Como quase todo mundo que conheceu a série quando ela estava no ar pelo Channel 4, eu me apaixonei imediatamente por Black Mirror. Era original na medida certa, mas ainda trazia o charme britânico e a estranheza social que chamavam a atenção em outras produções do canal que eu também adorei, como This Is England e The IT Crowd. Tendo um histórico sublime com o canal, eu resolvi dar uma chance. E também ajudava ter aquele elenco. Óbvio.
Ainda como todo mundo, eu tenho The Entire History of You, White Bear e White Christmas em pedestais quase que inalcançáveis. Talvez a minha maior particularidade como espectador seja não desgostar tanto assim de The Waldo Moment. De resto, eu gosto de Black Mirror do mesmo jeito que qualquer um, pelas mesmas razões. Acho que o choque de ver o Primeiro-Ministro do Reino unido fazendo sexo com um porco ao vivo na televisão nacional faz de Black Mirror uma experiência única e ao mesmo tempo uniforme pra todo mundo corajoso o suficiente pra continuar vendo depois daquele piloto.
Black Mirror é especial e ver a série renovada pela Netflix, indo parar na mesma mão da gente maravilhosa que trouxe BoJack Horseman e House of Cards pra gente, me deixou êxtase. Já estava aprendendo a aceitar que o especial natalino seria o fim e me convencendo que uma conclusão tão inigualavelmente fantástica era o bastante, mas lá no fundo eu continuava faminto. Eu nunca senti que Black Mirror se definia como “aquela série lá que mostrava como a tecnologia anda ferrando tudo”, como ela aparentemente está sendo vendida. O que eu enxergava era um mundo de riqueza tecnologia ímpar, onde cada emoção humana encontrava uma forma de ser mecanizada e manifestada. Não é sobre a tecnologia estar destruindo a sociedade e sim sobre o homem encontrando novas formas de se distanciar. Não uns dos outros, mas do mundano e das coisas chatas que às vezes vem com ele. Por isso, como muita gente, fiquei um pouco preocupado com o primeiro trailer, onde tudo parecia claramente mais americano e… óbvio. Começou a vir aquela preocupação de que Black Mirror iria pelo mesmo caminho que Arrested Development foi na Netflix.
Em Be Right Back, nós temos uma esposa combatendo o luto e eventualmente descobrindo que no seu tempo, a morte deixou de parecer tão terrível. Com o marido morto, mas num mundo semi-futurista, o próximo passou deixa de ser a negação e passa a ser… arrumar um robô para simular a personalidade e memórias do marido, ué. Tendo esse recurso, parece a forma mais racional de se lidar com essa dor. Nós entendemos isso. Por mais alienígena que essa tecnologia apareça, por mais longe que ela pareça estar das nossas mãos, dá pra entender e pra se relacionar. Não é uma questão de você ou eu conseguirmos comprar ela numa loja. Se torna uma questão de você e eu entender porque ela existiria. Isso sempre foi constante em Black Mirror: era tudo muito esquisito, sim, e consequentemente icônico, mas parecia orgânico. Aquele mundo parecia funcionar e as coisas pareciam existir e acontecer por uma razão além da estética de ficção científica.
É exatamente por isso que, infelizmente, eu detestei Nosedive. A premissa saiu quase que diretamente do episódio dos MeowMeowBeenz de Community, mas acho que funcionou melhor debaixo do humor ácido do Dan Harmon do que debaixo da lupa niilista do Charlie Brooker, porque lá a gente não tinha de acreditar na funcionalidade daquele mundo. Aqui, eu simplesmente não acredito numa sociedade que decide para quem dar descontos em compras imobiliárias baseadas em classificações em redes sociais. A metáfora é óbvia, sim. Apreciada, aliás. Mas muito similar ao título, ela é muito on the nose. As pessoas são viciadas em redes sociais, a gente entende. Já foi dito de novo e de novo, e quando eu vi que Black Mirror falaria sobre isso, já me preparei para uma visão completamente nova no assunto. Mas não foi o que aconteceu.
Logo de início, a personagem de Bryce Dallas Howard parece não ter qualquer outro interesse que não se baseie em conseguir pontos. E dava pra simpatizar com esse objetivo se soubéssemos mais sobre o seu passado como a garota bulímica, mas aqui ela simplesmente não é carismática (até a conclusão espetacular do episódio, que fique claro). Por uma boa parte da premiere, eu só fiquei me perguntando porque eu não conseguia sentir nada pela personagem. Black Mirror consegue fazer você sentir pena do personagem do Rafe Spall no especial de natal, um cara que, no fim das contas, perseguiu a companheira e levou uma criança a morrer de fome e frio. E você, de alguma forma, sentia pena dele! Lacie não. Ela tem um irmão e os dois não se dão bem, mas você não tem um momento que sugira que ela sente algo real por… ninguém. Pelo menos até a metade do episódio. As cenas que ela compartilha com a senhora do caminhão são bem legais, por mais que praticamente gritem a mensagem já clara do episódio.
Você pode achar que eu estou pegando no saco da personagem ou da premissa, mas vamos comparar ela e o tema do seu episódio com Bingham de Fifteen Million Merits. O episódio das bicicletas, a materialização máxima do conceito de que nós, enquanto seres humanos, temos de nos distrair para fugir da mais sombria e transparente das realidades: nós não temos para onde ir. Bingham é extremamente empático. Nós vemos o personagem demonstrar um leque absurdo de emoções e motivações. Ele se sente anestesiado pelo seu mundo, mas também conectado à ele. Parece ridículo ver ele ou qualquer uma daquelas pessoas correndo naquelas bicicletas, mas ao longo do episódio nós vamos entendendo que os pontos que eles ganham são a moeda daquele mundo. Entendemos a funcionalidade. Enquanto isso, Bingham vai demonstrando o tédio que o devora. Nada parece satisfazê-lo. Até o mundo pornô daquele mundo a gente consegue entender. Quando ele conhece Abi, nós vemos plenamente como o mundo dele vira de cabeça pra baixo. E não só isso, o episódio também.
Aqui, a mera ideia de alguém ir pro trabalho e ao invés de trabalhar passar o dia numa rede social já destrói a minha suspensão de descrença. O fundamento é legal: qualquer banco precisa fazer um background check antes de te dar um empréstimo. Só que isso parece ser tudo que existe, quando nos episódios anteriores nós sempre tivemos sugestões de que sempre havia algo muito maior por trás de tudo. Não era a sombra de uma única tecnologia ou corporação cobrindo o mundo, era um amontoado deles. O mundo de Bingham parece ter um backstory rico o suficiente pra gerar o próprio episódio. As pessoas corriam naquelas bicicletas, mas elas também tinham outros interesses, faziam outras coisas. Em Nosedive, você tem de acreditar que uma mulher obcecada por novas tecnologias não conhece o símbolo universal para configurações na hora de mudar o idioma do carro.
Como eu disse lá em cima, tudo parece mais mastigado e fácil nesse episódio. Você não tem de pensar muito, enquanto eu estou até hoje pensando nas logísticas de White Bear e daquele reality show bizarro. O posto de carga onde Lacie vai para recarregar o seu carro se chama Charge e o cabo que ela usa pra fazer isso é um micro-USB gigante. Sai do território de on the nose e entra no de idiota. Esse não é um mundo que parece estar esperando para ser desvendado. Em The Entire History of You, você tem uma tecnologia que traz mil e uma possibilidades para histórias e o autor te resolve mostrar uma história sobre adultério. Uma história pequena e insignificante para o status quo da própria tecnologia que ele representa, mas grande para o protagonista que você é incentivado a gostar. Através dessa história, você descobre um monte de coisas legais sobre a mitologia dessa invenção, mas chega ao fim do episódio querendo mais. E o mais importante: sabendo que poderia haver muito mais naquele mesmo cenário. O mundo de Nosedive não parece ter muito mais a oferecer. Ele parece existir só pra fazer uma crítica ao Facebook, ao Instagram, ao Twitter. Poxa, as pessoas até se chamam pelas classificações que têm, exatamente como no episódio dos MeowMeowBeenz. É uma tentativa de se aproximar da nossa realidade que acaba tendo o efeito contrário. É escandaloso, como aquelas charges contra Pokémon Go compartilhadas pelas mesmas pessoas que competem por likes na mesma rede social.
Apesar de tudo, ainda teve muita coisa bacana no episódio. Embora eu não tenha achado a estética do episódio tão ousada, teve muita coisa sutil aqui e ali que me fez sorrir, como quando a música na parte final do episódio se torna quase que indistinguível dos sons de Lacie recebendo más avaliações. E já falando dessa parte final, falta palavras pra descrever o quanto a virada me surpreendeu. Se eu estava detestando o episódio até Lacie entrar naquele banheiro e convenientemente achar o pessoal que ia pro mesmo lugar que ela, quando ela chega naquele casamento, eu não conseguia parar de sorrir.
Você aprende a se importar com Lacie quando ela cai, quando ela se suja, porque são as únicas vezes que você vê nela um ser humano mesmo. Se nós tivéssemos mais motivos para nos importar com o que ela estava fazendo (já que nunca somos levados a acreditar que ela tem qualquer motivação que não sejam os pontos), teria sido ainda mais poderoso, mas já valeu só de ver ela saindo da zona de conforto. O discurso também é ótimo, mas ainda não carrega a mesma força que o discurso de Bingham com o caco de vidro. A cena no casamento acabou fazendo o figurino à lá Community do episódio se redimir, porque Lacie estava inegavelmente idêntica a uma maluca foragida ali no meio, procurando por aprovação entre os narizes torcidos e os sorrisos passivo-agressivos. É realmente uma pena que a personagem tenha sido escrita de forma tão indiferente no começo.
A cena final, com Lacie e o outro encarcerado se xingando com direito a uma série de palavrões, foi a Black Mirror que eu amo. Não é sobre a tecnologia e os seus perigos ou sobre gente lutando contra o sistema. O ser humano está condenado a procurar por distrações porque ele está condenado a morrer e ninguém quer pensar nisso. A tecnologia entra no meio dessa dança complicada entre. Um app para simular as memórias de alguém que a gente perdeu ou um reality show que nos permita torturar eternamente alguém que cometeu uma atrocidade. Invente esses e você não tem de pensar no inevitável.
Black Mirror é sobre distrações. Black Mirror não é pessimista ou um discurso de ridicularização. Ela enxerga as interações humanas e as distrações pífias que as dificultam. Não é sobre pegar uma tendência e fazer um episódio jogando na sua cara que ela é estúpida. A tecnologia não tem lado e muito menos é superficial. Nosedive poderia ter nos mostrado também algo de de belo sobre o app em torno do qual o mundo de Lacie gira. Pessoas se conectando, talvez conhecendo o amor da vida delas através deles ou familiares distantes conseguindo compartilhar as suas aventuras. Depois disso, nós poderíamos conhecer o lado vicioso e tóxico da coisa, ao invés de já saltarmos achando aquelas pessoas fúteis. Infelizmente, o que o episódio faz é não entender que nós já nos distraíamos antes dos smartphones e que vamos continuar o fazendo depois deles. Pior: o faz da forma menos humana possível, quase como um vídeo sensacionalista que você veria circulando pelo Facebook.
Eu não poderia estar mais triste por me sentir assim sobre Nosedive, mas tenho certeza que quem escreveu sobre The Waldo Momento na época sentiu o mesmo. Um episódio abaixo das expectativas não é o suficiente pra manchar Black Mirror, porque uma das coisas mais legais da série é que ela se reinventa semana após semana. Então apesar de tudo, estou absolutamente confiante na melhora. O Charlie Brooker continua no comando e deve estar cheio de boas ideias naquela cabeça. Só espero que elas sejam mais no estilo da Black Mirror do Channel 4 do que da Black Mirror US. Se não forem, só vou dar 2 MeowMeowBeenz pra ele (ou 2 estrelas, se ele preferir).
Mas olha, espero ser o único a me sentir assim e que todo mundo tenha adorado Nosedive, porque isso significa mais temporadas de Black Mirror pra gente. E quanto mais Black Mirror, já sabe.














