A primeira semana do BBB 24 trouxe à tona o pior dos participantes (e o pior de si mesmo).

A primeira vez que o Big Brother Brasil superlotou a casa foi em 2014. As semanas anunciadas como “Semanas Turbo” eliminaram seis jogadores com intervalos mínimos entre eles. O BBB 14 foi aquele em que Tatá Werneck entrou por uma noite; que tinha a Letícia seduzindo aliados como uma espécie de Parvati; que teve a acusação de abuso em cima de Marcelo depois dele tentar algo com Angela enquanto ela estava bêbada; que teve o muro separando os participantes das mães deles e que teve Vanessa como vencedora.

Foi um Big Brother de uma era diferente, em que o programa ainda tinha muita audiência, mas que ficou perdido numa linha mediana de repercussão. Costumo considerar as edições 12, 13, 14, 15, 17 e 19 como parte desse período; com as boas edições 16 e 18 esmagadas no meio. Foi um período longo; e o BBB 14 – o Turbo – fez pouca diferença nesse amontoado de irrelevância.

E eis que 10 anos depois, na edição 24, Boninho resolve repetir o formato, mas aumentando ainda mais o número de participantes. No BBB 14 eram 20; agora são 26. 18 entraram no formato clássico e outros 8 foram escolhidos no sistema de seleção mais injusto de toda história dos realities.

Esse Modo Turbo, enfim, mostra suas “mangas” de cara; e elas geralmente escondem o mesmo problema. Tudo sobre esse Modo Turbo é sobre não conhecer ninguém direito, sobre não ter critérios, sobre não saber para onde se está indo… Das 14 pessoas confinadas no grupo chamado de “Puxadinho”, apenas 8 entraram. Duas foram escolhidas pelo público depois de um simples VT e as outras 11 (uma desistiu ainda no hotel) ficaram dentro de um “aquário”, no meio da casa – ou seja, com a realização do sonho separada por um vidro – dando um depoimento de 30 segundos que resultaria ou não na sua permanência.

Os 18 do elenco fizeram a única escolha viável: foram nos que fugiam dos padrões de privilégio. Para o que provavelmente foi o pavor da direção, todos os brancos e sarados foram eliminados; deixando para a casa um séquito de “pessoas comuns”; nada usuais para os critérios habituais do programa, mas com um potencial para contar histórias diferentes. O único problema é que numa casa com 26 pessoas, nem todo mundo consegue aparecer, consegue brilhar… E quanto mais REAIS são as vidas dos participantes, mais eles têm a perder com tudo que acontecer lá dentro.

No meio dessa multidão, só dois movimentos são possíveis: ou você reconhece os pontos de tensão e se envolve sob o risco de cair no paredão… ou você fica num canto vendo tudo acontecer e corre o risco de ser lembrado só como aquele com quem “ninguém interagiu”. Maycon, o primeiro eliminado, foi parar lá por causa da ansiedade de “viver intensamente” o Big Brother. Talyta, que saiu em seguida, foi pelo motivo oposto: o silêncio.

O fato é que ninguém ganha com esse formato. Diferente do BBB Turbo de 2014, o BBB 24 teve uma boa dose de conflitos para uma primeira semana, mas isso só serviu para jogar os coadjuvantes em um lugar mais coadjuvante ainda. O “Puxadinho” está claramente intimidado, acuado, encolhido em um canto. Os seis camarotes se dispersaram, enquanto tem no lugar de dominação o jogo agourento de Rodriguinho; enquanto a produção lança viradas e regras que só deixam tudo mais desorganizado e caótico (sem que isso seja nem divertido).

O BBB se tornou uma espécie de “monstro comercial” desarvorado; vendendo e vendendo todo tipo de coisa a cada novo dia. Suspeito até que o Modo Turbo foi trazido de volta para aumentar o número de provas do líder até o limite do suportável; e com isso abrir espaço para mais marcas serem anunciadas todos os dias. Essas provas são pensadas privilegiando essas mesmas marcas; ao invés de reforçarem o nosso entretenimento; e acontecem no ritmo da nossa frustração, que somos obrigados a vê-los lendo cards sobre as qualidades de um amontoado de empresas.

Contudo, nada é mais hediondo que o tal do ‘Na Mira do Líder’. O líder – que deveria ser a autoridade maior da semana – tem seu jogo exposto quando anuncia seus alvos; dá tempo a eles de se rearticularem; perde o direito de mudar de ideia e ao invés de virar alvo só de quem levou o voto, vira alvo de três. De súbito, o antes ambicionado líder virou o cargo mais rebaixado do programa; e oferece como “vantagem” apenas um quarto com fotos e Pringles. Lamentável.

Turbolências

Podemos dizer que essa primeira semana teve os seguintes protagonistas:

Yasmin: Se fichas tivessem sido apostadas, Yasmin provavelmente não teria sido o nome mais “comprado” pelos apostadores. Mas, não só ela entrou disposta a descer desse “pedestal” de divindade da beleza e da riqueza, como acabou se tornando alvo de comentários maldosos sobre sua aparência; o que a fortaleceu aqui fora pelo menos. Contudo, assim como Wanessa, Yasmin tende a digredir, o que pode ser um passo para a fotossíntese.

Rodriguinho: Até agora Rodriguinho é o grande vilão da edição. A começar pelo agrupamento de “minions”, que como bem conhecemos, traçam seus destinos a partir das reuniões que ridicularizam as mulheres ou oprimem outros jogadores. O comportamento de “bando” dos homens heterossexuais que já passaram pelo programa é um tipo de jogo; é aceitável… desde que isso não inclua misoginia e machismo. Rodriguinho já disse tantas coisas problemáticas que dificilmente terá chances de redenção. A conversa entre ele, Nizam, Vinícius e Pizane no quarto do líder foi uma das mais odiosas que tivemos o desprazer de presenciar no BBB.

Nizam: Nas últimas 48 horas ninguém foi mais odiado que o Nizam. E ele mereceu essa energia. Falou mal de Vanessa Lopes, passou panos quentes quando Alane lhe entregou, sufocou a menina com um baita gaslighting, inventou para Vanessa uma história totalmente diferente, colocou uma contra a outra e saiu de bonito. Um comportamento de manipulação que seria invejável, se não fosse tão completamente babaca.

Davi: Até a madrugada desse dia 15, só havia motivos para torcer pelo Davi. Nizam ser confrontado era tudo que queríamos; mas isso sem dúvida não incluía uma fala homofóbica gigantesca. Ao gritar para Nizam que “era homem e não um viado”, Davi esvaziou seu discurso e me decepcionou profundamente. A começar pelo fato de que a palavra “viado”, quando é dita por um homem heterossexual, tem outro tipo de conotação – sendo ela uma gíria ou não. Fica mais grave porque CLARAMENTE ele não falou dentro de um contexto em que poderíamos chamar aquilo de gíria. Aquele era um homem adulto, articulado e inteligente, que usou uma frase que perpetuava a ideia de que ser “viado” depõe contra a hombridade de alguém.

A criação difícil dele também não é desculpa, porque a misoginia e machismo que os outros homens da casa demonstram também vieram da maneira com o qual eles foram criados; e nem por isso eles estão sendo defendidos quando tudo isso vaza de dentro deles. Davi é um homem preto e pobre, que entende o que é preconceito (e como entende). Se ele foi agredido e pressionado para ‘ser homem’, é porque ele sabe o que significaria ser “a outra coisa”. Ele é um jovem que representa o país e seria lindo vê-lo chegar até o final. Mas, homofobia é homofobia; e pronto. A fala dele vai alcançar milhares de casas em que jovens gays que vivem em situação de violência, verão pais, irmãos, vizinhos, ecoados a partir desse acontecimento. E o que Davi falou será uma forma de validá-los.

Ainda bem que lá dentro existe um Michel, que chamou-o para uma conversa, explicou como aquilo era ruim e conseguiu que Davi se desculpasse e voltasse atrás. Foi momentâneo, vindo de uma pessoa que gostamos, mas foi real. Gente que a gente gosta também erra. E quando se desculpa merece o crédito. O que temos mesmo é que torcer pela eliminação de Nizam, que usou a mesma estratégia de Marcelo Dourado no BBB 10 – quando Dicesar e ele se desentendiam – e deixou seu adversário se exaltar sozinho. E isso, é claro, porque o estereótipo de agressividade gruda bem mais rápido em um rapaz preto do que em um homem branco.

A bolha do ex-twitter se acalora muito diante de acontecimentos como esse, mas é importante que qualquer bolha, de qualquer lugar, continue levantando essas discussões que o programa eventualmente provoca. Infelizmente, o episódio também serviu pra mostrar que homofobia ainda não gera a mesma indignação que se espera de quem se apressa para condenar racismo e misoginia.

O BBB é um reflexo direto do organismo social; e se essa primeira semana Turbo foi minimamente digna, devemos isso muito mais ao que foi dito do que ao que foi feito. O BBB 24 tá ganhando pela palavra, pelo verbo; e não pelo circo mirabolante de merchandising desenfreado que a produção determinou.

O que faz um reality show não é a forma, é a pessoa.

Priorizem gente… e tudo vai sempre dar certo.

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