Documentário feito para “esquentar” a volta do reality antecipou a crise identitária do programa.

No início da semana anterior à estreia da vigésima quinta edição do BBB, a Globo exibiu um documentário produzido para celebrar os 25 anos do programa e chamar a atenção das pessoas para a volta do mesmo, na segunda-feira seguinte. Assim que os fãs do programa perceberam que toda aquela trajetória seria contada em 4 episódios, a manivela da desconfiança foi girada. Não é como se a Globo fosse o território mais seguro para contar “histórias de si mesma”.

Quem assistiu o documentário sobre a vida de Xuxa sabe do que estamos falando. Pedro Bial e sua equipe (que acertaram tanto em Vale o Escrito), transformaram a narrativa sobre a apresentadora numa bagunça completa. A mesma dificuldade de estabelecer uma narrativa coerente do ponto de vista temporal ou temático, pôde ser vista em outros documentários da casa; mas explodiu com força total nessa peça publicitária tomada de omissões e descasos.

Para os fãs – especialmente aqueles que seguem fieis até hoje – o documentário parecia um garimpo audiovisual, em que os interessados buscavam informações relevantes em meio a absurdos como os inexplicáveis minutos dedicados ao hit “olha a onda” ou a ressuscitação bisonha da “Rádio Pinel”; uma lembrança tão obscura que chega a fazer parecer mesmo que os idealizadores do doc eram “fãs de verdade”. Participantes marcantes estavam lá, mas outros que precisavam falar sobre o pioneirismo de suas presenças (como André Gabeh, Leka e Vanessa Pascale) estavam ausentes.

Soubemos que Ariadna quase foi cortada; que Marisa Orth (que sempre disse coisas importantíssimas) também falou e foi limada; que Tiago Leifert falou quatro frases… a lista é longa. Ao invés do bom aproveitamento do tempo, animações infantis ridículas enfeitavam os longos – e delusionals – depoimentos de Bambam. Era muita coisa e pouco espaço, claro. Mas, esse pouco espaço – que poderia ter sido usado para discutir um pouco da cultura do cancelamento, por exemplo – foi gasto com passagens completamente irrelevantes da história do programa.

De tudo isso salvou-se pouca coisa, como a iniciativa de procurar Emily para falar dos abusos que sofreu; de relembrar Marcelo Dourado e suas horrendas declarações no BBB 10; e de mostrar a própria Ariadna depois de todo esse tempo. Foram boas também as entrevistas com Grazi, Jean, Ana Paula, Juliana Alves e Sabrina. Sabemos que havia muita coisa para ser dita e analisada; e que nenhuma profundidade sobre o assunto viria de dentro da própria casa. Contudo, o documentário peca menos pelo que ele omite e mais pelo que ele resolve destacar. Junte a isso uma edição sem nenhuma coesão – maluca mesmo – e a ressaca é inevitável. Expectativas jogadas fora.

Assim foi também a estreia da temporada 25. Estreias, aliás, nunca foram o forte do programa. A estrutura é sempre a mesma; com todos entrando aos poucos e os perfis sendo exibidos entre os blocos. A produção não parece conseguir chegar até nenhum outro tipo de formato que não seja esse; e quando tentou fazer algo diferente extrapolou o número de participantes em dinâmicas que atrapalharam a fluidez da edição. Colocando assim, parece mesmo que manter tudo na mesma melodia parece a alternativa mais segura. Dessa vez, o máximo que fizeram foi recuperar a esquecida “caravana” que levava os participantes do hotel para a casa.

A dinâmica de duplas pode ser interessante, desde que elas tenham sido escolhidas baseadas em tensão e não de maneira puramente aleatória. O BBB não é uma competição de talentos e sim de convivência; se não houver tensão não há conflito. A lógica precisaria ser um pouco parecida com a de “Ilhados com a Sogra”: uma ou outra família fofinha, mas em sua maioria, duplas de genros/noras e sogras entram lá já com um histórico de drama. No BBB, à primeira vista, parece que eles só queriam a Vitória Strada e ela trouxe o amigo junto, por exemplo.

Há duplas com potencial, contudo. As coisas entre a policial Aline e o amigo Vinicius não parecem um mar de rosas. A dupla do circo – o pai Ed e a filha Raissa – preenche uma cota recorrente de participantes deslumbrados e cômicos; que podem dar certo ou podem cansar muito rápido. Os gêmeos de Goiás também preenchem a necessidade dos “caipiras de coração baum”. E embora Gracyanne Barbosa e Diego Hypólito tenham entrado em duplas, é bem provável que se destaquem bem mais que seus pares.

Infelizmente, a produção voltou a insistir no “twist” dos participantes escolhidos pelo público para entrar na última hora. Três duplas se apresentaram na Ana Maria Braga e uma delas foi votada para entrar na casa na estreia. Os envolvidos podem achar que a artimanha funciona, visto que Davi Brito – o campeão da edição 24 – foi escolhido assim. Mas, se o futuro campeão entra para competir por conta de uma votação e não pela seleção imediata; o que isso não diz também sobre esse processo? É extremamente cruel com aqueles que não entram e que por terem sido expostos como candidatos, perdem a chance de tentar de novo.

Ainda é cedo para se aprofundar mais intensamente, mas considerando que está tudo lá como sempre esteve (até a prova longa cheia de propaganda) não temos tantas razões assim para esperar uma edição melhor; seja na sua produção ou na forma como ela será recebida aqui fora; o que tem sido o verdadeiro problema do programa nos últimos anos. Para que vivamos uma boa edição dependemos de tanta coisa… Bom elenco, organização do jogo estável (Boninho andava deixando o cálculo estratégico impossível); provas interessantes; público não elegendo vencedor antes da metade do jogo… enfim, tanta coisa.

Mas, apesar da desconfiança, vamos de coração aberto. No calendário do brasileiro, o Big Brother fulgura como uma das nossas peças de entretenimento mais presentes e comentadas; responsável pelo preenchimento de três meses de enfeite da rotina; o que para alguns é um respiro bem-vindo diante da loucura dos dias. Não tem dado certo; tem sido estressante; sombrio; e menos divertido que antes. Mesmo assim a gente torce, afinal de contas, “se querer é poder tem que ir até o final”.

Tem?

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