“Faz parte do meu show….”

Spoilers Abaixo:

Não sei quanto a vocês, mas a minha cabeça explodiu em mil pedaços com esse episódio de Black Mirror. Tudo foi meticulosamente planejado e executado com esse intuito. Que qualidade absurda e história fantástica e propícia foi essa?

O roteiro, novamente escrito por Charlie Booker, consegue de uma maneira verdadeira, inovadora e avassaladora nos trazer a atenção um assunto importante e complicado da sociedade moderna: o voyeurismo. Em tempo de Big Brothers, Fazendas, The Real Housewifes de todo lugar possível e até mesmo o frenesi causado pelos paparazzis, o voyeurismo está presente com força esmagadora nos quatro cantos do mundo. A nossa sociedade tem uma curiosade preocupante (e muitas vezes mórbida) com a vida alheia e essa curiosidade muitas vezes ultrapassa o limite da razão. E fica ainda mais fácil quando todos possuem acesso a câmeras, hoje a máquina preferida dos voyeurs.

O episódio começa em um quarto, onde uma mulher acorda em uma cadeira sem lembranças de quem é e porque está ali. Ela esta em casa desconhecida e na televisão tem um símbolo estranho e também desconhecido. Com ela vemos flashs daquilo que pode ser sua vida. Nesses flashs vemos um homem que pode ser seu marido e uma criança que pode ser sua filha. A única informação concreta que temos, até então, é o dia e o mês: 18 de outubro. Ao sair da casa essa mulher está cercada de pessoas que não falam uma palavra sequer com ela e sim tiram fotos e filmam seus passos. No meio do caminho aparece um homem mascarado que sem hesitar atira nela e é aí que tudo começa mesmo.

Em sua fuga do homem mascarado ela encontra dois jovens, aparentemente também fugitivos, e aprende que a humanidade sofreu uma espécie de lavagem cerebral com o símbolo que apareceu na tv. Uns se transformaram em voyeurs, outros em caçadores daqueles que não foram afetados pela lavagem cerebral. Por isso eles precisam ir até o centro de transmissão chamado “White Bear” para destruir o local e libertar alguns desse controle mental.

O que eu não esperava, de jeito nenhum era a reviravolta contida nessa história. A mulher, agora Victoria Skillane, é uma assassina condenada pelo brutal assassinato de uma criança chamada Jemima que ninguém menos é que a criança dos flashs que ela pensava ser sua filha. Victoria e seu noivo Iain mataram essa criança de maneira fria e calculista e filmaram toda a ação com o celular.

O noivo cometeu suicídio antes do julgamento e a própria Victoria foi sentenciada a uma vida onde ela será observada, fotografada e filmada todo dia por um grupo de pessoas enquanto luta pela vida, como se ela fosse uma atração em um parque de diversões. E então, quando ela descobre o que está acontecendo, sua memória é apagada e começa tudo de novo no dia seguinte. As pessoas que tentam matá-la e aquelas com quem ela de fato tem contato nada mais são do que atores do “White Bear Justice Park”, uma companhia de produção cinematográfica com estúdios próprios. E isso é o que eu chamo de justiça poética.

o mais impressionante para mim, é a atenção aos mínimos detalhes. O “White Bear” é o símbolo da procura pela jovem Jemima, que carregava um ursinho branco quando desapareceu. O símbolo misterioso da “lavagem cerebral” é a tatuagem de Iain. Nos créditos finais acompanhamos a preparação diária para o show. E o detalhe mais sútil e sensacional de todos: o calendário na parede que contam os dias que já passaram da punição de Victoria.

Nada me fez desacreditar que estamos diante de mais uma obra prima televisiva proporcionada por Black Mirror, mesmo não sabendo o nome dos outros personagens e achando que a interpretação da Lenora Crichlow poderia ser mais suave e não tão exagerada. A questão é que a mensagem foi extremamente bem executada e formidavelmente entregue.

Lembram da época em que a palavra “voyeurismo” era somente usada para as pessoas que tinham o fetiche de assistir os atos sexuais de outras pessoas?

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