O único modo que dá para seguir é para frente. Isso de ir e voltar é brincadeira da ficção, que desafia todas as estruturas convencionais para contar suas histórias. A paixão pelo tempo como o grande tema das narrativas vem construindo um tópico para o assunto. Se olharmos diversas produções da televisão, que é o nosso principal tema no portal, vemos muitos programas falando sobre retornos, repetição de momentos ou mesmo sobre o grande e devastador processo de deterioração das coisas — ou das pessoas.  

Mesmo essas séries, que vão e voltam, que repetem seus seguimentos e apresentam personagens presas em ciclos, mesmo elas, estão falando sobre movimento. Isso porque, mesmo quando o corpo não se move, move-se o tempo. O imperdoável tempo. Este é aquele que aparece como principal justificativa para a cena inicial da nova temporada de Better Things. Não por acaso, nossa protagonista inicia a jornada do terceiro ano de frente ao espelho, contemplando as mudanças de si — atriz e personagem. Sam volta mais gorda e sublinha isso com suas piadas diante disso. Pamela Adlon volta sozinha, acumulando mais papéis na produção da série que lhe deu um generoso lugar em nossos corações e na grade de seu canal. Sobre tempo, comunicação e maturidade, Better voltou inteira: não falta nada; não falta ninguém. 

A última vez que vimos nossas garotas foi em dezembro de 2017. Esse grande período de hiato não poderia passar em branco dentro da história — até porque temos um elenco jovem demais para se manter na mesma linha narrativa por muito tempo. Assim, se antes dançamos e sorrimos com a formatura de Max (Mikey Madison), nós a encontramos pronta para os próximos passos de sua vida, já a caminho da faculdade, em outro estado. O início aqui é na despedida — mais uma prova de que, mesmo abordando situações comuns e ordinárias, Better está longe de ser qualquer comédia.

Better Things.

O roteiro de Chicago é bem planejado: começamos com Sam, passamos à sua relação com a filha, voltamos à Sam e fechamos com Sam e Frankie (Hannah Alligood). Por que fazemos este percurso? No começo vemos uma mãe contemplando seu corpo e nos avisando que há mudanças em sua vida. Depois, as mudanças são provadas na relação com a filha mais velha, que agora compartilha segredos, abraça-a afetuosamente em público e confessa seus medos sem que haja uma grande cena com isso — como já ocorreu; dessa vez, ela confessa porque a relação atual das duas melhorou o bastante para isso. Voltamos para uma Sam instável, mesmo que não admita, e concluímos que, mesmo com o descanso dado pela graduanda, a filha do meio não vai facilitar. Com a cena final isolada, temos apenas Frankie sendo tão irritante quanto sempre, mas, nesse planejamento, é um espelho da relação com Max e de como as coisas seguem seu curso, como uma filha toma o lugar da outra até que acabem (na lógica dos afortunados) no ensino superior, longe de casa. 

Com esta relação diferente, ganhamos momentos bonitos entre mãe e filha. A comédia se despe nessas escolhas para abordar o íntimo — o episódio inteiro é íntimo demais. Como nós costumamos reparar o íntimo no gesto, no olhar (é assim que nos tornamos e avaliamos a intimidade que temos com uma pessoa), a série também o faz: coloca Max olhando para a câmera. O gesto eu visualizo na edição, em como as coisas desaceleram e temos corpos se mexendo vagarosamente — algo que, novamente, ocorre com a mesma personagem. Estaria o roteiro e a direção, assim, falando-nos que, finalmente, estamos íntimos dela?

Better Things.

Vale notar também a constante quebra dos momentos confessionais entre mãe e filha: elas são interrompidas duas vezes quando estavam prontas para criar um momento. No jantar, a conversa flui, mas quando Sam decide criar um momento de intimidade com a filha, algo para recordar, os possíveis novos amigos da garota surgem e atrapalham. O mesmo ocorre quando Max tenta criar um momento com a mãe, falar sobre si e suas angústias. Talvez as duas cenas mostrem que, no fim das contas, na vida os momentos de monólogos que planejamos nem sempre ocorrem (ou pouco ocorrem), como outras séries dão a entender. 

Não sei muito bem como colocar a próxima observação, mas, durante o episódio, me peguei perguntando se todo o grande esforço que Sam faz não é mais uma característica da personalidade dela do que de fato uma vida que tanto demanda. Explico: na cena em que ela precisa carregar aquele tanto de mala, não dava para chamar/pagar alguém? A matriarca da família está longe de ser alguém com problemas com dinheiro, então não seria mais fácil (e de quebra lhe renderia mais tempo com a filha) se aquilo fosse feito por alguém que não padecesse tanto na tarefa?  

O episódio, dessa safra de dez que será toda dirigida por Pamela, também arruma tempo para algumas cutucadas: você reparou na camiseta de No Vaccine no terminal, de uma mulher, mais jovem, que passa antes de Sam no detector de metais? Vale ou não uma refletida sobre isso? Dá para colocar ao lado da cena dela sendo servida por, novamente, uma menina bem mais nova e pensar se não há um olhar de sarcasmo sobre a geração atual de mães ou de garotas. Afinal, com essa crescente campanha de não-vacinação das crianças feita por mães que se orgulham dessa decisão, faz certo sentido que uma série sobre maternidade se pronuncie nesses detalhes. 

Outra alfinetada está em colocar a protagonista conversando com um filho de imigrantes. Isso situa o show dentro da discussão, mas também nos dá outro momento de Sam interagindo com estranhos. Retomando o meu pensamento sobre sua composição como essa pessoa tão comprometida com esforço às vezes delegáveis, há um constante movimento na vida da atriz (a personagem), que faz muitas coisas e é muitas coisas. Quem se movimenta muito e passa o dia indo do trabalho para a casa, cuidando das filhas e das burocracias de sua profissão, como se comunica, com quem conversa? Só lhe resta os desconhecidos e essas pequenas conversas, nas quais deixa transparecer seu amor materno, seu humor afiado e sua consciência de pessoa que não tem medo de se posicionar. 

E a pequena Duke? Para falar dela, vale falar sobre aquela figura que nos deixou meio confusos sobre o que havíamos perdido de informação nas temporadas anteriores. Não, não tínhamos entendido errado, o pai de Sam não está vivo. Ele apareceu como fantasma para mãe e filha no episódio. Para a mãe, parece a representação do ex-produtor da série, que colocou a vida da personagem (e atriz e toda a equipe) em turbulência com os escândalos envolvendo seu nome. Para a filha, é difícil saber o grande motivo e aonde vamos com esta história.

  

Phill não ficou de fora, mas não nos deu tanto material, por enquanto, para interpretarmos. Pulo para a peça lida em voz alta na cena final, então. Frankie e Sam se revezam para falar de envelhecimento dos móveis, da casa, no começo do texto dramático lido. Better Things está passando por este envelhecimento — mesmo as personagens secundárias têm movimento em suas vidas, dado nos detalhes. A passagem do tempo aqui não está naquela perigosa jornada de perda de identidade pela qual passam muitas séries. Pelo contrário, falando sobre tempo, a série de Pamela Adlon está cada vez mais próxima de si, de sua maturidade narrativa e visual. 

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Vocês pediram e dessa vez, em vez de um texto para toda a temporada, teremos um para cada episódio. Espero que nossa conversa renda bastante!

Se você veio ao texto só por curiosidade e perdeu os anteriores, temos nossas primeiras impressões aqui, um sobre a primeira temporada aqui e sobre a segunda aqui.

 

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
better-things-03x01-chicago-season-premiereMais uma prova de que, mesmo abordando situações comuns e ordinárias, Better Things está longe de ser qualquer comédia.