Quando a Netflix assumiu a produção de uma nova leva de episódios de Black Mirror muito se perguntou sobre a qualidade final da temporada. Como comprovamos ano passado, a qualidade se manteve, mas o tom frio e ácido típico da produção britânica foi diluído em alguns episódios um pouco mais “americanos”, por assim dizer. Tudo indica que a quarta temporada também seguirá o mesmo caminho, já que USS Callister, premiere dessa quarta temporada, é mais um desses episódios com um incomum “final feliz”, mesmo que a critica à tecnologia e ao lado danoso dela ainda se mantenham.
No mundo real as regras de convivência são definidas por normas sociais, grupos de interesse em comum, hierarquia profissional… Isso faz com que máscaras sejam criadas e utilizadas em cada uma dessas camadas. Algumas pessoas não conseguem se encaixar nessa simulação e com isso são taxadas de estranhas, “perdedoras”, e excluídas do seio da convivência, mesmo que possuam um certo poder, que acaba sendo minado pela falta de empatia para com quem interage. Daly (Jesse Plemons) é um desses estranhos, o chefe de desenvolvimento de um MMORPG imersivo chamado Infinity, mas que é sumariamente ignorado por todos a sua volta. Da recepcionista ao seu sócio, é como se ele não estivesse lá e, por sua vez, ele não faz nada para mudar o seu status.
Na vida real. Porque no mundo virtual, atrás de avatares, perfis e redes sociais, novas máscaras são criadas, as vezes mostrando o verdadeiro lado que é suprimido no mundo real. Assim, uma aparente simulação de um universo baseado em “Star Trek”, a Frota Espacial, acaba se tornando um purgatório punitivo em que aquele que era humilhado acaba se tornando um ditador psicopata com poderes divinos e sem um mínimo de consideração para com o outro.
![Black Mirror 4x01: USS Callister [Season Premiere] Black Mirror 4x01: USS Callister [Season Premiere]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2017/12/Black-Mirror-4x01-img1.jpg)
Isso dá espaço para os atores acabarem abraçando as personas “sci-fi” dentro da simulação. Se no momento da revelação da natureza da emulação, foi Michaela Coel que roubou a cena, no resto do episódio é Cristin Milioti que domina a situação. Com olhos expressivos e um constante ar de incredulidade e rebeldia, ela acaba sendo a real protagonista do episódio, lutando contra um Plemons deliciosamente insano, digno dos psychos hollywoodianos.
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Aliando crítica a um humor incomum (os clichês de “Star Trek” e a falta de genitais me fizeram rir alto), USS Callister começa de modo interessante essa quarta temporada. Mesmo com a longa duração o episódio passa rápido e apesar da falta de tensão aparente é um dos mais reflexivos na história da série. No mundo virtual todos somos possíveis “trolls”, basta que o poder necessário esteja ao alcance. No universo criado por Charlie Brooker as aparências sempre enganam.














