Better Things foi assunto por aqui há um ano quase cravado. Na nossa conversa, além de apresentar a série a partir de seus bastidores, falei sobre a sempre audaciosa proposta de buscar no simples o enredo principal da produção. Desde então, nove outros episódios foram exibidos, a comédia foi indicada em diversas premiações, foi apadrinhada pelos críticos, ganhou um seleto grupo de fãs e teve sua renovação anunciada. Chegado o momento do já cultuado retorno, passou da hora de conversarmos sobre a temporada inicial. Fica combinado, desde agora, que as informações básicas constam por lá e, depois de reler, reafirmo o que ficou escrito como primeiras impressões.

Sabe essas pessoas que você vê todo dia? Aquelas que parecem ter resolvido tudo e feito as escolhas certas? Olhe para você. Você parece uma dessas pessoas. Tudo o que elas fizeram foi colocar as suas roupas.

Sam Fox dando um conselho.

A primeira temporada foi dividida, como adiantado, em dez episódios de pouco mais de vinte minutos. O tempo curto em tela não atrapalha a narrativa. Não há qualquer momento no qual se sinta a ausência de outras cenas para complementar a história. Better Things sabe aproveitar seu tempo e não se perde preenchendo espaços sem necessidade. Além de conciso, o roteiro é direto; os episódios caminham por diversos temas com um evidente planejamento. O domínio do texto não transparece apenas no enredo, mas na interpretação de Pamela Adlon e na construção de sua Sam.

Poderíamos definir esse conjunto de episódios exibidos em 2016 como um recorte na vida da protagonista. Através dele, não só a conhecemos como a entendemos, mesmo que possamos discordar algumas vezes sobre o modo como reage às situações envolvendo as filhas. Sam é quase uma personagem criada para nos desafiar e desafiar esse instinto de dar conselho em situações externas a nós.

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O período escolhido, ainda, não é ao acaso e mostra a fase mais cansativa de sua rotina. Ela se vira para fazer diversos papéis, aparecer em diversos testes e se compromete a viagens enquanto precisa levar e trazer suas filhas. A exaustão não vem só dessa rotina, mas dos constantes conflitos no relacionamento com as garotas. Elas parecem falar outra linguagem e querer coisas inalcançáveis. É quando sua mãe precisa se lembrar do momento em que estão e da constante descoberta do mundo vivenciado por elas.

A produção do FX é sustentada por cinco personagens, e todas elas são interessantes e complexas, passeando por defeitos e qualidades, tornando a experiência de acompanhá-las mais completa: não lidamos aqui com arquétipos do feminino, criadores de uma quase mitologia dentro da mídia televisiva e vendidos como a realidade fora das telas. Algo relacionado ao investido por Pamela da experiência pessoal como mãe. É nítido que não só os episódios são dedicados às suas filhas, mas há muito delas e de si mesma ali dentro.

Você pode ser quem você quer ser. Sério! Mas também, se você quiser arrumar um emprego e deixar o tempo passar, você ainda amará sua vida. Porque a vida é boa. Mesmo nos piores momentos.

Sam Fox dando um conselho (parte 2)

As mulheres da série são completamente diferentes entre si, o que não impede que consigam tirar bons momentos da convivência, por mais que a maioria do tempo estejam em conflito. Este é gerado pela personalidade forte delas. Não é como se estivessem se esforçando para se agredirem, mas conhecem as consequências das próprias atitudes e por elas não se desculpam — não sempre.

O tempo dividido entre elas é ótimo e cada uma tem o seu momento, seja quando Phyllis conta algum segredo ou quando Duke deixa escapar um palavrão perto da mãe. Outro ponto positivo é a composição do elenco fixo pelas cinco atrizes. Os homens são recorrentes, mesmo quando aparecem dando a sensação de uma possível permanência. Uma prova de que, por mais que haja a presença deles em sua rotina, mulheres não precisam de homens para contar suas histórias.

Max e Frankie tiveram dois conflitos fortes nesse primeiro momento da série. A primeira está se aproximando dos dezoito anos, o que gera reflexões, dúvidas e algumas conclusões pelas quais boa parte dos telespectadores deve ter passado. O auge desse incômodo (talvez a justificativa para o comportamento tantas vezes irritante da personagem) se dá em Future Fever, quinto episódio — mais conhecido como a submissão de Pamela Adlon ao Emmy. Frankie, enquanto isso, passa por uma fase também complicada, principalmente por conta da sua falta de consciência sobre seus dilemas e sobre si. Com o tempo, percebemos que não é só uma garota questionando gêneros e explorando as possibilidades que o presente permite, mas alguém que talvez não tenha se encontrado no próprio corpo. É uma discussão interessante, importante e  provavelmente abordada na segunda temporada.

A série ainda tem tempo para falar sobre religião. Em Duke’s Chorus, um dos episódios mais divertidos, além de dar uma cutucada, fala sobre respeito, maternidade e carreira. Também assistimos o desdobrar de tramas que retratam sexualidade feminina, feminismo, relacionamentos adolescentes, racismo, entre outros. Há um constante tom pessimista passeando pela comédia — ou talvez realista? —, responsável por momentos desagradáveis, afinal, nem tudo dentro desse gênero precisa obrigatoriamente nos fazer rir, algo que as produções da categoria têm nos mostrado com mais intensidade nos últimos anos.

Outro destaque em Better Things desde o começo é a química incrível que as atrizes têm entre si. Segundo Pamela, esse é o resultado de uma intensa pesquisa para achar as atrizes corretas, além de jogos e exercícios feitos no preparo para as cenas. Eu adicionaria que a experiência e o comprometimento dela com o projeto também são responsáveis por essa atmosfera. Vale sublinhar também a metalinguagem que tira sarro de como os roteiros da tevê estão enfraquecendo e do quão complicado é trabalhar para esse meio.

É possível entender o título da série de duas maneiras. Segundo sua criadora, ele é positivo e reflete o desejo de “fazer coisas melhores”. É o impulso de melhorar nossa rotina a partir da percepção de que algumas coisas estão ao nosso alcance, como nossos atos. Tirado de uma música dos The Kinks, o título também pode se referir ao mantra diário de diversas pessoas: suportar o hoje porque o amanhã pode trazer coisas melhores. Não é tão positivo porque parte do princípio de que há algo de errado com o presente, mas não deixa de ser uma alternativa à desistência. Afinal, isso não cabe nas personagens aqui.

Olivia Edward quebrando a quarta parede sem querer.

Não só uma série sobre o relacionamento entre mães e filhos, Better Things é sobre o espetáculo do agora; aquele ignorado quando acreditamos que nada está acontecendo; aquele deixado de lado quando encontramos alguém por aí e dizemos tudo bem, nada novo; aquele esquecido por quem passa tanto tempo no futuro ou em realidades paralelas, imaginando como as coisas poderiam ter sido ou como serão daqui a pouco. A série é a meditação que se pode fazer sobre as pequenas coisas para tirar delas o humor, o constrangimento, a dor e o absurdo que é estar vivo.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.