada por lei a quebrar o sigilo do aparelho da memória caso haja indícios de que o interrogado tenha ferido ou irá ferir a si mesmo ou a outra pessoa.
Ao mesmo tempo, a situação de quebra de privacidade e de supressão de direitos a que tal aparelho nos submete é claramente desumana. O dentista que tirou uma foto do cara gostoso nu pela janela é constrangido de uma maneira terrível a revelar a uma desconhecida uma fantasia íntima. Ela o faz com gentileza e um sorriso no rosto, claro – exatamente da mesma forma como agirá com Mia, que tem algo muito mais perigoso a esconder. E é curioso como, ao perceber uma pessoa mais resistente e menos manipulável, Shazi deliberadamente esconde as regras do jogo para ganhar acesso. Afinal, também é da natureza humana ir quebrando padrões éticos aos poucos na medida em que isso for necessário para garantir sucesso em tentativas de manipulação. Um erro do qual ela certamente se arrependerá.
Na tensão que precede o embate, alguns detalhes da direção geram a sensação de oportunidade perdida. A cena em que Mia prepara o café, por exemplo, é bastante certeira no enquadramento das facas em primeiro plano, mas ao passar tempo demais nessa tomada e ainda pecar pelo excesso de didatismo ao fazer com que a protagonista volte seu olhar para tais armas, acaba cruzando o limite do bom senso e desperdiçando a chance de ser sutilmente genial.

É como sequestradora e refém que Mia e Shazi se confrontam de verdade, em um diálogo que também conversa muito bem com o título do episódio. Meu amigo Adalto comentou a respeito da expressão “Crocodile Dilemma” (presente na série Fargo), o que me levou a pesquisar a respeito e enxergar outro viés interessantíssimo. Ela se refere a uma situação hipotética criada para mostrar a existência de paradoxos lógicos: um crocodilo sequestra o filho de um casal e pede para que eles tentem adivinhar o que ele fará em seguida; em caso de acerto, ele devolverá o filho; em caso de erro, ele o levará.
Nessa situação, se o casal diz “você nos devolverá nosso filho”, a situação se resolve facilmente em termos lógicos, mas o casal precisa confiar totalmente na boa-fé do crocodilo. Mas, se a resposta for “você não devolverá nosso filho”, um problema é criado: se o crocodilo não devolver o filho, o casal acertou, e o filho terá que ser devolvido; mas, a partir desse momento, o casal passou a estar errado, e o crocodilo deve sequestrar o filho; e assim, caímos num looping lógico infinito, em que qualquer situação cria problemas para que o crocodilo cumpra sua palavra.
Shazi está numa situação muito parecida. Se ela responder a verdade, que é o que Mia supostamente gostaria que fosse feito, ativará ainda mais o instinto de autopreservação desta, dependendo totalmente da sua improvável boa vontade para que a família sobreviva; mas, se ela mentir, cria uma situação em que não haverá solução lógica possível para Mia, então ela fará o que achar melhor para si. Ou seja: Shazi está ph**ida no matter what.
A morte trágica de Shazi enquanto fazia o que interpretei como uma oração, me deixou bastante intrigado quanto à escolha de biotipos feita pela série. Não existe nada mais desafiador à lógica do atual discurso político ocidental do primeiro mundo do que a imagem de uma muçulmana inocente sendo destroçada por uma europeia branca vilanesca.
A previsível sequência da morte do marido foi extremamente bem executada, mas foi o momento em que Mia ouve o barulho de uma criança que me fez soltar um suspiro agudo de pânico. Àquela altura, eu nem sabia mais se estava torcendo por Mia ou contra ela, eu só queria que aquela saga – claramente desesperadora para a moça – tivesse fim, e constatar o último sacrifício necessário para tal conclusão doeu demais. Só pra jogar um pouco de sal na ferida, a série adiciona a informação de que, no fim das contas, o sacrifício nem era de fato necessário, comprovando a relação de sadomasoquismo entre essa série e nós, seus fãs.
A canção entoada pelo coral do filho da protagonista foi a cereja do bolo. Nós sempre tivemos uma escolha. Mesmo quando queremos justificar que uma crueldade ou um ato anti-ético realizado só foi feito por ser necessário. Não foi. Somos cruéis ou anti-éticos porque essa é a pessoa que escolhemos ser.
O único momento realmente questionável do episódio é a sua solução final, em que a polícia decide usar um hamster (porquinho-da-Índia?) como testemunha ocular dos crimes de Mia. Ainda que os animais tenham memória similar à nossa, é mais do que questionável a ideia de que é possível induzir tais memórias para chegar a um momento específico. Será que, se Mia sufocou a criança e o fez de forma silenciosa, o roedor compreenderia aquele momento como “o momento em que o bebê foi assassinado” e isso se tornaria algo marcante na memória do animal ao ponto de processos de indução levarem tão rapidamente ao assassino? Como isso seria feito? Eu não sei, mas fica a sensação de que, em Black Mirror, na hora de nos trazer soluções, as coisas não deveriam ser tão simples assim. Acabou soando um pouco como um choque velho barato, não muito diferente do transplante de cérebro que transformou Susan Sarandon em Joey Tribianni em Days Of Our Lives.
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Essa crítica, porém, nem de longe tira o brilho de Crocodile, que pra mim é muito mais sobre a jornada e à nossa capacidade de superar os limites da nossa compreensão de certo e errado. Um verdadeiro convite à reflexão sobre a natureza humana usando a tecnologia como pano de fundo. E não dá pra negar que, mêo, isso é muito Bléqui Mírrou!














